TUDO seguia na mais absoluta normalidade: Sabadão, solão de rachar mamona verde, daqueles dias que a gente, que gosta de praticar um futebolzinho sadio com os amigos, onde a briga e os pontapés são permitidos, desde que tudo em nome do bom e velho esporte bretão e que, depois do jogo, tudo termine em cerveja, quase como fazem os políticos de nosso país. Quase porque, no nosso caso, o prejuízo é nosso: hematomas, sede de vingança na esperança de na próxima semana descontar (o que acaba não acontecendo, pois quem bate e quem apanha são sempre os mesmos). No caso dos políticos o prejuízo também é nosso e o lucro deles. Afinal eles nunca poderão ter nem entender nosso prazer nem nós o deles então é melhor deixar prá lá e seguir nosso assunto.
Oito e meia da manhã. Peguei minhas tralhas, que sempre preparo no dia anterior, pois o bom futeboleiro leva, além dos apetrechos para a prática esportiva, outros para a prática cachaçativa, tais como copos descartáveis, a marvada em uma garrafinha discreta, tipo de algum isotônico. Não tem a menor graça todo mundo saber o que tem lá dentro da garrafinha em que todo mundo quer se benzer antes da peleja e às vezes durante também. Como diz meu amigo Kaxxa, nunca aparece ninguém com a palavra (bíblia), mas com a danada!
Lá pela uma da tarde já estava de volta. Cansado, melado e pedindo a Deus que o mundo acabasse só depois que eu chegasse em casa (pra morrer dormindo). Naquele tempo ainda morava em uma casa modesta de quarto, sala e cozinha e sempre entrava pelos fundos, pois ai de mim se sapateasse areia na sala já que, naquele tempo o futebol soçaite era praticado em campos de areia. A porta ficava em frente à geladeira. Logo que entrei, antes mesmo de me desfazer de minha bolsa, que trazia a tira-colo, procurei um copo com água gelada que aplacasse a sede, a ressaca que já se instalava e a insolação. Aquele mês de Maio estava atípico: muito quente e seco.
Ao abrir a porta da geladeira caiu um pequeno envelope no chão. Sem dar importância tomei a água e devolvi a garrafa ao seu lugar. Abaixei-me e peguei o envelope no qual li: Para Marta e família. Já imaginando o que poderia ser não deveria, mas abri o envelope. Dito e feito: Casamento da irmã de alguém. Pensei em não dizer nada, mas não sabendo o grau de amizade que havia entre quem convidou e minha esposa, fiquei sem jeito e chamei a atenção dela pra o convite.
¬Temos que ir ¬disse ela ¬Fulana me convidou e faz questão de nossa presença.
¬Então chama os meninos e se apressa, pois aqui diz cinco da tarde naquela igrejinha lá de cima, perto do colégio.
¬Mas tem que ser tão depressa?
Já começava a discussão que nem vou descrever já que alongaria demais a estória.
O que sempre foi muito bom no nosso relacionamento é que sempre acabamos rindo de tudo o que acontece, sobretudo essas roubadas. Entre uma briga e outra a gente sempre dá boas risadas. Acho que esse é o segredo da gente se aturar por tanto tempo.
Tomei mais um ou dois copos de água pra amainar mais um pouco a situação já que o tampo da cabeça insistia em querer explodir e, com a correria que se instalou as coisas só tendiam a piorar, e fui me arrumar.
¬ Já são quatro e meia¬ disse eu¬ Vamos?
¬ Espera aí. Pra você é muito fácil falar... ¬ Mais um capítulo de: “Só muda o endereço” a novela mais encenada na família brasileira. Aliás, eu não entendo as novelas (dita tele-dramaturgia brasileira). Nunca tem um peidinho, uma prisão de ventre. Toda briga, toda intriga tem um fundo “sócio-ideológico-cultural”.
Pô! A gente briga porque briga, e pronto.
¬ Esse menino não quer pentear o cabelo¬ Seguimos assim por mais alguns minutos e, pra variar, saímos atrasados.
¬Vamos logo tenho que abastecer e ver o óleo do carro, pois está vazando um pouquinho (Tentando minimizar o vazamento. Afinal fusca que se preza vaza óleo e aquele “vazava”. Era um litro por semana).
Apesar de ter ficado comigo durante vários anos acho que nunca parei pra trocar o óleo do bichinho, e ele “quase nunca” me deixava na mão.
Posso garantir aos mais jovens que festa de casamento foi sempre igual: Noiva de branco com buquê que ela nunca joga, pois quer guardá-lo de recordação, mesas decoradas às vezes apenas uma mesa que contém: champanhe, bolo, brigadeiros, beijinhos, olho-de-sogra, que ninguém pode mexer até tirar todas as fotos com parentes, padrinhos e amigos. Nunca entendi pra que doces verdadeiros. Poderiam ser de plástico que durariam muito mais. Naquela época ainda tinha “cabeça-de-nêga”, quitute da mais alta estirpe (quem não conhecer pergunte aos pais ou até aos avôs), grande sucesso gastronômico; tinha também canapés: pão-de-forma cortado em quatro, besuntado de maionese Hellman’s, com um pedacinho de tomate ou pimentão em cima. E pra ficar bom tem que fazer pela manhã e só comer no final da tarde, acho que para as bactérias semi-digerirem a maionese. Só sei que a gente comia tudo e, se passava mal, nem debitava à guloseima.
Seguíamos o caminho conversando sobre esse e outros assuntos relativos a festas de casamento. Lembramos do nosso quando choveu tanto que minha esposa quase não conseguiu sair de casa e chegando à igreja, não encontrou ninguém na porta já que todos estavam dentro do templo. Um bêbado que se abrigava por ali foi quem a ajudou a abrir a calda do vestido. Nessa tarefa o cara acabou caindo e foi uma zona total.
Já ríamos antevendo alguma gafe que certamente aconteceria.
Outra coisa que era quase obrigatória em festas de casamento era o Chope. “Gelado diretamente no barril”, que na época era barril mesmo, igualzinho àqueles em que os piratas levavam rum: de madeira. Pra se ter uma idéia só instalar a bomba já era missão quase impossível em que o doido que se aventurava saia sempre molhado.
A maneira como se gelava o precioso líquido era se colocar barras de gelo enormes em cima dos barris, acompanhadas de serragem. Quer dizer: Uma baita sujeira e chope quente.
Dessa maneira não faltava assunto: Chope quente, bolo com uma camada de glacê de mais de dois centímetros de altura que invariavelmente acabava jogada nos cantos da casa ou do salão chegando a provocar quedas já que a cobertura sempre era feita com gordura vegetal ou margarina e açúcar, além de anilina que dava o colorido ao doce, brigadeiros que a gente só comeria se tivéssemos coragem de roubar algum, cerimônia religiosa demorada etc. Íamos ora rindo, ora brigando com a molecada, que ora brigava, ora ria, ora chorava. A típica família brasileira de classe baixa (e bota baixa nisso), a caminho de uma típica festa de casamento.
Perguntei: ¬ Será que vai ter cortejo?¬ Todo mundo riu, já ridicularizando meu fusca
Aproveitei para contar mais uma vez (em casa dizem que conto uma anedota mais de cem vezes sempre perguntando: vocês sabiam?) a história que aconteceu certa vez quando o fusca cismou de parar.
Eram mais de nove da noite e chovia, nem forte nem fraco, aquela chuvinha que molha devagar e sempre. O carrinho cismou de parar bem em cima de uma linha férrea que passa perto de onde morávamos. Lá nunca passava trem, mas, pelas leis universais de Murphy, tinha certeza que passaria um e esmagaria meu fusca. Comecei a fuçar o motor, sem entender patavina, pois, como mecânico, sou excelente escritor. Sem alternativa lá fiquei eu por mais de meia hora.
O lugar era ermo, mas, como enviados divinos, apareceram três rapazes que se propuseram a me ajudar.
Perguntei: ¬Alguém sabe mexer em motor? – Um deles me respondeu prontamente: ¬ O Zé, este aqui, ¬ Apontando para um dos outros ¬ “conhece tudo”. Trabalha em oficina há um tempão.
Aliviado, dei graças e pus-me a conversar com os dois que, como eu, não entendiam nada, deixando o “Zé” trabalhar sossegado. Já pensava em quanto me custaria aquela “ajuda” preocupado inclusive se não seria assaltado e acabando a pé, e sem dinheiro.
Meia hora depois, finalmente o “Zé” levantou-se e enfaticamente diagnosticou:
¬ O pobrema é na valva.
Imediatamente me dei conta da roubada em que estava, mas, tentando salvar a reputação do “Zé”, perguntei:
¬ Você faz o que mesmo?
¬ Sou meio oficial de funileiro.
PÔ! Pensei eu. Funileiro e ainda meio oficial?
Não tive dúvidas
¬Pessoal... Vamos empurrar para o outro lado da linha antes que passe um trem e a coisa fique pior.
Todos me ajudaram e, como após a passagem de nível havia uma descida acentuada, tentei em desespero engatar uma segunda. Não é que o carro pegou!
Fui embora sem olhar para traz.
Depois dessa história já estávamos em frente à igreja. Procurei um lugar pra estacionar e saímos quase correndo, já que passava das cinco e meia e a cerimônia já deveria estar terminando.
Entramos no templo e tentamos reconhecer dentre as pessoas presentes a amiga de minha esposa. Não conseguimos e nos colocamos perto da porta de saída, na esperança de, ao final, encontrar a moça.
A cerimônia acabou e nada dela aparecer.
Saímos do templo e seguimos para o endereço indicado no convite, onde haveria a recepção.
O dia, apesar de seis da tarde, seguia claro e aproveitei para contar a história do casamento do amigo do Odair.
¬ Que Odair?¬ Perguntou a Marta
¬ O da Tereza, que outro Odair conhecemos? (Mais uma discussão)
O Odair me contou que esteve em um casamento lá para os lados de Santana. Acontece que a maioria dos convidados do noivo era, por força de trabalharem juntos, da Zona Sul de São Paulo, lado oposto a esse Bairro, portanto pouco conhecedores da região.
Odair, mais afeito aos caminhos e descaminhos da cidade, teve pouca dificuldade para encontrar o endereço.
Acontece que vários dos amigos não chegavam e, como não havia celulares, estava difícil de entender o que estava acontecendo. Bem, algum tempo depois, começaram a chegar os atrasados.
Puderam então saber o que havia ocorrido:
No mapa que o noivo entregou para todos havia a seguinte indicação:
Entrar à direita antes do penúltimo semáforo. Quer dizer: teve gente que foi até Guarulhos.
Estávamos rindo quando chegamos à casa da noiva.
Descemos mais uma vez quase correndo. Dessa vez atentei para meu sapato, dando um último talento com o paninho que sempre está no porta-luvas de qualquer fusca e segui para a festa.
Não vimos movimento condizente com algum convescote, somente algumas pessoas conversando em frente ao endereço indicado e perguntei:
¬ Estamos procurando o casamento da (...). É aqui
¬ Foi na semana passada ¬ Me respondeu uma jovem e emendou: ¬ Ela está em lua-de-mel.
Meio atarantado olhei para traz e me vi sozinho, pois todos já tinham entrado no fusca, e me esperavam como se nada tivesse acontecido.
Somente aí atentei para a data indicada no convite, de uma semana atrás.
Só queria saber de quem era o casamento que participamos lá na igreja
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
PEDINTES
O cego pede as horas
Há horas que o cego pede
Em dias chuvosos, propícios
Pra se pensar em miséria
Meninos que são pedintes
Pedintes que são meninos
De nossa pátria, mãe querida.
Quem serão esses meninos?
Homens sem pais ou país
Serão, um dia, esses meninos?
Que hoje ignoramos
Mas... Damos esmola a quem?.
E tudo está como dantes
O cego ainda pede as horas
Há horas que o cego pede
Fingimos: Hein? Como?
Há horas que o cego pede
Em dias chuvosos, propícios
Pra se pensar em miséria
Meninos que são pedintes
Pedintes que são meninos
De nossa pátria, mãe querida.
Quem serão esses meninos?
Homens sem pais ou país
Serão, um dia, esses meninos?
Que hoje ignoramos
Mas... Damos esmola a quem?.
E tudo está como dantes
O cego ainda pede as horas
Há horas que o cego pede
Fingimos: Hein? Como?
MEDO DE QUÊ?
Estudo divulgado pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) revela a quase absoluta impunidade de autoridades protegidas pelo foro privilegiado. Segundo esse levantamento - que abrange o período de 1988 a 2007 -, nenhuma das 130 ações criminais protocoladas no Supremo Tribunal Federal (STF) contra autoridades resultou em condenação até agora. No mesmo período, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acumulou 333 processos e até hoje apenas 5 deles (1,5% dos casos) deram em condenação - houve 11 absolvições e o restante ainda não teve concluída sua tramitação.
No melhor exercício "coronelístico", aliás de direito adquirido desde sempre, concedido por Deus em pessoa, vemos nossos baluartes políticos empregarem parentes a rôdo e, a "antiga reserva moral", que eram os antagonistas de outrora, beija-lhes os pés e tenta, de todas as maneiras possíveis, se manter no poder. É a famosa "sinuca de bico"
Um exemplo que nunca vai sair da moda já que virou até adjetivo é nosso querido ex-prefeito rouba-mas-faz que foi inocentado por arquivamento de vários processos no STF.
No caso do Túnel Airton Senna donde a policia apurou terem sido desviados vários milhares de dólares (evito falar em quantias por que elas nada significam pra nós, vis mortais que sequer teremos o prazer ou desprazer de, algum dia de nossas vidinhas medíocres, vermos dinheiro como esse que derreteu).
Talvez, se pudéssemos transformá-la em feijão ou arroz, coisas que sempre (sempre?) estão em nosso prato diário; ou na cerveja nossa de cada dia, por exemplo:
A denúncia de desvio, no caso da Águas Espraiadas e do túnel, perfaz um total de R$ 5.000.000.000,00 (CINCO BILHÕES) que, dividido pelo preço da geladinha mais cara (R$5,00) dá um total de 50.000.000 (cinquenta milhões) de cevas.
Olha o que o cara nos tirou.
Veja se não é motivo pra revolução já? Temos que fazer alguma coisa. Se isso acontecesse num boteco que conheço, na primeira cerveja roubada já haveria morte com certeza. Quem sabe nós, bêbados inveterados ou casuais, não estejamos com a solução. Afinal temos que proteger as fortunas dos cervejeiros do mundo.
Brincadeira à parte o fato é que, diante das denúncias que aparecem em nossa imprensa, agora mais que diariamente, somos roubados “na caruda”, tal como se nos tirassem o pão da boca e nada podemos fazer. Parece que todos estão com o rabo preso a todos, inclusive nós que aceitamos a informalidade de 60%, segundo alguns levantamentos, que nos torna cidadãos de segunda classe que faz suas compras sem nota, nas lojas de contrabando e de “produtos cabritos”, só faz compra a prazo se o estabelecimento não exigir comprovação de renda, o que expertamente todos os grandes comerciantes já resolveram fazendo um seguro que nós próprios pagamos. Não temos acesso aos créditos e facilidades formais que o governo disponibiliza etc. etc.
Mais um exercício: Dizem que no mínimo 40% da economia está na informalidade, portanto se 33% do PIB (Produto Interno Bruto) é imposto este imposto só pode sair dos 60% restantes logo quem paga imposto paga cerca de 50% de seus rendimentos brutos, ou então a informalidade não é privilégio apenas dos pequenos, estando diluída também entre os grandes que aparecem todo dia nos jornais, estes sim tendo acesso a todas as facilidades que a formalidade pode oferecer.
“ORTORIDADES” não receiem, podem meter a mão que nada acontece nem acontecerá. Basta terem pelo menos trinta anos que, de recurso em recurso chegam aos setenta e à impunibilidade tão desejada. E nós, produto do padeiro (massa de manobra), estamos aqui pra viabilizar e aceitar tudo, em nome de nossas parcas vantagens.
Se não dá certo, a gente faz de conta, igual à Emília, do Sitio, aquela cópia mal feita da TV mesmo!
No melhor exercício "coronelístico", aliás de direito adquirido desde sempre, concedido por Deus em pessoa, vemos nossos baluartes políticos empregarem parentes a rôdo e, a "antiga reserva moral", que eram os antagonistas de outrora, beija-lhes os pés e tenta, de todas as maneiras possíveis, se manter no poder. É a famosa "sinuca de bico"
Um exemplo que nunca vai sair da moda já que virou até adjetivo é nosso querido ex-prefeito rouba-mas-faz que foi inocentado por arquivamento de vários processos no STF.
No caso do Túnel Airton Senna donde a policia apurou terem sido desviados vários milhares de dólares (evito falar em quantias por que elas nada significam pra nós, vis mortais que sequer teremos o prazer ou desprazer de, algum dia de nossas vidinhas medíocres, vermos dinheiro como esse que derreteu).
Talvez, se pudéssemos transformá-la em feijão ou arroz, coisas que sempre (sempre?) estão em nosso prato diário; ou na cerveja nossa de cada dia, por exemplo:
A denúncia de desvio, no caso da Águas Espraiadas e do túnel, perfaz um total de R$ 5.000.000.000,00 (CINCO BILHÕES) que, dividido pelo preço da geladinha mais cara (R$5,00) dá um total de 50.000.000 (cinquenta milhões) de cevas.
Olha o que o cara nos tirou.
Veja se não é motivo pra revolução já? Temos que fazer alguma coisa. Se isso acontecesse num boteco que conheço, na primeira cerveja roubada já haveria morte com certeza. Quem sabe nós, bêbados inveterados ou casuais, não estejamos com a solução. Afinal temos que proteger as fortunas dos cervejeiros do mundo.
Brincadeira à parte o fato é que, diante das denúncias que aparecem em nossa imprensa, agora mais que diariamente, somos roubados “na caruda”, tal como se nos tirassem o pão da boca e nada podemos fazer. Parece que todos estão com o rabo preso a todos, inclusive nós que aceitamos a informalidade de 60%, segundo alguns levantamentos, que nos torna cidadãos de segunda classe que faz suas compras sem nota, nas lojas de contrabando e de “produtos cabritos”, só faz compra a prazo se o estabelecimento não exigir comprovação de renda, o que expertamente todos os grandes comerciantes já resolveram fazendo um seguro que nós próprios pagamos. Não temos acesso aos créditos e facilidades formais que o governo disponibiliza etc. etc.
Mais um exercício: Dizem que no mínimo 40% da economia está na informalidade, portanto se 33% do PIB (Produto Interno Bruto) é imposto este imposto só pode sair dos 60% restantes logo quem paga imposto paga cerca de 50% de seus rendimentos brutos, ou então a informalidade não é privilégio apenas dos pequenos, estando diluída também entre os grandes que aparecem todo dia nos jornais, estes sim tendo acesso a todas as facilidades que a formalidade pode oferecer.
“ORTORIDADES” não receiem, podem meter a mão que nada acontece nem acontecerá. Basta terem pelo menos trinta anos que, de recurso em recurso chegam aos setenta e à impunibilidade tão desejada. E nós, produto do padeiro (massa de manobra), estamos aqui pra viabilizar e aceitar tudo, em nome de nossas parcas vantagens.
Se não dá certo, a gente faz de conta, igual à Emília, do Sitio, aquela cópia mal feita da TV mesmo!
SONHOS
Sonha o pobre com o dia
Em que a vida fique fácil
Não precise dividir
O que é quase indivisível
E que Deus onipotente
Traga-lhe o grande presente
Já que Ele é infalível
Sonha o rico com o dia
Em que tudo o que ele tem
Traga-lhe satisfação
Sem que precise ir além
E que Deus seu aliado
Que dele fez enviado
Feliz lhe faça também
Sonho eu com aquele dia
Em que mereça os amores
Que me foram prometidos
Noutros sonhos anteriores
E que Deus me proteja
Pra que não tenha brotoeja
Nem exija outros melhores
Em que a vida fique fácil
Não precise dividir
O que é quase indivisível
E que Deus onipotente
Traga-lhe o grande presente
Já que Ele é infalível
Sonha o rico com o dia
Em que tudo o que ele tem
Traga-lhe satisfação
Sem que precise ir além
E que Deus seu aliado
Que dele fez enviado
Feliz lhe faça também
Sonho eu com aquele dia
Em que mereça os amores
Que me foram prometidos
Noutros sonhos anteriores
E que Deus me proteja
Pra que não tenha brotoeja
Nem exija outros melhores
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
MEDO DE AVIÃO
Parecendo querer consolar os desafortunados viajantes que não conseguem se “livrar” do rotineiro martírio em que se tornou viajar de avião em nosso país, o comandante em chefe dos brasileiros declarou que “quando entra no avião entrega sua alma a Deus”, pois tem medo desse meio de transporte (Considerando suas últimas alianças, acho até que Deus não deva estar aceitando alma como a sua, tão disputada).
Ora, me parece que o problema maior pelo qual estamos passando não seja o risco de acidentes, pois quando saímos de casa, ou até mesmo antes de sair, sabemo-nos sujeitos a eles e não podemos em sã consciência debitar a Deus, já tão endividado, mais esse ônus, em que pese segundo cada crença, pedir sua proteção.
Claro que os acidentes que aconteceram mais recentemente com nossos aviões não podem ser deixados de lado, cabendo a investigação e responsabilização de todos os culpados.
No entanto também não devemos deixar de lado os acidentes rodoviários, que matam e aleijam mais que esses que ora estão no noticiário de nosso País.
O CASO É MUITO MAIS GRAVE: Nada, ou quase nada, nos últimos cinco anos, foi feito em relação à infra-estrutura brasileira, quer nos aeroportos, nos portos marítimos e fluviais (nosso País tem talvez o maior potencial de navegação fluvial do mundo, que é parcamente utilizado), ou em rodovias e ferrovias.
Avião é sem dúvida o meio de transporte mais seguro que existe só que, quando cai, quase sempre mata todos os passageiros, tornando a tragédia muito mais comovente e nada, mas nada mesmo, pode consolar as famílias envolvidas. O que se pode fazer, e aí não vale só para avião, mas pra todos os meios de transporte existentes é, aprendendo com o erro, melhorar as estruturas que dão suporte a eles.
DEUS não me parece o mais indicado para isto.
Ora, me parece que o problema maior pelo qual estamos passando não seja o risco de acidentes, pois quando saímos de casa, ou até mesmo antes de sair, sabemo-nos sujeitos a eles e não podemos em sã consciência debitar a Deus, já tão endividado, mais esse ônus, em que pese segundo cada crença, pedir sua proteção.
Claro que os acidentes que aconteceram mais recentemente com nossos aviões não podem ser deixados de lado, cabendo a investigação e responsabilização de todos os culpados.
No entanto também não devemos deixar de lado os acidentes rodoviários, que matam e aleijam mais que esses que ora estão no noticiário de nosso País.
O CASO É MUITO MAIS GRAVE: Nada, ou quase nada, nos últimos cinco anos, foi feito em relação à infra-estrutura brasileira, quer nos aeroportos, nos portos marítimos e fluviais (nosso País tem talvez o maior potencial de navegação fluvial do mundo, que é parcamente utilizado), ou em rodovias e ferrovias.
Avião é sem dúvida o meio de transporte mais seguro que existe só que, quando cai, quase sempre mata todos os passageiros, tornando a tragédia muito mais comovente e nada, mas nada mesmo, pode consolar as famílias envolvidas. O que se pode fazer, e aí não vale só para avião, mas pra todos os meios de transporte existentes é, aprendendo com o erro, melhorar as estruturas que dão suporte a eles.
DEUS não me parece o mais indicado para isto.
O FUNERAL
¬ALÔ...
¬Alô... Toninho?
¬E aê mano... Tudo bem?
¬Mais ou menos... O Pepe morreu.
¬Tá brincando!
¬Não... Morreu mesmo
A notícia caiu como uma bomba
¬Mas o Pepe, aquele da mercearia do Espanhol?
¬É... O Pepito, seu amigão do 2º ano, filho da Dona Lolita.
¬Que coisa. Do que foi?
¬Não sei muito bem ainda. Parece que foi mal súbito; enfarto fulminante; sei lá...
E a conversa telefônica entre eu e meu irmão seguiu por mais alguns minutos quando falamos do Pepe, que, apesar de ser mais velho que ele, durante muito tempo morou no mesmo bairro em que nós morávamos, e tornou-se nosso amigo comum.
Filho de imigrantes espanhóis o que lhe rendeu o apelido, aliás era assim que sua mãe o chamava, Pepe era o tipo de amigo que a gente chama de “cara legal”. Sempre alegre e divertido, pronto para todas as brincadeiras inclusive as ditas “femininas” motivo pelo qual sempre tinha sucesso entre as garotas. Bem educado a ponto de ser quase unanimidade entre os pais de seus colegas que invariavelmente o recomendavam como “boa companhia”, não me lembro de tê-lo visto uma única vez de mal humor.
Convivemos durante uns vinte anos, até que eu começasse a namorar com minha esposa. Daí pra frente ficou um pouco mais difícil, mas mesmo assim nos encontrávamos vez por outra em alguma festa ou reunião familiar de nosso antigo bairro. Acho que a última vez que o tinha visto tinha sido justamente no enterro de seu pai o Espanhol.
O que impressionava a todos que o conheciam era que durante todos aqueles anos o cara se manteve do mesmo jeito, sem nenhuma máscara, solícito etc. “O típico bom sujeito”
¬Quando foi?¬ Perguntei
¬Ontem. Só fiquei sabendo agora a pouco.
¬Que horas será o enterro?
¬Hoje, cinco da tarde, no mesmo cemitério que o Espanhol foi sepultado.
Conversamos mais um pouco e, olhando para o relógio decidi sair. Afinal não ia ficar sem me solidarizar à sua mãe, já velhinha e à sua irmã mais nova, além de certamente rever vários amigos que sabia que não faltariam ao funeral. Falei rapidamente com o pessoal do escritório e sai apressado, pois já passava das duas.
O dia ia carrancudo desde manhã com aquela chuvinha que vem e que vai hora forte hora fraca, mas sempre ali. Tipo aquela de molhar “bobo”: O cara diz ¬ Molha nada ¬ E daí a dez minutos está encharcado.
Meio da tarde já não é o melhor horário do trânsito em São Paulo e com chuva fica ainda pior.
No carro ia pensando no Pepe, em nossa infância quando ele era um dos poucos a emprestar sua bicicleta, artigo de luxo entre a criançada da época. Outros a quem pedíamos para dar “a clássica voltinha” quando cediam era cheio de recomendações:
¬Só uma voltinha... E não passa dali... Não passa naquela poça porque acabei de lavar.
Era tanto “se” que na maioria das vezes a gente acabava desistindo.
Mas com o Pepe era diferente. Por vezes ele mesmo nem andava tanto que cedia a vez para os colegas. Afinal tinha herdado de seus pais a bondade e a sensibilidade característica de quem passou maus bocados lá na Espanha, recém saída de guerras e revoluções, quando tudo faltava, de onde haviam praticamente fugido para construir sua vida e família aqui no Brasil.
Diversas vezes vi Dona Lolita chamar o filho de algum freguês que sabíamos não estar em boa situação, já que a “radio muro” quase não permitia segredos entre a comunidade e, ao lado do balcão de atendimento de sua mercearia, “às escondidas do Espanhol”, atendia o garoto com a maior atenção, entregando-lhe as mercadorias de que sua mãe necessitava.
Depois, por intermédio do Pepe soube que na verdade não era tão escondido assim. Na verdade o Espanhol, já que não adiantava reclamar, pedia que ela fizesse o atendimento daquela maneira para não desmoralizá-lo tirando-lhe a fama de durão. Engraçado como nunca perguntei o verdadeiro nome de seu pai
O trânsito não ajudava mesmo. Olhei para o relógio e já passava das três.
Dias chuvosos são propícios para reflexões e, diante da missão que me aguardava elas vinham aos borbotões, a ponto de, por diversas vezes, meus olhos marejarem.
Lembrei-me de diversas ocasiões engraçadas e ria sozinho pensando nas canas que roubamos, nos balões que pegamos, nas brigas da vizinhança reclamando dos carrinhos de rolimã. Sempre era ele quem se desculpava e livrava a nossa cara com nossos pais. O cara levava jeito mesmo. Parecia que os pais da gente gostavam mais dele que de nós mesmos. Hoje sei que respeito se consegue com muito trabalho e que Pepe sempre procurou cativar as pessoas a ponto de tornar-se quase insuspeito.
Houve momentos em que o riso ficou tão transparente que tive que me conter preocupado com os outros motoristas, pois quando o trânsito está quase parado todos ficam se olhando e, se você está rindo, quase perguntam: Rindo de quê?
Interessante como a gente tem que ter motivo pra rir para não parecermos loucos e ao estar mal-humorado parecer normal. Ser humano é besta mesmo!
Outra coisa que me veio à cabeça é como a gente esquece pessoas como Dona Lolita e o Espanhol. Durante nossa vida elas aparecem justamente nos momentos mais difíceis, nos ajudam e só nos lembramos delas a muito custo, em conversas sobre reminiscências que quase sempre procuramos esquecer. Lembrei do Sr. Alcides que também nos deixou há pouco tempo e tanto fez pelo nosso bairro, do Manuel português, também comerciante, o Sr. Bahia, dono de uma das casas que minha família morou pagando aluguel e que tantas vezes tolerou atrasos nos pagamentos. Enfim... Tem muita gente boa neste mundo e, para nossa sorte, é a maioria. Mas teimamos em exaltar a parte pior
dando mais importância à negatividade da situação do que às pessoas que nos ajudam a sair dela.
Quando cheguei ao velório já passava das quatro e pude constatar mais uma vez a popularidade do Pepe. Todo mundo estava lá. Revi vários amigos da escola, do bairro, pessoas que não via há anos. Por diversas vezes tentei chegar ao esquife e não consegui. Acabei desistindo e tracei uma estratégia: Já que o cemitério era dos mais antigos e tradicionais, onde o espaço entre as campas é pequeno, o caixão teria que ser carregado até o sepulcro pelos presentes. Então me posicionaria na saída do velório a fim de pelo menos carregar meu amigo por alguns metros, prestando assim minha última homenagem.
Isto posto me dediquei às conversas típicas de velório inclusive cheias de anedotas. Demos boas risadas o que acabou sendo mais uma homenagem ao nosso amigo que novamente conseguiu reunir-nos e, mesmo diante da fatalidade, não nos deixar tristes.
Já eram dez minutos depois das cinco quando o pessoal que estava dentro do velório começou a se movimentar e me postei junto à saída. Assim que, no meio da multidão que se formou junto à porta apareceu o caixão, peguei numa das alças, respeitosamente baixei a cabeça e pus-me em marcha.
Já ouvi dizer que, quando a pessoa é de boa alma e bom caráter, depois que morre o caixão fica leve. Mais uma vez constatei o caráter de Pepe, pois, apesar de seu metro e oitenta, não tive nenhuma dificuldade em carregá-lo.
Minutos depois, cumprindo o protocolo, levantei minha mão direita para ceder meu lugar já que tinha certeza que mais alguém gostaria de tomar meu posto. Fiquei surpreso por ninguém se habilitar e, vendo que nossa comitiva se distanciava de outra que dividia os presentes, olhei para trás e vi que além de mim, no meu lado do caixão, encontravam-se uma senhora já dos seus sessenta anos e uma jovem. Só então percebi que estava no enterro errado, sendo que o de Pepe seguia mais à minha esquerda.
Fiquei sem jeito de largar a alça, até porque elas sozinhas não agüentariam o caixão e segui até a última morada do marido daquela mulher, que soube depois ter morrido já bem velhinho e doente.
Quando finalmente pude me desvencilhar segui em direção ao jazigo da família do Pepe. Quando lá cheguei o enterro já havia acontecido. Estava escuro e a noite, que prometia ser fria e chuvosa como fora aquele dia, tornava o cemitério ainda mais lúgubre e misterioso.
Olhei para o túmulo de meu amigo e não pude conter o riso pensando:
Alma boa e bom caráter tudo bem...
Mas vai pesar pouco assim lá no céu!!
Valeu Pepito!!
¬Alô... Toninho?
¬E aê mano... Tudo bem?
¬Mais ou menos... O Pepe morreu.
¬Tá brincando!
¬Não... Morreu mesmo
A notícia caiu como uma bomba
¬Mas o Pepe, aquele da mercearia do Espanhol?
¬É... O Pepito, seu amigão do 2º ano, filho da Dona Lolita.
¬Que coisa. Do que foi?
¬Não sei muito bem ainda. Parece que foi mal súbito; enfarto fulminante; sei lá...
E a conversa telefônica entre eu e meu irmão seguiu por mais alguns minutos quando falamos do Pepe, que, apesar de ser mais velho que ele, durante muito tempo morou no mesmo bairro em que nós morávamos, e tornou-se nosso amigo comum.
Filho de imigrantes espanhóis o que lhe rendeu o apelido, aliás era assim que sua mãe o chamava, Pepe era o tipo de amigo que a gente chama de “cara legal”. Sempre alegre e divertido, pronto para todas as brincadeiras inclusive as ditas “femininas” motivo pelo qual sempre tinha sucesso entre as garotas. Bem educado a ponto de ser quase unanimidade entre os pais de seus colegas que invariavelmente o recomendavam como “boa companhia”, não me lembro de tê-lo visto uma única vez de mal humor.
Convivemos durante uns vinte anos, até que eu começasse a namorar com minha esposa. Daí pra frente ficou um pouco mais difícil, mas mesmo assim nos encontrávamos vez por outra em alguma festa ou reunião familiar de nosso antigo bairro. Acho que a última vez que o tinha visto tinha sido justamente no enterro de seu pai o Espanhol.
O que impressionava a todos que o conheciam era que durante todos aqueles anos o cara se manteve do mesmo jeito, sem nenhuma máscara, solícito etc. “O típico bom sujeito”
¬Quando foi?¬ Perguntei
¬Ontem. Só fiquei sabendo agora a pouco.
¬Que horas será o enterro?
¬Hoje, cinco da tarde, no mesmo cemitério que o Espanhol foi sepultado.
Conversamos mais um pouco e, olhando para o relógio decidi sair. Afinal não ia ficar sem me solidarizar à sua mãe, já velhinha e à sua irmã mais nova, além de certamente rever vários amigos que sabia que não faltariam ao funeral. Falei rapidamente com o pessoal do escritório e sai apressado, pois já passava das duas.
O dia ia carrancudo desde manhã com aquela chuvinha que vem e que vai hora forte hora fraca, mas sempre ali. Tipo aquela de molhar “bobo”: O cara diz ¬ Molha nada ¬ E daí a dez minutos está encharcado.
Meio da tarde já não é o melhor horário do trânsito em São Paulo e com chuva fica ainda pior.
No carro ia pensando no Pepe, em nossa infância quando ele era um dos poucos a emprestar sua bicicleta, artigo de luxo entre a criançada da época. Outros a quem pedíamos para dar “a clássica voltinha” quando cediam era cheio de recomendações:
¬Só uma voltinha... E não passa dali... Não passa naquela poça porque acabei de lavar.
Era tanto “se” que na maioria das vezes a gente acabava desistindo.
Mas com o Pepe era diferente. Por vezes ele mesmo nem andava tanto que cedia a vez para os colegas. Afinal tinha herdado de seus pais a bondade e a sensibilidade característica de quem passou maus bocados lá na Espanha, recém saída de guerras e revoluções, quando tudo faltava, de onde haviam praticamente fugido para construir sua vida e família aqui no Brasil.
Diversas vezes vi Dona Lolita chamar o filho de algum freguês que sabíamos não estar em boa situação, já que a “radio muro” quase não permitia segredos entre a comunidade e, ao lado do balcão de atendimento de sua mercearia, “às escondidas do Espanhol”, atendia o garoto com a maior atenção, entregando-lhe as mercadorias de que sua mãe necessitava.
Depois, por intermédio do Pepe soube que na verdade não era tão escondido assim. Na verdade o Espanhol, já que não adiantava reclamar, pedia que ela fizesse o atendimento daquela maneira para não desmoralizá-lo tirando-lhe a fama de durão. Engraçado como nunca perguntei o verdadeiro nome de seu pai
O trânsito não ajudava mesmo. Olhei para o relógio e já passava das três.
Dias chuvosos são propícios para reflexões e, diante da missão que me aguardava elas vinham aos borbotões, a ponto de, por diversas vezes, meus olhos marejarem.
Lembrei-me de diversas ocasiões engraçadas e ria sozinho pensando nas canas que roubamos, nos balões que pegamos, nas brigas da vizinhança reclamando dos carrinhos de rolimã. Sempre era ele quem se desculpava e livrava a nossa cara com nossos pais. O cara levava jeito mesmo. Parecia que os pais da gente gostavam mais dele que de nós mesmos. Hoje sei que respeito se consegue com muito trabalho e que Pepe sempre procurou cativar as pessoas a ponto de tornar-se quase insuspeito.
Houve momentos em que o riso ficou tão transparente que tive que me conter preocupado com os outros motoristas, pois quando o trânsito está quase parado todos ficam se olhando e, se você está rindo, quase perguntam: Rindo de quê?
Interessante como a gente tem que ter motivo pra rir para não parecermos loucos e ao estar mal-humorado parecer normal. Ser humano é besta mesmo!
Outra coisa que me veio à cabeça é como a gente esquece pessoas como Dona Lolita e o Espanhol. Durante nossa vida elas aparecem justamente nos momentos mais difíceis, nos ajudam e só nos lembramos delas a muito custo, em conversas sobre reminiscências que quase sempre procuramos esquecer. Lembrei do Sr. Alcides que também nos deixou há pouco tempo e tanto fez pelo nosso bairro, do Manuel português, também comerciante, o Sr. Bahia, dono de uma das casas que minha família morou pagando aluguel e que tantas vezes tolerou atrasos nos pagamentos. Enfim... Tem muita gente boa neste mundo e, para nossa sorte, é a maioria. Mas teimamos em exaltar a parte pior
dando mais importância à negatividade da situação do que às pessoas que nos ajudam a sair dela.
Quando cheguei ao velório já passava das quatro e pude constatar mais uma vez a popularidade do Pepe. Todo mundo estava lá. Revi vários amigos da escola, do bairro, pessoas que não via há anos. Por diversas vezes tentei chegar ao esquife e não consegui. Acabei desistindo e tracei uma estratégia: Já que o cemitério era dos mais antigos e tradicionais, onde o espaço entre as campas é pequeno, o caixão teria que ser carregado até o sepulcro pelos presentes. Então me posicionaria na saída do velório a fim de pelo menos carregar meu amigo por alguns metros, prestando assim minha última homenagem.
Isto posto me dediquei às conversas típicas de velório inclusive cheias de anedotas. Demos boas risadas o que acabou sendo mais uma homenagem ao nosso amigo que novamente conseguiu reunir-nos e, mesmo diante da fatalidade, não nos deixar tristes.
Já eram dez minutos depois das cinco quando o pessoal que estava dentro do velório começou a se movimentar e me postei junto à saída. Assim que, no meio da multidão que se formou junto à porta apareceu o caixão, peguei numa das alças, respeitosamente baixei a cabeça e pus-me em marcha.
Já ouvi dizer que, quando a pessoa é de boa alma e bom caráter, depois que morre o caixão fica leve. Mais uma vez constatei o caráter de Pepe, pois, apesar de seu metro e oitenta, não tive nenhuma dificuldade em carregá-lo.
Minutos depois, cumprindo o protocolo, levantei minha mão direita para ceder meu lugar já que tinha certeza que mais alguém gostaria de tomar meu posto. Fiquei surpreso por ninguém se habilitar e, vendo que nossa comitiva se distanciava de outra que dividia os presentes, olhei para trás e vi que além de mim, no meu lado do caixão, encontravam-se uma senhora já dos seus sessenta anos e uma jovem. Só então percebi que estava no enterro errado, sendo que o de Pepe seguia mais à minha esquerda.
Fiquei sem jeito de largar a alça, até porque elas sozinhas não agüentariam o caixão e segui até a última morada do marido daquela mulher, que soube depois ter morrido já bem velhinho e doente.
Quando finalmente pude me desvencilhar segui em direção ao jazigo da família do Pepe. Quando lá cheguei o enterro já havia acontecido. Estava escuro e a noite, que prometia ser fria e chuvosa como fora aquele dia, tornava o cemitério ainda mais lúgubre e misterioso.
Olhei para o túmulo de meu amigo e não pude conter o riso pensando:
Alma boa e bom caráter tudo bem...
Mas vai pesar pouco assim lá no céu!!
Valeu Pepito!!
TERRA DO NUNCA
O desaparecimento de Michael Jackson além de ter sido uma surpresa, remeteu-me aos meus oito ou nove anos de idade quando li pela primeira vez a estória de Peter Pan, em adaptação de Monteiro Lobato. Na verdade, conforme me contou minha avó “Dona Benta”, esse romance infanto-juvenil originou-se em uma peça teatral de James Mattew Barrie chamada Peter and Wendy que foi encenada pela primeira vez na Inglaterra no começo do século XX. O interessante nisso é que o livro originou-se da peça, inversamente ao que normalmente acontece.
Meu pai adquiriu a coleção infanto-juvenil de Monteiro Lobato, com todas as suas obras e adaptações e me tornei um dos milhares de netos de “Dona Benta” e sobrinhos de “Tia Anastácia”. Passeando pelo Sitio do Pica-Pau Amarelo, além de conhecer Peter Pan, pude aprender gramática e aritmética com a Emilia, saber da existência de petróleo no Brasil com o Poço do Visconde, conhecer a mitologia grega nos Doze Trabalhos de Hércules, entre tantas outras viagens que o pó de pir-li-pim-pim me proporcionou. Aos que não leram permito que me invejem (mas ainda é tempo)
Peter Pan recusava-se a crescer, preferindo ir para a Terra do Nunca onde viveu e liderou outros meninos e meninas com o mesmo ideal, entre aventuras e lutas contra o malvado e opressor Capitão Gancho, símbolo do capataz que sequer sabe a origem de sua malvadeza. Tanto Peter como seus seguidores eram órfãos miseráveis. (Aliás, se a estória se passasse aqui no Brasil, em qualquer época, não faltariam miseráveis nem capitães gancho).
No começo daquele século o mundo, sobretudo a Inglaterra, iniciava sua revolução industrial. A miséria, fruto da desigualdade social que se instalou, campeou o Reino Unido, disseminando a fome e doenças, matando e desestruturando famílias o que resultou em muitos órfãos e mendigos. Dessa maneira o romance, que tinha como protagonistas, além de Peter Pam a senhorita Wendy, representante da classe média que foi aliciada a ir até a “Terra do Nunca” para conhecê-la e participar de suas aventuras, acabou mais engajado aos problemas da época, diferente da peça que era mais voltada para as aventuras e o entretenimento.
Da maneira que Barrie descreveu e Lobato tão propriamente adaptou, a façanha de Peter pareceu-me perfeitamente possível: Porque crescermos? Porque não sermos eternamente crianças e brincar do que quiséssemos, inclusive de sermos adultos? (Até de médico valia!!).
Depois como aconteceu com a maioria de nós, primeiro quis ser adolescente, depois “de maior” (principalmente pra ver filmes proibidos). Dessa maneira a “Terra do Nunca” foi ficando para traz, quase esquecida e Peter Pan perdendo-se em minha memória, quem sabe finalmente derrotado pelos “Capitães Ganchos” que povoaram e povoam a nossa existência.
Entretanto, com a morte do ídolo, hoje voltei a pensar no assunto e acabei por perceber que Never Land existe e está bem ao nosso alcance. Explico com um exemplo:
Juntemo-nos aos nossos filhos, pais, netos, primos ou amigos, não importando a idade nem a quantidade de pessoas e façamos uma pipa, ou papagaio, como também é chamado aqui em São Paulo.
Entenda-se “façamos” por:
-Entrarmos no bambuzal e escolhermos um bambu adequado - se for de alguma plantação de alguém desconhecido, tem que pedir ou roubar e correr muito (sem fazer ruído), pois como minha avó de verdade (a mãe da minha mãe) dizia –“O ruim não é roubar e sim ser pego com a mão na botija”
-De posse do bambu, afinar as varetas de acordo com o tamanho e modelo da pipa.
-Já escolhida a forma, barrilhete, maranhão, raia, estrela, barca etc., fazer a armação, utilizando linha 24, amarrar bem e deixar a forma bem “esquadrada”.
-Escolher o papel-de-seda nas cores que desejarmos.
-Dar uma paradinha porque ninguém é de ferro e tomar um copo de tubaina
-Recortar e colar a seda na armação.
-Fazer o rabo ou rabiola, de acordo com o modelo da pipa escolhido.
-Enrolar a linha 24 em uma lata, de preferência de óleo, não esquecendo de empapelar a lata e dar duas voltas na amarração, para o caso de, ao batizar a pipa (dar toda a linha) haver um amortecimento no final e ela não se quebrar (24 porque não queremos degolar ninguém e tem que ser corrente).
-Caso queiramos um trabalhinho maior, façamos uma carretilha de madeira com pregos e arame, que aumentará muito a eficiência do enrolamento.
Depois de pronto, achemos um lugar “legal” pra empinarmos a pipa, sem linha cortante, o que tornaria nossa brincadeira uma competição destrutiva. Apenas pelo prazer de estar ali soltando pipa e tomando tubaina.
Ao que parece a industrialização que começou lá no inicio do século XX chegou às pipas, fazendo com que ficassem tão baratas que nós as compramos aos montes para brincarmos com elas sem nenhum carinho ou respeito pelo brinquedo, transformando a brincadeira em mais uma guerra cujo vencedor e o vencido, como em qualquer guerra, são perdedores.
Claro que a brincadeira pura e simples não nos torna crianças, mas, desde que façamos as coisas da maneira mais tradicional e participativa, nos coloca no controle de nossas atitudes e nos tira do julgo da indústria e da mídia que nos bombardeia o tempo todo com “COMPRE, USE, VOCÊ PRECISA, SEM ISSO OU AQUILO VOCÊ NÃO É NINGUÉM, NÃO PODE PASSAR SEM” etc.
Sentirmo-nos no controle absoluto de nossas atitudes sim, nos remete a quando éramos crianças e “tudo podíamos”. Passarmos esse modo de vida adiante dará aos jovens a chance de continuarem nossa “criancice”. Eis aí a “Terra do Nunca”
Seguindo a perversa trilha das pipas, compramos celulares que não precisamos, automóveis de acordo com seu tamanho, televisores enormes que nem cabem nos apartamentos (que mais se parecem com “apertamentos”), tão grandes que, em breve, teremos que usar protetor solar para assistir a algum filme ou programa que aconteça em uma praia ensolarada. Brincadeira à parte, estamos à mercê das grandes corporações e induzimos nossos jovens ao insucesso pessoal já que, nunca estamos contentes com o que temos. Na maioria das vezes sequer desfrutamos de nossas aquisições e já as trocamos por outra mais moderna. Compreendo que o sistema seja assim e precise disto pra se manter, mas o exagero nos persegue, principalmente em grandes cidades.
.
Somos bombardeados todos os dias com informações que não servem para nada e, quanto mais bombásticas, mais as procuramos e digerimos. Informações que vem aos borbotões sem possibilidade de crítica ou contestação, bem ao gosto das “elites”.
Estamos crescendo sem se saber fazer uma pipa, rodar um peão, jogar bolinha-de-gude (fazer balão nem se diga já que agora é proibido). Ou mesmo desenhar no chão o jogo de amarelinha, fazer uma bola de meia para jogar queimada e tantas outras brincadeiras que estão se perdendo nessa corrida em que, apesar de poder se falar com o mundo ao toque de um botão, nos comunicamos através de uma linguagem pictográfica que tem por objetivo abreviar a conversa. O bate-papo fica tão lacônico que fico imaginando a cena de dois meninos ou meninas do meu tempo em que não havia sequer telefone, conversando da maneira de hoje:
-E aí... blz?
Meia hora depois...
-Só!
Vinte minutos e...
-Té+
Rapidamente, depois de cinco minutos.
-Fui.
E o primeiro fica pensando: (Cara legal!!!Puta papo!!!)
Estamos correndo o risco de aleijar definitivamente nossas mentes, tirando-lhes o empirismo, base da criatividade e boa parte da cognição. Sem essas atividades que praticávamos entre amigos e familiares, perdemos boa parte do aprendizado, além de, no futuro, termos muito pouco pra contar.
Acho que nosso querido Michael, apesar da boa intenção, confundiu um pouco as coisas querendo comprar a “Terra do Nunca” e seus ocupantes. A essência de Never Land me parece estar na gratuidade, na camaradagem, no “se importar com os outros” e em tantas outras coisas que só dependem de nossa disposição.
De outra maneira só mesmo cheirando o pó... De pir-li-pim-pim é claro!
Meu pai adquiriu a coleção infanto-juvenil de Monteiro Lobato, com todas as suas obras e adaptações e me tornei um dos milhares de netos de “Dona Benta” e sobrinhos de “Tia Anastácia”. Passeando pelo Sitio do Pica-Pau Amarelo, além de conhecer Peter Pan, pude aprender gramática e aritmética com a Emilia, saber da existência de petróleo no Brasil com o Poço do Visconde, conhecer a mitologia grega nos Doze Trabalhos de Hércules, entre tantas outras viagens que o pó de pir-li-pim-pim me proporcionou. Aos que não leram permito que me invejem (mas ainda é tempo)
Peter Pan recusava-se a crescer, preferindo ir para a Terra do Nunca onde viveu e liderou outros meninos e meninas com o mesmo ideal, entre aventuras e lutas contra o malvado e opressor Capitão Gancho, símbolo do capataz que sequer sabe a origem de sua malvadeza. Tanto Peter como seus seguidores eram órfãos miseráveis. (Aliás, se a estória se passasse aqui no Brasil, em qualquer época, não faltariam miseráveis nem capitães gancho).
No começo daquele século o mundo, sobretudo a Inglaterra, iniciava sua revolução industrial. A miséria, fruto da desigualdade social que se instalou, campeou o Reino Unido, disseminando a fome e doenças, matando e desestruturando famílias o que resultou em muitos órfãos e mendigos. Dessa maneira o romance, que tinha como protagonistas, além de Peter Pam a senhorita Wendy, representante da classe média que foi aliciada a ir até a “Terra do Nunca” para conhecê-la e participar de suas aventuras, acabou mais engajado aos problemas da época, diferente da peça que era mais voltada para as aventuras e o entretenimento.
Da maneira que Barrie descreveu e Lobato tão propriamente adaptou, a façanha de Peter pareceu-me perfeitamente possível: Porque crescermos? Porque não sermos eternamente crianças e brincar do que quiséssemos, inclusive de sermos adultos? (Até de médico valia!!).
Depois como aconteceu com a maioria de nós, primeiro quis ser adolescente, depois “de maior” (principalmente pra ver filmes proibidos). Dessa maneira a “Terra do Nunca” foi ficando para traz, quase esquecida e Peter Pan perdendo-se em minha memória, quem sabe finalmente derrotado pelos “Capitães Ganchos” que povoaram e povoam a nossa existência.
Entretanto, com a morte do ídolo, hoje voltei a pensar no assunto e acabei por perceber que Never Land existe e está bem ao nosso alcance. Explico com um exemplo:
Juntemo-nos aos nossos filhos, pais, netos, primos ou amigos, não importando a idade nem a quantidade de pessoas e façamos uma pipa, ou papagaio, como também é chamado aqui em São Paulo.
Entenda-se “façamos” por:
-Entrarmos no bambuzal e escolhermos um bambu adequado - se for de alguma plantação de alguém desconhecido, tem que pedir ou roubar e correr muito (sem fazer ruído), pois como minha avó de verdade (a mãe da minha mãe) dizia –“O ruim não é roubar e sim ser pego com a mão na botija”
-De posse do bambu, afinar as varetas de acordo com o tamanho e modelo da pipa.
-Já escolhida a forma, barrilhete, maranhão, raia, estrela, barca etc., fazer a armação, utilizando linha 24, amarrar bem e deixar a forma bem “esquadrada”.
-Escolher o papel-de-seda nas cores que desejarmos.
-Dar uma paradinha porque ninguém é de ferro e tomar um copo de tubaina
-Recortar e colar a seda na armação.
-Fazer o rabo ou rabiola, de acordo com o modelo da pipa escolhido.
-Enrolar a linha 24 em uma lata, de preferência de óleo, não esquecendo de empapelar a lata e dar duas voltas na amarração, para o caso de, ao batizar a pipa (dar toda a linha) haver um amortecimento no final e ela não se quebrar (24 porque não queremos degolar ninguém e tem que ser corrente).
-Caso queiramos um trabalhinho maior, façamos uma carretilha de madeira com pregos e arame, que aumentará muito a eficiência do enrolamento.
Depois de pronto, achemos um lugar “legal” pra empinarmos a pipa, sem linha cortante, o que tornaria nossa brincadeira uma competição destrutiva. Apenas pelo prazer de estar ali soltando pipa e tomando tubaina.
Ao que parece a industrialização que começou lá no inicio do século XX chegou às pipas, fazendo com que ficassem tão baratas que nós as compramos aos montes para brincarmos com elas sem nenhum carinho ou respeito pelo brinquedo, transformando a brincadeira em mais uma guerra cujo vencedor e o vencido, como em qualquer guerra, são perdedores.
Claro que a brincadeira pura e simples não nos torna crianças, mas, desde que façamos as coisas da maneira mais tradicional e participativa, nos coloca no controle de nossas atitudes e nos tira do julgo da indústria e da mídia que nos bombardeia o tempo todo com “COMPRE, USE, VOCÊ PRECISA, SEM ISSO OU AQUILO VOCÊ NÃO É NINGUÉM, NÃO PODE PASSAR SEM” etc.
Sentirmo-nos no controle absoluto de nossas atitudes sim, nos remete a quando éramos crianças e “tudo podíamos”. Passarmos esse modo de vida adiante dará aos jovens a chance de continuarem nossa “criancice”. Eis aí a “Terra do Nunca”
Seguindo a perversa trilha das pipas, compramos celulares que não precisamos, automóveis de acordo com seu tamanho, televisores enormes que nem cabem nos apartamentos (que mais se parecem com “apertamentos”), tão grandes que, em breve, teremos que usar protetor solar para assistir a algum filme ou programa que aconteça em uma praia ensolarada. Brincadeira à parte, estamos à mercê das grandes corporações e induzimos nossos jovens ao insucesso pessoal já que, nunca estamos contentes com o que temos. Na maioria das vezes sequer desfrutamos de nossas aquisições e já as trocamos por outra mais moderna. Compreendo que o sistema seja assim e precise disto pra se manter, mas o exagero nos persegue, principalmente em grandes cidades.
.
Somos bombardeados todos os dias com informações que não servem para nada e, quanto mais bombásticas, mais as procuramos e digerimos. Informações que vem aos borbotões sem possibilidade de crítica ou contestação, bem ao gosto das “elites”.
Estamos crescendo sem se saber fazer uma pipa, rodar um peão, jogar bolinha-de-gude (fazer balão nem se diga já que agora é proibido). Ou mesmo desenhar no chão o jogo de amarelinha, fazer uma bola de meia para jogar queimada e tantas outras brincadeiras que estão se perdendo nessa corrida em que, apesar de poder se falar com o mundo ao toque de um botão, nos comunicamos através de uma linguagem pictográfica que tem por objetivo abreviar a conversa. O bate-papo fica tão lacônico que fico imaginando a cena de dois meninos ou meninas do meu tempo em que não havia sequer telefone, conversando da maneira de hoje:
-E aí... blz?
Meia hora depois...
-Só!
Vinte minutos e...
-Té+
Rapidamente, depois de cinco minutos.
-Fui.
E o primeiro fica pensando: (Cara legal!!!Puta papo!!!)
Estamos correndo o risco de aleijar definitivamente nossas mentes, tirando-lhes o empirismo, base da criatividade e boa parte da cognição. Sem essas atividades que praticávamos entre amigos e familiares, perdemos boa parte do aprendizado, além de, no futuro, termos muito pouco pra contar.
Acho que nosso querido Michael, apesar da boa intenção, confundiu um pouco as coisas querendo comprar a “Terra do Nunca” e seus ocupantes. A essência de Never Land me parece estar na gratuidade, na camaradagem, no “se importar com os outros” e em tantas outras coisas que só dependem de nossa disposição.
De outra maneira só mesmo cheirando o pó... De pir-li-pim-pim é claro!
EDUCAÇÃO OU ENSINO?
EDUCAÇÃO OU ENSINO?
Até bem pouco tempo atraz eu acreditava que a “progressão continuada”, nome que se dá à nova maneira como se passa de ano na escola regular paulista, não era correta: “Onde já se viu o aluno não ter que ter notas boas pra passar de ano? Como se avaliar se ele merece estar na série subseqüente, se sua passagem é automática?” Estas questões ficavam por responder, pois não conhecia, e tampouco conheço ainda, como é que funciona a tal “progressão continuada”
Como nome e sigla pomposa são o que não faltam em nosso país, nem vou tentar desvendar as verdadeiras intenções e motivos que levaram os nossos líderes políticos a tomarem tal caminho.
No entanto, levando em consideração apenas as questões mais rasteiras de nosso mundinho cá de baixo, mudei de idéia e explico:
Sou músico e ministrei aulas a diversos jovens e percebi que se o cara não quiser, não aprende. Pode dar aula a vida toda que nada acontece.
Tudo o que precisamos do ponto de vista biológico nasce com a gente e, quando não nasce, como andar, falar, ir ao troninho, comer à mesa, sentar e outras ações aparentemente triviais que não me ocorrem no momento, todos à nossa volta se esforçam nos segurando, repetindo o que falamos errado, às vezes nos corrigindo para o mais errado ainda, ralhando quando cuspimos no prato ou até quando o lambemos e ainda se seguramos de forma adequada o talher e, considerado o nosso berço, até qual talher, em que hora, devemos utilizar e tal e coisa e coisa e tal...
De maneira geral nós, quando vamos aprender a ler, fazer contas, saber o que já aconteceu, como é que se planta, ou se faz uma casa, ou uma rua, ponte, prédio, onde jogar o lixo, o que podemos salvar nesse lixo pra que não se torne um empecilho à nossa sobrevivência (afinal não sabemos se vamos acordar amanhã e isto está entre as coisas que não precisamos aprender); limitamos-nos a aprender o ESTRITAMENTE NECESSÁRIO.
Considerando que político e dirigente público brasileiro via de regra tomam decisões casuísticas e, na maioria das vezes fisiológicas, não acredito que tenha havido uma ampla discussão a respeito do assunto a ponto de saberem como as coisas aconteceriam de fato (experiências, atributos necessários ao corpo docente – afinal estão tendo de administrar situações inusitadas como justificar a presença de alunos que efetivamente não estudaram no ano anterior e certamente não estudará no ano vigente etc.). Portanto concluo que tenha sido a única maneira politicamente correta que encontraram para livrar a todos: Escolas, professores, funcionários, alunos que estudam e que não estudam; do verdadeiro calvário em que se torna uma jornada com pessoas que querem e outras que não querem percorrê-la, minimizando os efeitos obviamente maléficos causados pela mistura de idades e objetivos e antecipando a saída do sistema daqueles que, convictamente ou não, não desejam estar ali.
Por outro lado não me parece que o ensino formal seja imprescindível para que a sociedade funcione bem. Temos diversos exemplos de pessoas bem sucedidas (vide Lula, Vicente Matheus etc.) que nunca tiveram acesso a ele, às vezes por opção própria. Se todo mundo fizer faculdade (e aí não estou falando de construir prédios), quem será o pedreiro, o faxineiro, o eletricista, o lixeiro etc. Se o fulano quer ser feliz trabalhando em algo de menor valor agregado é um direito dele
O que precisamos é que a educação em casa não tenha a “tal progressão continuada”: Se a criança não percebe, cabe aos pais ensiná-las que seu direito termina onde começa o de outra pessoa. Aí caberá “REPETIR O ANO” QUANTAS VEZES FOREM NECESSÁRIAS, pois o respeito é o pai de todos os ensinamentos, formais ou não.
Como diz José Saramago: “-Os livros religiosos em geral, possuem como premissa a seguinte frase: AMAI-VOS UNS AOS OUTROS, quando deveriam conter: RESPEITAI-VOS UNS AOS OUTROS”
Antonio Luiz Pessin
Até bem pouco tempo atraz eu acreditava que a “progressão continuada”, nome que se dá à nova maneira como se passa de ano na escola regular paulista, não era correta: “Onde já se viu o aluno não ter que ter notas boas pra passar de ano? Como se avaliar se ele merece estar na série subseqüente, se sua passagem é automática?” Estas questões ficavam por responder, pois não conhecia, e tampouco conheço ainda, como é que funciona a tal “progressão continuada”
Como nome e sigla pomposa são o que não faltam em nosso país, nem vou tentar desvendar as verdadeiras intenções e motivos que levaram os nossos líderes políticos a tomarem tal caminho.
No entanto, levando em consideração apenas as questões mais rasteiras de nosso mundinho cá de baixo, mudei de idéia e explico:
Sou músico e ministrei aulas a diversos jovens e percebi que se o cara não quiser, não aprende. Pode dar aula a vida toda que nada acontece.
Tudo o que precisamos do ponto de vista biológico nasce com a gente e, quando não nasce, como andar, falar, ir ao troninho, comer à mesa, sentar e outras ações aparentemente triviais que não me ocorrem no momento, todos à nossa volta se esforçam nos segurando, repetindo o que falamos errado, às vezes nos corrigindo para o mais errado ainda, ralhando quando cuspimos no prato ou até quando o lambemos e ainda se seguramos de forma adequada o talher e, considerado o nosso berço, até qual talher, em que hora, devemos utilizar e tal e coisa e coisa e tal...
De maneira geral nós, quando vamos aprender a ler, fazer contas, saber o que já aconteceu, como é que se planta, ou se faz uma casa, ou uma rua, ponte, prédio, onde jogar o lixo, o que podemos salvar nesse lixo pra que não se torne um empecilho à nossa sobrevivência (afinal não sabemos se vamos acordar amanhã e isto está entre as coisas que não precisamos aprender); limitamos-nos a aprender o ESTRITAMENTE NECESSÁRIO.
Considerando que político e dirigente público brasileiro via de regra tomam decisões casuísticas e, na maioria das vezes fisiológicas, não acredito que tenha havido uma ampla discussão a respeito do assunto a ponto de saberem como as coisas aconteceriam de fato (experiências, atributos necessários ao corpo docente – afinal estão tendo de administrar situações inusitadas como justificar a presença de alunos que efetivamente não estudaram no ano anterior e certamente não estudará no ano vigente etc.). Portanto concluo que tenha sido a única maneira politicamente correta que encontraram para livrar a todos: Escolas, professores, funcionários, alunos que estudam e que não estudam; do verdadeiro calvário em que se torna uma jornada com pessoas que querem e outras que não querem percorrê-la, minimizando os efeitos obviamente maléficos causados pela mistura de idades e objetivos e antecipando a saída do sistema daqueles que, convictamente ou não, não desejam estar ali.
Por outro lado não me parece que o ensino formal seja imprescindível para que a sociedade funcione bem. Temos diversos exemplos de pessoas bem sucedidas (vide Lula, Vicente Matheus etc.) que nunca tiveram acesso a ele, às vezes por opção própria. Se todo mundo fizer faculdade (e aí não estou falando de construir prédios), quem será o pedreiro, o faxineiro, o eletricista, o lixeiro etc. Se o fulano quer ser feliz trabalhando em algo de menor valor agregado é um direito dele
O que precisamos é que a educação em casa não tenha a “tal progressão continuada”: Se a criança não percebe, cabe aos pais ensiná-las que seu direito termina onde começa o de outra pessoa. Aí caberá “REPETIR O ANO” QUANTAS VEZES FOREM NECESSÁRIAS, pois o respeito é o pai de todos os ensinamentos, formais ou não.
Como diz José Saramago: “-Os livros religiosos em geral, possuem como premissa a seguinte frase: AMAI-VOS UNS AOS OUTROS, quando deveriam conter: RESPEITAI-VOS UNS AOS OUTROS”
Antonio Luiz Pessin
O JUMENTO PASSARINHO
CRIAÇÃO: VÉIO ANTONIO
NARRATIVA: GALEGO DA BAHIA
ILUSTRAÇÕES: ALLYNI FABIOLA
AGRADECIMENTOS:
MINHA MÃE E MEU PAI, POR TEREM ME TIDO,
A TODA A MINHA FAMILIA,
AO JUMENTO PASSARINHO
E AOS AMIGOS BAIANOS
QUE ME FIZERAM VOLTAR
A ESCREVER
O JUMENTO PASSARINHO
PREZADO E QUERIDO LEITOR
QUE SEU TEMPO ME DISPENSA
VOU ME ARRISCAR A FAZER
UM CORDEL COM INTELIGÊNCIA
NUNCA FIZ UM, MAS DUVIDO
QUE NÃO SEJA COMPREENDIDO,
POIS A HISTÓRIA COMPENSA
CHEGA-ME UM DIA UM AMIGO
E CONTA DURANTE O ALMOÇO
A HISTÓRIA DE UM JUMENTO
QUE CONHECEU INDA MOÇO
RIMOS TANTO NESSE DIA
EU E MINHA FAMILIA
DEIXAR DE CONTAR-LHE NÃO POSSO
-ONDE FOI O OCORRIDO?
PERGUNTEI-LHE CURIOSO
-NUM PEQUENO POVOADO
LUGAR TÃO LINDO E GOSTOSO
LÁ, NA MINHA JUVENTUDE,
GOZEI DE PAZ E QUIETUDE
ATÉ ME SINTO SAUDOSO
DISSE-ME ELE:- SEU ANTONIO
TRABALHEI COM UM JUMENTO
QUE ERA MESMO UM DEMÔNIO
LADINO, SAFADO E ATENTO.
ERA TÃO INTELIGENTE
QUE NA HORA DO BATENTE
FAZIA A GENTE FICAR TONTO
CHAMAVA-SE PASSARINHO
NOME ESQUISITO PRA UM JEGUE
FEZ HISTÓRIA ESSE BICHINHO
NÃO HÁ QUEM DISCUTA OU NEGUE
POIS QUEM CONHECEU O DANADO
SOFREU NA MÃO DO “ATENTADO”.
EXPLICO, COMO SE SEGUE:
NESSA ÉPOCA GANHAVA O PÃO
ATENDENDO FREGUESIA
LEVANDO GRADE E PORTÃO
DE UMA SERRALHERIA.
SABE O SENHOR QUE A GENTE,
POR SER POBRE, MAS DECENTE,
SERVIÇO NÃO ESCOLHIA
SE POR ACASO EU PEGAVA
SERVIÇO MUITO PESADO
O MALANDRO JÁ EMPACAVA
SE FAZENDO DE COITADO
E CASO A GENTE BRIGASSE
OU COM CHICOTE O AÇOITASSE
NA ESTRADA FICAVA DEITADO
DO CARRO A GENTE DESCIA
PARA O BICHO LEVANTAR
PERGUNTE-ME: OBEDECIA?!
NÃO SAIA DO LUGAR
SÓ A CARGA RETIRANDO
E O JUMENTO LEVANTANDO
PRA PODER CONTINUAR
ERA SÓ RECARREGAR
O CARRO PRA QUE O BICHINHO
DA LIDA QUERENDO ESCAPAR
COMESSASSE DE MANSINHO
DEITAR DE NOVO QUERER
NUNCA MAIS VIVO VOU VER,
OUTRO IGUAL A PASSARINHO
HAVIA NO POVOADO,
COMO EM QUASE TODO LUGAR,
UM TERRENO ABANDONADO
VELHO CAMPO DE PASTAR
ALI NASCEU MAMONEIRA
CAPIM E ATÉ BANANEIRA
NINGUÉM QUERIA CUIDAR
VOLTA E MEIA PASSARINHO
NESSE CAMPO IA PASTAR
APROVEITAR SOMBRA FRESCA
PARA PODER DESCANSAR
NO ENTULHO ELE SE DEITAVA
POR HORAS ALI FICAVA
SEM SINAL DE VIDA DAR
SEU ANTÔNIO O PROBLEMA
ERA QUE O BICHO SUMIA
PARECIA ATÉ CINEMA
COMO DESAPARECIA
SÓ MESMO QUANDO, COM SEDE,
ELE IA PARA O AÇUDE,
O JUMENTO A GENTE VIA
UM BELO DIA, PORÉM
PASSARINHO ESCAFEDEU
E ATÉ HOJE NINGUÉM
MAIS O BICHINHO VIU
TEM ATÉ QUEM DIGA QUE ISSO
FOI MACUMBA OU FEITIÇO
O JEITO QUE ELE SUMIU
HÁ QUEM DIGA TAMBÉM
QUE EXISTE UM OUTRO MOTE
QUE A PASSARINHO CONVÉM:
NÃO QUERENDO MAIS AÇOITE
PERCEBENDO QUE A SÊDE
TIRAVA ELE DA RÊDE
APRENDEU A BEBER DE NOITE
DE ENDI
NARRATIVA: GALEGO DA BAHIA
ILUSTRAÇÕES: ALLYNI FABIOLA
AGRADECIMENTOS:
MINHA MÃE E MEU PAI, POR TEREM ME TIDO,
A TODA A MINHA FAMILIA,
AO JUMENTO PASSARINHO
E AOS AMIGOS BAIANOS
QUE ME FIZERAM VOLTAR
A ESCREVER
O JUMENTO PASSARINHO
PREZADO E QUERIDO LEITOR
QUE SEU TEMPO ME DISPENSA

VOU ME ARRISCAR A FAZER
UM CORDEL COM INTELIGÊNCIA
NUNCA FIZ UM, MAS DUVIDO
QUE NÃO SEJA COMPREENDIDO,
POIS A HISTÓRIA COMPENSA
CHEGA-ME UM DIA UM AMIGO
E CONTA DURANTE O ALMOÇO
A HISTÓRIA DE UM JUMENTO
QUE CONHECEU INDA MOÇO
RIMOS TANTO NESSE DIA
EU E MINHA FAMILIA
DEIXAR DE CONTAR-LHE NÃO POSSO
-ONDE FOI O OCORRIDO?
PERGUNTEI-LHE CURIOSO
-NUM PEQUENO POVOADO
LUGAR TÃO LINDO E GOSTOSO
LÁ, NA MINHA JUVENTUDE,
GOZEI DE PAZ E QUIETUDE
ATÉ ME SINTO SAUDOSO
DISSE-ME ELE:- SEU ANTONIO
TRABALHEI COM UM JUMENTO
QUE ERA MESMO UM DEMÔNIO
LADINO, SAFADO E ATENTO.
ERA TÃO INTELIGENTE

QUE NA HORA DO BATENTE
FAZIA A GENTE FICAR TONTO
CHAMAVA-SE PASSARINHO
NOME ESQUISITO PRA UM JEGUE
FEZ HISTÓRIA ESSE BICHINHO
NÃO HÁ QUEM DISCUTA OU NEGUE
POIS QUEM CONHECEU O DANADO
SOFREU NA MÃO DO “ATENTADO”.
EXPLICO, COMO SE SEGUE:
NESSA ÉPOCA GANHAVA O PÃO
ATENDENDO FREGUESIA
LEVANDO GRADE E PORTÃO
DE UMA SERRALHERIA.
SABE O SENHOR QUE A GENTE,
POR SER POBRE, MAS DECENTE,
SERVIÇO NÃO ESCOLHIA
SE POR ACASO EU PEGAVA

SERVIÇO MUITO PESADO
O MALANDRO JÁ EMPACAVA
SE FAZENDO DE COITADO
E CASO A GENTE BRIGASSE
OU COM CHICOTE O AÇOITASSE
NA ESTRADA FICAVA DEITADO
DO CARRO A GENTE DESCIA
PARA O BICHO LEVANTAR
PERGUNTE-ME: OBEDECIA?!
NÃO SAIA DO LUGAR
SÓ A CARGA RETIRANDO
E O JUMENTO LEVANTANDO
PRA PODER CONTINUAR
ERA SÓ RECARREGAR
O CARRO PRA QUE O BICHINHO
DA LIDA QUERENDO ESCAPAR
COMESSASSE DE MANSINHO
DEITAR DE NOVO QUERER
NUNCA MAIS VIVO VOU VER,
OUTRO IGUAL A PASSARINHO

HAVIA NO POVOADO,
COMO EM QUASE TODO LUGAR,
UM TERRENO ABANDONADO
VELHO CAMPO DE PASTAR
ALI NASCEU MAMONEIRA
CAPIM E ATÉ BANANEIRA
NINGUÉM QUERIA CUIDAR
VOLTA E MEIA PASSARINHO
NESSE CAMPO IA PASTAR
APROVEITAR SOMBRA FRESCA
PARA PODER DESCANSAR
NO ENTULHO ELE SE DEITAVA
POR HORAS ALI FICAVA
SEM SINAL DE VIDA DAR
SEU ANTÔNIO O PROBLEMA
ERA QUE O BICHO SUMIA
PARECIA ATÉ CINEMA
COMO DESAPARECIA
SÓ MESMO QUANDO, COM SEDE,
ELE IA PARA O AÇUDE,
O JUMENTO A GENTE VIA
UM BELO DIA, PORÉM

PASSARINHO ESCAFEDEU
E ATÉ HOJE NINGUÉM
MAIS O BICHINHO VIU
TEM ATÉ QUEM DIGA QUE ISSO
FOI MACUMBA OU FEITIÇO
O JEITO QUE ELE SUMIU
HÁ QUEM DIGA TAMBÉM
QUE EXISTE UM OUTRO MOTE
QUE A PASSARINHO CONVÉM:
NÃO QUERENDO MAIS AÇOITE
PERCEBENDO QUE A SÊDE
TIRAVA ELE DA RÊDE
APRENDEU A BEBER DE NOITE
DE ENDI
O COMETA
AGOSTO de l986 foi um mês carrancudo: frio e um tanto chuvoso, mais parecido com julho ou junho, o inverno querendo persistir rigoroso por mais um pouco de tempo, mas com alguns dias limpos. Por aqui dizemos que “agosto é mês de cachorro louco” e naquele ano, agosto era mesmo um mês de “quase loucos”. Durante todo o ano anterior a notícia que dominava todos os meios de comunicação da época, era a passagem do cometa Halley, que seria visível depois de 76 anos de sua última aparição em nosso sistema solar.
Na TV, rádio e jornais era assunto diário (parecia até com a atual crise econômica mundial), todo mundo tirando uma lasquinha: tinha lancheirinha do cometa, revista do cometa, música do cometa, brinquedo do cometa, biscoito do cometa e até viagem que levaria alguns felizardos para acima das nuvens de onde, em aeronave luxuosa, saboreariam um delicioso jantar e poderiam ver o astro mais de perto (essa viagem custou um dinheirão e mesmo assim suas passagens esgotaram-se rapidamente).
Alguns dados sobre o astro:
-Edmond Halley, baseado em suas aparições nos anos de 1531, 1607 e 1682, calculou sua órbita em
76 anos. Quando o cometa voltou a surgir em 1758, como ele havia previsto, começou a ser chamado
de cometa Halley.
-É o cometa mais conhecido pela humanidade, com aparições registradas desde o ano 240 AC.
-Sua cauda mede o dobro da distância entre a terra e o sol.
-Seu núcleo mede entre trinta e quarenta quilômetros de diâmetro.
-Sua visita mais famosa ocorreu em 1066 DC.
-Havia relatos de suicídios e tragédias atribuídas à sua última passagem, até então em 1910.
Comovido, o mundo civilizado ficou olhando para cima. As pessoas procuravam todas as informações disponíveis em livros e revistas especializadas em astronomia e ciência.
Em casa não era diferente e por diversas noites ficávamos ali, de olho grudado no céu, na esperança de ver o cometa. Quase sempre éramos frustrados pelas noites nubladas daquele úmido final de inverno.
Por outro lado, notícias de astrônomos amadores e profissionais de todo o mundo que juravam estar acompanhando a passagem do astro, alimentavam nossas esperanças de observar o raro fenômeno.
Outro fato espetaculoso que acontecia naquele ano em nosso país era o plano cruzado que, a partir de 28 de fevereiro daquele ano transformou todos os brasileiros em “fiscais do Sarney”. Sim caro leitor, fiscais do nosso querido e probo e bigodudo senador.
Para os mais jovens devo explicar que nós vivíamos a hiperinflação (na época coisa de até 80 % ao mês – cerca de 2,5% ao dia). Nesse cenário, pra se ter uma idéia, se a gente tivesse de manhã R$ 100, 00 de tarde teríamos R$ 97,50 e, no final do mês, R$ 20,00. Como? Pela desvalorização do dinheiro que comprava cada vez menos e já tinha perdido cerca de nove zeros nos últimos 10 anos.
Com a promessa corrigir essa situação deplorável uma serie de medidas foram baixadas pelo governo, sendo que a mais importante era o congelamento de salários e preços. “Nós acreditamos” e viramos fiscais do governo denunciando os comerciantes que não cumprissem a tabela de preços divulgada juntamente com o plano e, tal qual a GESTAPO alemã ou a KGB russa, eles vinham e fechavam ou multavam os malfeitores.
Apesar de ser uma boa idéia, pouco diferente do que foi o plano real que instituiu a moeda que utilizamos hoje, a medida não deu certo. Era apenas “politiqueira” e seu objetivo acabou sendo eleger os candidatos a governadores do partido oposicionista da época: O mesmo PMDB dos mesmos caciques que até hoje brilham em nosso noticiário político-policial.
O pior de tudo é que conseguiram seu intento elegendo 22 dos 26 governadores. Como podem observar: “Em terra de Abrantes, tudo está como dantes”.
Daí poderíamos até cunhar em nosso rico vernáculo uma nova expressão: “MENTIRA BIGODUDA”.
E lá estávamos nós à mercê de tanta notícia – “tabela na mão e cabeça erguida” -, orgulhosos de sermos os fiscais do presidente e ansiosos para vermos o cometa Halley.
Nessa época eu e minha família morávamos numa modesta casa de quarto, sala e cozinha na periferia da zona sul da cidade de São Paulo em um bairro bem aconchegante onde a camaradagem ainda era usual e o bom e velho “bate papo” ainda acontecia na calçada e nossos filhos terminavam seu dia brincado na rua.
No entanto aquele entardecer estava especial: depois de exercer meu papel de fiscal e dar a minha costumeira bronca em algum comerciante que praticava preços fora da tabela eu chegava em casa. Apesar de não ser tão tarde o céu já estava escuro e estrelado como há muito não se via, nenhum vento, friozinho seco anunciando o final do inverno e convidando para um chocolate quente ou uma sopa que eu, antes mesmo de chegar em casa, já saboreava em minha imaginação.
Antes mesmo de estacionar o carro na garagem encontrei uma pequena aglomeração em frente à minha residência que acreditei ser, como em outras ocasiões, alguma das brincadeiras que sempre aconteciam por ali (pega-pega, esconde-esconde entre tantas outras), mas, para minha surpresa, todos estavam com suas cabeças voltadas para o alto, olhos fixos em algo que eu não podia ver, mas logo desconfiei: O COMETA
Rapidamente juntei-me a eles procurando na abóbada celeste algum sinal do astro e perguntei: -Viram o cometa?... Onde?
-Ali- disse-me minha esposa apontando e me posicionando – perto daquele fio – e mostrava o fio de alta tensão que passava por cima de nossas cabeças- Tá vendo?
Com grande esforço, depois de algum tempo, consegui visualizar o que eles me mostravam: Uma pequena mancha esbranquiçada que apesar de tênue, tinha a forma que os especialistas diziam nos noticiários: um pequeno núcleo com uma cauda mais larga, parecendo uma pluma de espanador. “Depois de tanta procura lá estava ele espetacular, raro, único”.
Ficamos ali durante alguns intermináveis minutos extasiados, mostrando o astro um para o outro.
Meus filhos, um com seis, outro com quatro e o mais jovem com apenas dois para três anos, não davam a devida importância para o fato e eu preocupado com isso, comecei a discursar solenemente (afinal a oportunidade não poderia ser desperdiçada):
-Guardem bem este dia, pois daqui a 76 anos, SOMENTE DAQUI A SETENTA E SEIS ANOS, o cometa Halley passará por aqui de novo.
E a conversa se acalorou:
-Tá vendo? – Dizia minha esposa para o mais velho
-Não...Onde?
-Ali... Pertinho do fio.
-Ah! Vi!! – Diziam em coro os dois maiores
E o menor, já com ar de choro:
-Também quero ver... Também quero ver...
E o maior, fazendo birra:
-Você não viu!!! Você não viu!!!
O segundo, não querendo ficar para traz, batia o pé:
-Eu vi... Eu vi...Vi sim... Não foi mãe? Vi sim e pronto.
E o menor já chorando:
-Também quero ver... Também quero.
E lá estávamos nós. Família unida. Harmonia. Vizinhança em festa. Coisa linda mesmo.
Enfim estávamos participando da história e eu, já com os olhos rasos d’água repetindo:
-Guardem bem este dia (e citei enfaticamente a data), pois daqui a quase 80 anos provavelmente um de vocês contará a seus netos.
Nesse momento, como que concordando e tornando mais marcante o momento, uma lufada de ar fresco refrigerou nossa conversa. Quase que imediatamente nosso segundo filho gritou:
-Tá se mexendo... Tá se mexendo...
A leve e generosa brisa balançou a pipa que estava presa ao fio
Rimos muito e entramos. Afinal a sopa já estava esfriando na mesa.
Na TV, rádio e jornais era assunto diário (parecia até com a atual crise econômica mundial), todo mundo tirando uma lasquinha: tinha lancheirinha do cometa, revista do cometa, música do cometa, brinquedo do cometa, biscoito do cometa e até viagem que levaria alguns felizardos para acima das nuvens de onde, em aeronave luxuosa, saboreariam um delicioso jantar e poderiam ver o astro mais de perto (essa viagem custou um dinheirão e mesmo assim suas passagens esgotaram-se rapidamente).

Alguns dados sobre o astro:
-Edmond Halley, baseado em suas aparições nos anos de 1531, 1607 e 1682, calculou sua órbita em
76 anos. Quando o cometa voltou a surgir em 1758, como ele havia previsto, começou a ser chamado
de cometa Halley.
-É o cometa mais conhecido pela humanidade, com aparições registradas desde o ano 240 AC.
-Sua cauda mede o dobro da distância entre a terra e o sol.
-Seu núcleo mede entre trinta e quarenta quilômetros de diâmetro.
-Sua visita mais famosa ocorreu em 1066 DC.
-Havia relatos de suicídios e tragédias atribuídas à sua última passagem, até então em 1910.
Comovido, o mundo civilizado ficou olhando para cima. As pessoas procuravam todas as informações disponíveis em livros e revistas especializadas em astronomia e ciência.
Em casa não era diferente e por diversas noites ficávamos ali, de olho grudado no céu, na esperança de ver o cometa. Quase sempre éramos frustrados pelas noites nubladas daquele úmido final de inverno.
Por outro lado, notícias de astrônomos amadores e profissionais de todo o mundo que juravam estar acompanhando a passagem do astro, alimentavam nossas esperanças de observar o raro fenômeno.
Outro fato espetaculoso que acontecia naquele ano em nosso país era o plano cruzado que, a partir de 28 de fevereiro daquele ano transformou todos os brasileiros em “fiscais do Sarney”. Sim caro leitor, fiscais do nosso querido e probo e bigodudo senador.
Para os mais jovens devo explicar que nós vivíamos a hiperinflação (na época coisa de até 80 % ao mês – cerca de 2,5% ao dia). Nesse cenário, pra se ter uma idéia, se a gente tivesse de manhã R$ 100, 00 de tarde teríamos R$ 97,50 e, no final do mês, R$ 20,00. Como? Pela desvalorização do dinheiro que comprava cada vez menos e já tinha perdido cerca de nove zeros nos últimos 10 anos.
Com a promessa corrigir essa situação deplorável uma serie de medidas foram baixadas pelo governo, sendo que a mais importante era o congelamento de salários e preços. “Nós acreditamos” e viramos fiscais do governo denunciando os comerciantes que não cumprissem a tabela de preços divulgada juntamente com o plano e, tal qual a GESTAPO alemã ou a KGB russa, eles vinham e fechavam ou multavam os malfeitores.
Apesar de ser uma boa idéia, pouco diferente do que foi o plano real que instituiu a moeda que utilizamos hoje, a medida não deu certo. Era apenas “politiqueira” e seu objetivo acabou sendo eleger os candidatos a governadores do partido oposicionista da época: O mesmo PMDB dos mesmos caciques que até hoje brilham em nosso noticiário político-policial.
O pior de tudo é que conseguiram seu intento elegendo 22 dos 26 governadores. Como podem observar: “Em terra de Abrantes, tudo está como dantes”.
Daí poderíamos até cunhar em nosso rico vernáculo uma nova expressão: “MENTIRA BIGODUDA”.
E lá estávamos nós à mercê de tanta notícia – “tabela na mão e cabeça erguida” -, orgulhosos de sermos os fiscais do presidente e ansiosos para vermos o cometa Halley.
Nessa época eu e minha família morávamos numa modesta casa de quarto, sala e cozinha na periferia da zona sul da cidade de São Paulo em um bairro bem aconchegante onde a camaradagem ainda era usual e o bom e velho “bate papo” ainda acontecia na calçada e nossos filhos terminavam seu dia brincado na rua.
No entanto aquele entardecer estava especial: depois de exercer meu papel de fiscal e dar a minha costumeira bronca em algum comerciante que praticava preços fora da tabela eu chegava em casa. Apesar de não ser tão tarde o céu já estava escuro e estrelado como há muito não se via, nenhum vento, friozinho seco anunciando o final do inverno e convidando para um chocolate quente ou uma sopa que eu, antes mesmo de chegar em casa, já saboreava em minha imaginação.
Antes mesmo de estacionar o carro na garagem encontrei uma pequena aglomeração em frente à minha residência que acreditei ser, como em outras ocasiões, alguma das brincadeiras que sempre aconteciam por ali (pega-pega, esconde-esconde entre tantas outras), mas, para minha surpresa, todos estavam com suas cabeças voltadas para o alto, olhos fixos em algo que eu não podia ver, mas logo desconfiei: O COMETA
Rapidamente juntei-me a eles procurando na abóbada celeste algum sinal do astro e perguntei: -Viram o cometa?... Onde?
-Ali- disse-me minha esposa apontando e me posicionando – perto daquele fio – e mostrava o fio de alta tensão que passava por cima de nossas cabeças- Tá vendo?
Com grande esforço, depois de algum tempo, consegui visualizar o que eles me mostravam: Uma pequena mancha esbranquiçada que apesar de tênue, tinha a forma que os especialistas diziam nos noticiários: um pequeno núcleo com uma cauda mais larga, parecendo uma pluma de espanador. “Depois de tanta procura lá estava ele espetacular, raro, único”.
Ficamos ali durante alguns intermináveis minutos extasiados, mostrando o astro um para o outro.
Meus filhos, um com seis, outro com quatro e o mais jovem com apenas dois para três anos, não davam a devida importância para o fato e eu preocupado com isso, comecei a discursar solenemente (afinal a oportunidade não poderia ser desperdiçada):
-Guardem bem este dia, pois daqui a 76 anos, SOMENTE DAQUI A SETENTA E SEIS ANOS, o cometa Halley passará por aqui de novo.
E a conversa se acalorou:
-Tá vendo? – Dizia minha esposa para o mais velho
-Não...Onde?
-Ali... Pertinho do fio.
-Ah! Vi!! – Diziam em coro os dois maiores
E o menor, já com ar de choro:
-Também quero ver... Também quero ver...
E o maior, fazendo birra:
-Você não viu!!! Você não viu!!!
O segundo, não querendo ficar para traz, batia o pé:
-Eu vi... Eu vi...Vi sim... Não foi mãe? Vi sim e pronto.
E o menor já chorando:
-Também quero ver... Também quero.
E lá estávamos nós. Família unida. Harmonia. Vizinhança em festa. Coisa linda mesmo.
Enfim estávamos participando da história e eu, já com os olhos rasos d’água repetindo:
-Guardem bem este dia (e citei enfaticamente a data), pois daqui a quase 80 anos provavelmente um de vocês contará a seus netos.
Nesse momento, como que concordando e tornando mais marcante o momento, uma lufada de ar fresco refrigerou nossa conversa. Quase que imediatamente nosso segundo filho gritou:
-Tá se mexendo... Tá se mexendo...
A leve e generosa brisa balançou a pipa que estava presa ao fio
Rimos muito e entramos. Afinal a sopa já estava esfriando na mesa.
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