
Recentemente acompanhei no noticiário da TV uma ação de despejo efetuada por policiais militares, a mando da justiça, contra cerca de 2.000 pessoas que ocupavam um terreno de um bairro da zona sul de São Paulo, pertencente a uma empresa de ônibus que tinha dado a área como garantia de dívidas com o INSS, ou outro órgão parecido. Desde aí já estranhei que a justiça tivesse aceitado como pagamento, ainda que em forma de arresto, um terreno invadido, com pouco valor comercial e, naquele momento, com grande apelo social. Mas... Já que a justiça é cega...
A ação foi executada com muito alarde e com certa violência, pois os despejados, em atitude desesperada resistiam com barricadas, incêndios de automóveis, atirando pedras e bombas incendiárias contra os policiais e recebendo em troca bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e até balas de borracha. Toda a ação foi documentada tanto ao pé do chão, como por helicópteros que mostravam um trator, tal como um rinoceronte enfurecido, invadindo e destruindo os barracos impiedosamente. Em poucas horas tudo estava em ruínas, com diversos focos de incêndio, parecendo um campo de batalha onde ninguém sobreviveu.
Era um dia frio e chuvoso e podia se ver através das lentes o martírio que seria imposto àquelas pessoas: homens, mulheres, idosos e crianças de todas as idades, a partir daquele momento. No dia seguinte a reportagem ainda continuava lá e pude constatar que o resultado correspondeu à minha expectativa, pois muitas daquelas famílias tinham se abrigado ali mesmo, na rua, embaixo de lonas, juntamente com todos os seus parcos pertences e sonhos: geladeiras, TVs, aparelhos de som etc.. Crianças pequenas muito molhadas e sujas de barro, algumas com o olhar perdido, como que procurando o horizonte e outras brincando, sem perceber a repentina falta de endereço. Um de mais ou menos seis anos, arrastava outro, provavelmente seu irmão menor, pra chegar a algum lugar e me perguntei: Pra onde?
As famílias relutavam em seguir para algum abrigo da prefeitura, pois neles não são admitidas crianças o que acarretaria na separação de seus filhos. Tudo isso tornava a situação ainda mais dramática e acredito que nada tenha mudado ainda, para aquelas pessoas.
Nesse mesmo dia, à tarde, a noticia já era outra e falava de algum jogo do campeonato brasileiro, ou da possível volta de Ronaldo ou qualquer outra besteira política, dessas que lotam os noticiários brasileiros.
Dois mil desabrigados passaram de notícia dita aos berros pelos apresentadores a assunto velho em menos de 24 horas.
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Um dos jornalistas mais lembrados e festejados de nossa história recente é Euclides da Cunha, muito por ter sido o enviado do jornal O Estado de São Paulo para a cobertura da Guerra de Canudos que resultou em sua maior e mais conhecida obra: “Os Sertões”. Inegavelmente todas as homenagens que lhe são prestadas são justíssimas, pois, somente por suas reportagens e finalmente pelo romance, a sociedade da época ficou sabendo da calamidade imposta aos sertanejos, já miseráveis pelas questões geográficas (seca, fome etc.) e ainda destruídos impiedosamente pelo exército republicano.
Como sou assinante do Estadão, tenho recebido diversas matérias comemorativas ao centenário de sua morte e andei dando uma relida em sua obra prima. Traçando um paralelo, fiquei pensando: se Euclides estivesse entre nós hoje, teria a mesma sorte?
Cabem aqui algumas breves reminiscências sobre “Os Sertões”:
-Euclides da Cunha era formado em engenharia pela Escola Militar, ainda durante o período monárquico brasileiro, a despeito de ser um republicano convicto.
-Essa convicção, para se ter uma idéia, o levou a ser preso por atirar-se ao chão durante uma visita do ministro da guerra. Com a proclamação da república foi inocentado.
-Já escrevia para o antecessor do Estado, a Província de São Paulo e Rui Mesquita o designou para a cobertura da rebelião anti republicana que se instalava no interior da Bahia (pelo menos era assim que chegavam as notícias do conflito).
-Sua formação permitiu-lhe uma perfeita análise geoeconômica da região e sua sensibilidade nata fez entender e explicar muito bem aos seus conterrâneos e depois ao mundo, a relação entre o sertanejo e sua terra. Como mandava artigos quase que diariamente, compulsivo por detalhes, acabou fazendo um diário de toda a sua excursão, acompanhando o exército em sua última e fatal escaramuça.
-À medida que avançava ficava sabendo dos reais motivos que geraram o conflito e acabou por se desiludir em relação à república percebendo que, se de alguma maneira não reportasse aqueles motivos, estaria a serviço dos poderosos da época.
-Antonio Conselheiro, principal personagem de “Os Sertões” era um sujeito de paz e seu único crime foi tirar alguns sertanejos da mais absoluta miséria, organizando-os e afastando-os dos coronéis que os escravizavam. Dizia: “Quem quiser ter comida e dignidade me acompanhe”. Parecia mais um andarilho desses que a gente vê todos os dias e até com menos cultura do que lhe atribuem.
-O povoado de Canudos era um lugar miserável e destituído de qualquer interesse por parte dos manda-chuvas só que, organizado, atraiu muitas pessoas que preferiam se submeter às regras de Conselheiro a ficar sob o julgo dos centenários comandantes, sem nenhuma perspectiva de melhora. Pra se ter uma idéia da simplicidade do lugar, a palavra “favela”, designando uma comunidade, é homônima à ao nome da madeira que os sertanejos utilizavam na confecção das casas em Canudos.
-Por armação dos coronéis a policia acabou invadindo o povoado e foi rechaçada por jagunços egressos do cangaço, cansados de guerras, que se instalaram sob as ordens do Conselheiro.
-Dessa maneira, já que a proclamação da república era recente, os políticos da época informaram a capital do país, ainda no Rio de Janeiro, que se tratava de uma rebelião.
Deu no que deu: Mais de 10.000 mortos e destruição total do povoado.
Em 1896, antes mesmo da publicação de sua obra prima (15.08.1902) já se dizia um republicano desiludido, certamente pelas lembranças da guerra e de seus reais motivos, torpes e indignos. Em 1904, durante a excursão que comandou ao rio Purus, a pedido do Barão do Rio Branco, vendo a destruição imposta pelos brancos aos nativos intitulou: “Construtores de Ruínas”.
O que seria de Euclides hoje?
Sem motivação a não ser sua sobrevivência, em busca da última notícia que tem menos importância do que o anúncio de algum produto de limpeza ou inutilidade doméstica que é feito nas páginas dos jornais ou nos comerciais do radio e televisão. Preso a uma pauta ou uma tela de computador que devorariam suas palavras tal como um bode come milho e que teriam o mesmo destino do milho, mas com função menor ainda, já que não alimentariam ninguém. Sem contar o Copy Desk que lhe modificaria todo o texto.
Pobre Clidão (seria chamado assim?)
Provavelmente estaria metido em um terno de segunda categoria, cheio de palavras pré estudadas, sem tempo pra digerir a notícia de modo a fornecê-la com a qualidade de quem investiga, verifica, interpreta e produz opinião. Servo dos oligarcas, hoje mega oligarcas, que, tal qual faziam e ainda fazem os coronéis mandam segundo sua fisiologia política de momento.
No melhor estilo medieval poderia estar preso a uma rede de notícias, ligada a alguma igreja ou grupo econômico/político, dizendo apenas o óbvio: “Onde é que estamos? Autoridades como é que fica? Etc.”
Acho que até Rui Mesquita, na época já oligarca da comunicação, não sabia, tanto da real motivação do conflito como dos possíveis resultados de seu envio à linha de frente, pois, se soubesse, talvez mandasse um jornalista pautado com orientações bem específicas e, quem sabe, nem “Os Sertões” teria sido publicado.
Acontece que sua publicação aconteceu em um momento de baixa aprovação popular à república, o que facilitou as coisas. Os comandantes da nação estavam gostando daquela história de “poder” e não queriam largar o osso. Claro que “O Estado de São Paulo” já fazia oposição àquele estado de coisas que não interessava à burguesia emergente. Tudo devidamente encaixado: “Hora certa, lugar certo, motivação certa”.
No caso com que comecei estas páginas, sendo ele o repórter, não poderia utilizar sua forte percepção e sensibilidade para sequer descrever as situações que mencionei, pois uma câmera de vídeo ou fotográfica reportaria as imagens com tanta velocidade que, fossem quais fossem suas impressões, de nada adiantaria e o diretor mandaria que parasse imediatamente com qualquer envolvimento com a matéria.
“Ah! Clidão!”
E se fosse escalado para cobrir o noticiário político/policial de nosso atual congresso?
Aí seria catastrófico, pois estaria concorrendo com colegas que se portam mais como palhaços e humoristas de gosto duvidoso que tratam as falcatruas e desmandos como se fossem piadas que não nos fazem mal. Caso não se curvasse ao meio sequer estaria em grandes empresas de comunicação. Como exemplo existem hoje diversos comunicadores que, depois de conseguirem obter seu intento (perfeitamente justificado) de estar em uma grande empresa, com um excelente salário, curvam-se perante os poderosos que lhes dão de comer e ditam-lhes o que dizer.
“Já pensaram no Domingão do Clidão?”, ou
“Programa do Clidão?”, ou “Clidão Onze e Meia?”
É amigos... A coisa tá feia!!
Um bônus:
PÁGINA VAZIA
Quem volta de região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da guerra desapiedada e aterradora
Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente, (*)
Que possa figurar dignamente
Em vosso álbum gentil, minha Senhora
E quando, com fidalga gentileza,
Cedeste-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes
Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tristes?”
EUCLIDES DA CUNHA - 14.10.1897
(*)-ditirambo
1. Canto litúrgico em honra de Baco.
2. Poesia em que se celebra o vinho.
3. Qualquer poesia exprimindo entusiasmo ou delírio.
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Faço questão de postar o comentário muito elogioso de um amigo, Heleno Barbosa que, além de grande músico, procura, assim como eu o caminho a ser seguido pela humanidade, sobretudo nosso povo brasileiro que mostra em sua miscigenação a solução para a maioria dos problemas.
Apesar de tanta gente, acostumada ao poder desmesurado que desfaz toda a percepção de humanidade, fazer de tudo para que as coisas deem errado, como remissores dos pecados originais, tenho certeza, venceremos.
Muito obrigado Heleno
Tomo a liberdade para comentar o belo Artigo de Zanata sobre Euclides da Cunha. O texto é irretocável e brilhante, diga-se !! A grande sacada foi a sua projeção imaginária no sentido de que quem seria Euclides da Cunha hoje, mas vou ousar numa "resenha", sujeita ao crivo do autor que assim deverá fazê-lo sem pudor.
Euclides da Cunha, segundo Zanata, à semelhança dos grandes vultos históricos planetários, se "converteu" no meio da caminhada, pois aquilo que seria uma simples matéria jornalística, acabou por se transformar numa importante obra literária, por assim dizer, tamanha sua sensibilidade ante à barbárie muito bem travestida de razões político-republicanas, cujos protagonistas não passavam de genocidas de segunda classe. Qualquer semelhança com o General Guatierez no episódio "Guerra das Malvinas" , dos neos-genocidas George W. Bush e Tony Blair na recente invasão do Iraque, apoiado pelas mais rasteiras das classes empresariais do planeta, não será mera coincidência não, e sim uma constatação de fatos.
Analisando o texto de Zanata, ocorreu-me, sinceramente, como nunca ocorreu em outras leituras sobre o mesmo assunto, que o despertar de Euclides da Cunha para os fatos reais, em face da satânica incursão da facção de oligarcas nas hostes do poder absoluto, sempre coesos quando a indústria da miséria é ameaçada, e que até hoje recusam-se a "largar o osso", também não é mera coincidência, mas situações análogas, quando comparadas com os despertares de Paulo de Tarso, quando a caminho de Damasco, e de Agostinho quando em prantos nos jardins do Palácio Imperial de onde ele ajudava a governar a plebe com sua rara inteligência e de onde partiu para olhar melhor a grande missão que deixara para traz na Africana Tagaste onde nascera. "Caiu a ficha" mesmo, no meio da missão !!
Realmente ele estaria a um passo de ser um Clidão na atualidade (outra tirada sensacional do Zanata !!), porque hoje já não funciona mais a estratégia feudal do "pão & circo", visto que, o que a grande mídia do terceiro milênio nos oferece é somente lixo (não reciclável por sinal) que impediria qualquer opinião que viesse a contrariá-los. Aliás, não precisa muito para desagradá-los, pois tudo que para eles não é aplauso é ofensa. Lixo é bem pior que pão & circo !!...saudades da idade média ??!!...Marilena Felinto, brilhante jornalista que foi defenestrada da Folha de São Paulo, que o diga.
Mas felizmente ando constatando o nascimento de vários Euclides da Cunha nas periferias de S. Paulo, pelas obras de poetas periféricos (conheço vários deles pessoalmente), artistas anônimos, intelectuais auto-didatas e de legítimos líderes comunitários, os quais, uma vez desiludidos com essa grande mídia, estão instruindo com muito desapego o povão tido como ignorante por várias gerações.
Esses "Euclides", a julgar pelo que constatei, jamais deixarão o "Clidão" vingar e estão conseguindo disseminar o feito em todas as demais cidades com grandes populações suburbanas e ultra-periféricas. Além desses "Euclides" cosmopolitas, é necessário ressaltar a magnífica significação do Movimento Mang Beat pelas mãos dos pernambucanos Chico Sciense e Fred Zero Quatro, até hoje pulsante em todos os corações dos meios culturais populares politizados, que ganhou até honras em níveis espirituais dos mais conhecidos dos "Euclides" da atualidade, Tom Zé e Gilberto Gil. Isso dá muito alento, pois esses "Euclides" andam reunindo-se semanalmente em Saraus literários e ganhando a cada ano adesão daqueles que já estão cansados da ilusão do "pão & circo" e sobretudo do bagulho que a alta esfera midiática oferece em forma de "merda enlatada", principalmente nas TVs.
Recomendo, pois, ao caro Zanata, pelo menos para não perder as esperanças, pois o legado de Euclides da Cunha está vivo e atuante. O povão, agora cada vez mais experimentado, desvencilhando-se pouco a pouco dessas corporações sem face e sem alma, que sempre querem falar em nome de todos, é o legítimo herdeiro e o fiel representante dos guerreiros de Canudos.
Quanto aos oligarcas, não posso dizer o mesmo e nem dar boas notícias sobre eles, pois suas classes estão representadas pelos nefastos expedientes dos traficantes de drogas, os quais, por sinal, estão loucos para exterminarem os "Euclides".
Heleno Barbosa