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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

TERRA DO NUNCA

O desaparecimento de Michael Jackson além de ter sido uma surpresa, remeteu-me aos meus oito ou nove anos de idade quando li pela primeira vez a estória de Peter Pan, em adaptação de Monteiro Lobato. Na verdade, conforme me contou minha avó “Dona Benta”, esse romance infanto-juvenil originou-se em uma peça teatral de James Mattew Barrie chamada Peter and Wendy que foi encenada pela primeira vez na Inglaterra no começo do século XX. O interessante nisso é que o livro originou-se da peça, inversamente ao que normalmente acontece.

Meu pai adquiriu a coleção infanto-juvenil de Monteiro Lobato, com todas as suas obras e adaptações e me tornei um dos milhares de netos de “Dona Benta” e sobrinhos de “Tia Anastácia”. Passeando pelo Sitio do Pica-Pau Amarelo, além de conhecer Peter Pan, pude aprender gramática e aritmética com a Emilia, saber da existência de petróleo no Brasil com o Poço do Visconde, conhecer a mitologia grega nos Doze Trabalhos de Hércules, entre tantas outras viagens que o pó de pir-li-pim-pim me proporcionou. Aos que não leram permito que me invejem (mas ainda é tempo)

Peter Pan recusava-se a crescer, preferindo ir para a Terra do Nunca onde viveu e liderou outros meninos e meninas com o mesmo ideal, entre aventuras e lutas contra o malvado e opressor Capitão Gancho, símbolo do capataz que sequer sabe a origem de sua malvadeza. Tanto Peter como seus seguidores eram órfãos miseráveis. (Aliás, se a estória se passasse aqui no Brasil, em qualquer época, não faltariam miseráveis nem capitães gancho).
No começo daquele século o mundo, sobretudo a Inglaterra, iniciava sua revolução industrial. A miséria, fruto da desigualdade social que se instalou, campeou o Reino Unido, disseminando a fome e doenças, matando e desestruturando famílias o que resultou em muitos órfãos e mendigos. Dessa maneira o romance, que tinha como protagonistas, além de Peter Pam a senhorita Wendy, representante da classe média que foi aliciada a ir até a “Terra do Nunca” para conhecê-la e participar de suas aventuras, acabou mais engajado aos problemas da época, diferente da peça que era mais voltada para as aventuras e o entretenimento.

Da maneira que Barrie descreveu e Lobato tão propriamente adaptou, a façanha de Peter pareceu-me perfeitamente possível: Porque crescermos? Porque não sermos eternamente crianças e brincar do que quiséssemos, inclusive de sermos adultos? (Até de médico valia!!).

Depois como aconteceu com a maioria de nós, primeiro quis ser adolescente, depois “de maior” (principalmente pra ver filmes proibidos). Dessa maneira a “Terra do Nunca” foi ficando para traz, quase esquecida e Peter Pan perdendo-se em minha memória, quem sabe finalmente derrotado pelos “Capitães Ganchos” que povoaram e povoam a nossa existência.

Entretanto, com a morte do ídolo, hoje voltei a pensar no assunto e acabei por perceber que Never Land existe e está bem ao nosso alcance. Explico com um exemplo:

Juntemo-nos aos nossos filhos, pais, netos, primos ou amigos, não importando a idade nem a quantidade de pessoas e façamos uma pipa, ou papagaio, como também é chamado aqui em São Paulo.
Entenda-se “façamos” por:
-Entrarmos no bambuzal e escolhermos um bambu adequado - se for de alguma plantação de alguém desconhecido, tem que pedir ou roubar e correr muito (sem fazer ruído), pois como minha avó de verdade (a mãe da minha mãe) dizia –“O ruim não é roubar e sim ser pego com a mão na botija”
-De posse do bambu, afinar as varetas de acordo com o tamanho e modelo da pipa.
-Já escolhida a forma, barrilhete, maranhão, raia, estrela, barca etc., fazer a armação, utilizando linha 24, amarrar bem e deixar a forma bem “esquadrada”.
-Escolher o papel-de-seda nas cores que desejarmos.
-Dar uma paradinha porque ninguém é de ferro e tomar um copo de tubaina
-Recortar e colar a seda na armação.
-Fazer o rabo ou rabiola, de acordo com o modelo da pipa escolhido.
-Enrolar a linha 24 em uma lata, de preferência de óleo, não esquecendo de empapelar a lata e dar duas voltas na amarração, para o caso de, ao batizar a pipa (dar toda a linha) haver um amortecimento no final e ela não se quebrar (24 porque não queremos degolar ninguém e tem que ser corrente).
-Caso queiramos um trabalhinho maior, façamos uma carretilha de madeira com pregos e arame, que aumentará muito a eficiência do enrolamento.
Depois de pronto, achemos um lugar “legal” pra empinarmos a pipa, sem linha cortante, o que tornaria nossa brincadeira uma competição destrutiva. Apenas pelo prazer de estar ali soltando pipa e tomando tubaina.

Ao que parece a industrialização que começou lá no inicio do século XX chegou às pipas, fazendo com que ficassem tão baratas que nós as compramos aos montes para brincarmos com elas sem nenhum carinho ou respeito pelo brinquedo, transformando a brincadeira em mais uma guerra cujo vencedor e o vencido, como em qualquer guerra, são perdedores.

Claro que a brincadeira pura e simples não nos torna crianças, mas, desde que façamos as coisas da maneira mais tradicional e participativa, nos coloca no controle de nossas atitudes e nos tira do julgo da indústria e da mídia que nos bombardeia o tempo todo com “COMPRE, USE, VOCÊ PRECISA, SEM ISSO OU AQUILO VOCÊ NÃO É NINGUÉM, NÃO PODE PASSAR SEM” etc.
Sentirmo-nos no controle absoluto de nossas atitudes sim, nos remete a quando éramos crianças e “tudo podíamos”. Passarmos esse modo de vida adiante dará aos jovens a chance de continuarem nossa “criancice”. Eis aí a “Terra do Nunca”

Seguindo a perversa trilha das pipas, compramos celulares que não precisamos, automóveis de acordo com seu tamanho, televisores enormes que nem cabem nos apartamentos (que mais se parecem com “apertamentos”), tão grandes que, em breve, teremos que usar protetor solar para assistir a algum filme ou programa que aconteça em uma praia ensolarada. Brincadeira à parte, estamos à mercê das grandes corporações e induzimos nossos jovens ao insucesso pessoal já que, nunca estamos contentes com o que temos. Na maioria das vezes sequer desfrutamos de nossas aquisições e já as trocamos por outra mais moderna. Compreendo que o sistema seja assim e precise disto pra se manter, mas o exagero nos persegue, principalmente em grandes cidades.
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Somos bombardeados todos os dias com informações que não servem para nada e, quanto mais bombásticas, mais as procuramos e digerimos. Informações que vem aos borbotões sem possibilidade de crítica ou contestação, bem ao gosto das “elites”.

Estamos crescendo sem se saber fazer uma pipa, rodar um peão, jogar bolinha-de-gude (fazer balão nem se diga já que agora é proibido). Ou mesmo desenhar no chão o jogo de amarelinha, fazer uma bola de meia para jogar queimada e tantas outras brincadeiras que estão se perdendo nessa corrida em que, apesar de poder se falar com o mundo ao toque de um botão, nos comunicamos através de uma linguagem pictográfica que tem por objetivo abreviar a conversa. O bate-papo fica tão lacônico que fico imaginando a cena de dois meninos ou meninas do meu tempo em que não havia sequer telefone, conversando da maneira de hoje:
-E aí... blz?
Meia hora depois...
-Só!
Vinte minutos e...
-Té+
Rapidamente, depois de cinco minutos.
-Fui.
E o primeiro fica pensando: (Cara legal!!!Puta papo!!!)

Estamos correndo o risco de aleijar definitivamente nossas mentes, tirando-lhes o empirismo, base da criatividade e boa parte da cognição. Sem essas atividades que praticávamos entre amigos e familiares, perdemos boa parte do aprendizado, além de, no futuro, termos muito pouco pra contar.

Acho que nosso querido Michael, apesar da boa intenção, confundiu um pouco as coisas querendo comprar a “Terra do Nunca” e seus ocupantes. A essência de Never Land me parece estar na gratuidade, na camaradagem, no “se importar com os outros” e em tantas outras coisas que só dependem de nossa disposição.

De outra maneira só mesmo cheirando o pó... De pir-li-pim-pim é claro!

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