FINALMENTE DECIDI ESCREVER

BEM VINDOS

ESCREVER É MUITO BOM, MAS SABER SER LIDO, É MUITO MELHOR

HOMENAGEM

Aos amigos que, mesmo sendo grama, sempre compartilham o cardápio.

Seguidores

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ACONTECEU DE NOVO



Se quiser, vá você. Eu não vou passar por tudo aquilo de novo.
— Mas o pessoal mudou, estão mais escolados, mais sabidos. A tal da internet está deixando todo mundo muito informado. Nem vamos precisar de tanto tempo pra divulgar nossas idéias. — Disse Mohamed, animado principalmente pelos últimos acontecimentos.
— E você Abraão, o que acha?
— Não sei não... Pessoas são pessoas
— Mas você não acha que, passando pelo que eles estão passando, alguma coisa tem que ter mudado?
— É... Mas não necessariamente para melhor. Os caras sempre acham que a culpa não é deles. Ou é o Homem ou “daquele outro”. Desse jeito não vejo solução, pelo menos no mandato Dele. É todo poderoso, mas...

Apesar da visível preocupação, a conversa seguia animada entre os três, quando chegou outro, bem acima do peso, com seus longos e finos bigodes, ar asiático com olhos de amêndoa e, pegando o “bonde andando” já chegou afirmando:
— Aonde vocês vão? Também quero ir.
Abraão, o mais experiente e brincalhão interpelou, dirigindo-se aos outros:
— O que vocês acham... Ele pode ir? Eu tenho dúvidas.
O gordão curioso que estava, reafirmou:
— Vou e pronto!
Jesus, já compadecido interveio:
— Mas se você nem sabe do que estamos falando, como diz que quer ir, principalmente sendo o símbolo da meditação que é não acha que deveria meditar um pouco?
— Tá bom... Tá bom... — Acatou Siddhartha — E para onde vocês estão pensando ir?
Já às gargalhadas, Abraão e Mohamed responderam quase em uníssono:

— TERRA!

— Nem fu... zilando. Passar por tudo aquilo de novo. Quem teve a “brilhante idéia”?

— Eu — disse Mohamed — Os meninos estão precisando. A vaca tá indo pro chamado brejo. Ou a gente intervém ou vai dar mer...cadoria estragada.
— E o Homem, o que diz dessa “grande” idéia?
— Ainda não consultamos. Preciso primeiro convencer vocês. Afinal não dá pra descermos como das outras vezes: Um por um. Tem muito mais gente. Acho que temos que fazer tipo arrastão na praia. Em uma semana damos cabo. Se o Nicolau consegue fazer o percurso todo em um dia (Tá certo que em 24 horas, descontado o fuso horário).

— Eu, — Disse Abraão — desde que o Todo Poderoso concorde com essa loucura, acredito ser melhor a gente ir ao mesmo tempo, cada um para um lugar diferente, de acordo com nosso prestígio e necessidade.

— Eu concordo. — Retrucou Jesus e, chamando a atenção de Mohamed disse: — Sua afobação pode piorar ainda mais as coisas. Já pensou nós quatro descendo de uma vez. Seria a bagunça geral acompanhada das piores mazelas como gente se matando, saqueando os demais. Um horror! Além do que muitos utilizariam isto pra fins políticos eleitoreiros. Aquele barbudo mesmo, caso a gente escolha o país do futebol. Já sairia dizendo: Nunca antes na história deste País, “ou çeja”, do mundo e aquele blá... blá... blá... de sempre. Tem que ser do jeito do Abraão.
— Pensando bem vocês tem razão. E aí Siddhartha (Ô nominho difícil)? Vamos tentar novamente?
— Só se o Chefe pelo menos garantir a segurança. Sem aquele papo de salvador, sacrifício na cruz. É chegar, acontecer e subir de volta rapidinho. Afinal aposentadoria é aposentadoria. Tudo bem que a gente atenda um ou outro pedidinho, mas assim não dá. Os caras aprontam tudo o que é de ruim e a gente tem que ir lá consertar?
— Vamos falar com Ele.
                                                           -o-o-o-o-o-o-o-


Tendo sido idéia de Mohamed, coube-lhe a missão. Depois de algumas tentativas, já que o Homem, sempre muito ocupado com as coisas do universo, tava meio sem tempo, conseguiu uma audiência, não sem antes receber muitas recomendações de Pedro, sobre toda a problemática cósmica.

Mohamed, objetivo como sempre, apressou-se em adentrar ao recinto Dele. Ele se encontrava consertando uma ou duas coisinhas lá nos confins galáticos, atirando raios certeiros. Entretido na tarefa, nem percebeu sua aproximação, mas, sabedor de tudo, em sua onipotência, procurou disfarçar a surpresa saudando-o informalmente.

— Algum problema?

Mohamed contou detalhadamente suas intenções e ainda, dando como exemplo essa última reunião em que tentaram e quase nada conseguiram fazer para consertar o clima,  acrescentou que, sem a ajuda divina, a humanidade estaria fadada à extinção, muito antes da época em que Ele havia determinado.

— Mas você não acha perda de tempo? Quando os dotei de livre arbítrio, já avisei. Em seguida, em virtude da separação das famílias e depois das nações, mandei diversas mensagens, às vezes através de mensageiros importantes como você. E, um pouco antes de você, mandei até meu filho. Nunca liguei para os nomes de que me chamaram, se me entendiam como sou ou como se eu fosse muitos. Nada resolveu. O que os faz pensar que essa iniciativa terá melhor resultado?

Mohamed explicou o que achava sobre o estado evolutivo humano etc.
Conversaram por mais alguns instantes e Ele fez uma última indagação:
— Já convidaram os outros
— Acreditamos que, em virtude de sermos os mais cultuados, é melhor começarmos e depois chamamos os Gurus, o Allan e o Confúcio.

Passando a mão sobre sua longa barba branca, deu aquela pensadinha típica dos que, apesar de poderosos, sabem de sua responsabilidade e determinou:
— Já que quem tem mais experiência nesse negócio de descer e subir é Jesus, começaremos por ele.
— Mas...
— Se der certo, — Continuou agora solene — a gente continua com o plano, se der errado paciência.
Entendendo o recado, Mohamed preparou-se para sair, mas recebeu uma  última recomendação:
— Avise Jesus que ele só disporá de dois milagres. Que os utilize sabiamente.

E lá se foi Mohamed, um tanto desiludido, pois estava convicto que, se levassem a cabo seu plano original, abreviariam muito mais o sofrimento humano. Mas Ele disse tá dito.

— É melhor você descer lá mesmo onde subiu.
— Mas lá quase ninguém me cultua mais.
Abraão, com a sabedoria de quem conduziu seu povo contra tudo e contra todos, vaticinou:
— Você deve descer no país em que tem mais prestígio.
— Isso mesmo. Lá terei menos dificuldades e, quem sabe, consiga um resultado que anime meu Pai a permitir a descida de vocês.
— Fica longe do barbudinho — Interpelou Siddhartha.
                                                                    -o-o-o-o-o-o-o-

Final de Março início de Abril é uma época em que os brasileiros estão mais acessíveis à palavra de Jesus, até mesmo mais do que no Natal, pois foi nessa época que o supliciaram, culminando em seu sacrifício e ressurreição, o que é lembrado todos os anos após a quaresma. Aquela quaresma em particular, em virtude das mudanças climáticas do planeta, fora bastante chuvosa. Isso parecia deixar tudo mais triste ainda. Por isso Jesus decidiu descer justamente naqueles dias e, melhor, desceu logo no maior cemitério, onde poderia dar seu recado e, para comprovar ser ele mesmo, fazer um de seus milagres, quem sabe uma ressurreição.

Pra variar o cemitério de Vila Formosa estava lotado. Em seu velório vários esquifes aguardavam o sepultamento, acompanhados de centenas, talvez milhares de pessoas que se juntavam a outras que vinham em visita a seus entes queridos já falecidos.

Aquela quinta-feira santa prometia. A chuva caia persistente, ora mais forte, ora mais fraca, mas parecia não querer cessar de jeito nenhum.

No pátio principal entre os carros estacionados, perto do vendedor de flores de repente uma grande nuvem se formou. Todos assustados, não sabendo do que se tratava, procuraram abrigo. De dentro da nuvem apareceu um homem vestindo uma túnica, mais como um grande lençol branco. Barbudo, aparentemente jovem, se dirigiu às pessoas presentes:

— Venho lhes trazer a salvação. — E começou seu discurso inflamado, procurando convencer todos da necessidade de mudança nos relacionamentos, distribuição das riquezas etc.

— Mas você devia dizer isto lá no Araçá e não aqui. — Interrompeu um guardador de carros — Aqui só tem miserável. Não temos nada pra dividir. De que igreja você é?
— Eu sou a verdade absoluta. Sou filho Dele o Criador.

Um padre que passava já gritou:
— Blasfêmia! Prove que você é quem diz ser.

Pensou um pouco e, como dispunha de apenas dois milagres, resolveu utilizar o primeiro em grande estilo e disse em voz alta, quase gritando, uma vez que uma multidão já o cercava:

— Levantem.

Um a um todos os defuntos que aguardavam o sepultamento, foram levantando de seus esquifes. Mas o resultado não foi o esperado, pois a correria se instalou. Pessoas se empurrando, querendo sair do cemitério a qualquer custo, sendo pisoteadas. A notícia se espalhou como fogo em pólvora e tudo deu errado. Jesus, não entendendo bem, pediu ao Pai que desfizesse a ca...rga negativa que, inesperadamente ele havia promovido.

Ele, compreensivo, retrocedeu o tempo em algumas horas, ao exato momento de sua descida e recomendou:
— Vê se não faz mais nenhuma! Os tempos são outros. As pessoas não entendem bem esses milagres.

Para sua segunda e derradeira tentativa, procurou um rincão cheio de problemas, e escolheu um centro de saúde dos mais necessitados: Sem médicos, daquele jeito mesmo.
Em virtude de sua última experiência desta feita chegou com a mesma aparência, mas sem muito alarde e, apropriando-se de um consultório, foi logo atendendo um tetraplégico que, pelo seu estado, se encontrava no primeiro lugar da fila, mas há mais de quatro horas.
Compadecido, como bem cabe a alguém como ele, olhou para o infeliz e solenemente disse:

— Levanta e anda.

O rapaz, como que tomando um choque, pulou da cadeira de rodas e, como nunca havia feito em sua miserável vida, saiu serelepe do consultório, esquecendo-se até de agradecer. Esqueceu até seu antigo meio de transporte.

Jesus, satisfeito com o resultado e já que a porta havia ficado entreaberta, pôs-se a escutar os comentários do outro lado:
— E aí... Mudou alguma coisa?
— Que nada... Nem me examinou... Mandou levantar e ir embora.

Os que lá estavam testemunharam um grito seguido de uma tremenda explosão:

—Mohamed! Você me paga!


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

VERBO SUICIDAR




A COMUNICAÇÃO HUMANA, tendo como origem o empirismo, provavelmente iniciada com gestos e grunhidos, não poderia prever algumas situações inusitadas.

Uma delas é o verbo “suicidar”. A despeito de podermos conjugá-lo, tal como chover, relampejar, ventar e outros verbos impessoais, é, ao contrário, um verbo extremamente pessoal, de maneira que não podemos utilizá-lo como verbo auxiliar na segunda ou terceira pessoa:
“Vou te suicidar” ou “vos suicidarei”.

Portanto é uma conjugação, quando sem o pronome oblíquo na primeira pessoa (Me ou nos), quase inútil:
Eu suicido
Tu suicidas
Ele suicida
Nós suicidamos
Vós suicidais
Eles suicidam

Dirá o leitor: Como quase? – Pois é! Agora a pouco, lá na longínqua Suíça, uma das bases de nosso querido Papai Noel, que nos prometia como grande presente para este Natal a solução, ou pelo menos seu encaminhamento, para nossos problemas ambientais, nós, seres humanos racionais, sabedores que Kopenhagen (Que para a maioria de nós nada mais é que marca de chocolate!), apesar de longe, ainda está no planeta Terra, novamente surpreendemos o Criador conjugando-o na segunda pessoa do plural e, pior, colocando como objeto direto a própria Terra: Vamos suicidar a Terra.

Brasileiros um pouco mais antigos como eu já presenciaram esse verbo sendo conjugado nessas pessoas impossíveis. Algumas mortes de personalidades políticas ou de assessores dessas personalidades, dadas oficialmente como suicidio, ocorreram em circunstâncias muito estranhas, quase como os caras  se suicidando com dois tiros na cabeça. Cômico se não fosse trágico.

Mas lá, país de primeiro mundo onde todos, mesmo os do terceiro que lá estavam, presumivelmente líderes, incontáveis, incontestes e, agora comprovadamente, incompetentes, não esperávamos conjugação tão impessoal. Parece acharem que somente nós, pobres mortais menos favorecidos pela sorte, nascidos na metade errada do mundo, morreremos vítimas dessas aberrações climáticas, provocadas principalmente pela outra metade.

Provavelmente não existente nas línguas nórdicas, extremamente guturais (pronunciadas por sons saídos diretamente da garganta, quase urros e grunhidos sem consoantes) e inflexíveis, esta análise sintática foi esquecida pelos latinos que lá estiveram, até porque quem falou alguma coisa relevante, o fez de maneira populista, sem compromisso com a factibilidade, portanto falando pelos cotovelos.
Esquecemos-nos da maior de todas as premissas, mais que humana: Biológica, que nos é ensinada desde que somos concebidos (Quiçá até em nossa memória genética) “Só a vida garante a existência, racional ou não”.

A água suíça deve estar correndo morro acima e o fogo descendo morro abaixo (O pleonasmo redundante é de propósito).

Será que os americanos nos passaram a perna de novo utilizando aquele grande teatro mundial apenas para promoverem o desenho animado do Jorge, aquele mesmo das “Navonas” que, quando começavam a passar na tela, de tão grandes que eram a gente até cochilava?

Será!!!?

Responderia Shakespeare, com outra indagação: - Maybe or may be?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O TEMPO NÃO PÁRA - AINDA BEM!


ANTIGAMENTE, mas não muito, eu, quando via as decorações típicas do Natal, ficava excitado, na expectativa da compra de presentes e conseqüente entrega em uma noite que seria muito alegre, repleta de familiares, com muitos risos e manifestações de afeto.


Ultimamente só tenho conseguido pensar na velocidade, cada vez maior, com que essas decorações tem acontecido. Chego a quase afirmar que, em virtude da voracidade comercial, o natal está se repetindo duas vezes por ano.
Nem bem dizemos “feliz ano novo”, e os blocos carnavalescos já estão na rua anunciando com uma felicidade inexplicável, a chegada do final do ano.

Principalmente no Brasil a coisa é bem assim: Ano novo, carnaval, páscoa, férias, um monte de feriados (independência, república, Nossa Senhora) e natal/ano novo de novo.

Quer dizer, depois do carnaval, quando terminam as férias, meia dúzia de eventos nos leva diretamente ao abismo do envelhecimento (ainda bem!).

Dia desses, interpelado por meu filho, que lembrava de sua infância, quando os amigos eram realmente importantes, a ponto de mantê-los até hoje, começamos a filosofar sobre o assunto. Coincidentemente recebi uma mensagem eletrônica por esses dias que falava sobre a mesma coisa. Mencionava que nosso cérebro percebe o tempo de acordo com os eventos externos: Caso sejamos encerrados durante algum tempo em uma sala de cor branca e sem nenhum objeto, rapidamente perdemos a noção do tempo. Dessa maneira aquele e-mail terminava aconselhando-nos a quebrar nossas rotinas continuamente, com o objetivo de sentirmos o tempo e mantermos nosso cérebro em constante atividade, a fim de absorver situações inesperadas.

Ocorre que a própria humanidade procura a rotina, pois é ela que nos dá a sensação de segurança e continuidade.

Não, tempo, não zombarás de minhas mudanças!
As pirâmides que novamente construíste
Não me parecem novas, nem estranhas;
Apenas as mesmas com novas vestimentas


Willian Shakespeare (1554-1616)

Podemos observar que Shakespeare, mesmo tendo morrido aos 62 anos, jovem para os padrões atuais, percebeu a importância das duas coisas: a rotina, que nos dá segurança e a necessidade constante de nos rebelarmos contra ela. Provavelmente ali estivesse o segredo de sua criatividade e presença de espírito que nos legou textos discutidos e encenados até nossos dias; provavelmente, desafiando o inexorável, fiquem para a eternidade.

Particularmente descobri que escrevendo, tenho conseguido ser mais disciplinado, uma vez que me comprometi a escrever constantemente (olha aí a rotina). Por outro lado, tendo que interessar meus leitores, procuro falar sobre assuntos diversos, me induzindo a pesquisas cada vez mais aprofundadas (olha aí as mudanças). Se receber um elogio então (ás vezes até só um “li seu artigo”), volta-me a sensação da qual falei no início.

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.


Fernando Sabino (1923-2004)

A partir deste pensamento de nosso contemporâneo Fernando Sabino, chego à conclusão que a rotina serve para valorizarmos os momentos especiais que, à medida que envelhecemos e nos enriquecemos com mais experiências, vão ficando cada vez mais raros. Na mesma medida essa raridade tende a torná-los cada vez mais importantes. Evidentemente o Natal, uma vez que cada vez mais está ligado muito mais ao movimento de “rebanho” ao qual as “elites” procuram nos conduzir a fim de encobrir a absoluta miséria imposta a grande parte de nossos semelhantes, tende a perder totalmente o encanto (acho que já perdeu). Devemos levar isso em conta para tirá-lo de nossa lista de eventos importantes, caso queiramos nos “sentir vivos”.

Em virtude da tecnologia, hoje em dia o registro histórico é muito mais preciso. No entanto parece que, necessitados de novidades, não lhe damos a menor importância. Esse registro, que outrora servia para nos transmitir experiências novas, acaba não servindo para nada, já que, seguindo a mesma lógica, a notícia também envelhece.

No mais, já que até peido de boi pode nos matar, o jeito é pensar melhor se estamos valorizando devidamente cada momento de nossas curtas vidas.

Ainda bem, pois já pensaram em um desses políticos brasileiros com 200 anos? Certamente se tornaria “imperador absoluto ou quem sabe até Deus”. A providência é sábia!

Para não parecer pessimista, seguem meus votos de um FELIZ NATAL.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

EM TRÂNSITO OU EM TRANSE TÔ?


DIA desses tive de ir até o quilômetro 13 da Via Anhanguera, importante estrada de São Paulo, coisa de 30 quilômetros de minha casa. Para a cidade de São Paulo esta não é uma distância muito grande, mas, hoje em dia, com o acúmulo de veículos, está se tornando quase intransponível.
Levei mais de hora e meia pra chegar a meu destino, que, considerando meu caminho ser através de vias expressas, tornou a tarefa uma odisséia digna de Ulisses ou Camões.

Não sei se conseguiremos manter o crescimento esperado para nosso país, sobretudo se baseado, como hoje o é, na produção de automóveis e caminhões. Tenho notícias que dão conta que as principais cidades brasileiras padecem do mesmo problema. Não sei onde vamos parar, quer dizer, não sei como iremos andar.

Nesta “viagem” que fiz pude observar novamente algumas coisas que, apesar de campanhas educativas, cursos de direção defensiva, inteligente etc. não dão o resultado esperado.

Quando o engarrafamento começa a inteligência termina e diversas barbaridades acontecem (Com todo respeito aos bárbaros). As relações ficam tão ruins que é difícil até explicar.

Por exemplo, se um veículo está quebrado só nos cabe desviar do mesmo.
ERRADO, pois existem alguns motoristas que acham ser possível passar por cima dele ou, quem sabe até atravessá-lo igualzinho ao tele transportador do Capitão James Kirk do seriado Jornada nas Estrelas. Param atrás daquele veículo e ficam buzinando freneticamente. Quer dizer: Acham que o cara “está de sacanagem” e, os que estão mais atrás ainda, acompanhando o imbecil e inflando-se de burrice, montam em suas buzinas, também achando que todo mundo que está à sua frente deliberadamente não quer andar. Invariavelmente, quando vão passando pelo veículo avariado, ficam com aquele “ar de idiota”. Quase sempre olham para o outro lado como que dizendo: Não fui eu.

Quando participamos do curso que nos habilita a dirigir, recebemos um livrinho no qual, quase como artigo primeiro, parágrafo único, é mencionado o fato de que precisamos estar atentos a tudo que acontece à nossa volta e eu, “quase perfeito”, procuro praticar esse ensinamento o tempo todo.

Nesse mesmo dia, no percurso de retorno, na marginal do Rio Pinheiros, importante via de São Paulo, o trânsito seguia aos 60 km/h e, a despeito desses filmes que equipam os automóveis estarem cada vez mais escuros, ficando quase impossível a gente ver alguma coisa através deles, observei, dois ou três carros à minha frente, que outro veículo tentava sair de uma baia, dessas que servem como área de escape, caso tenhamos algum problema que nos obrigue a parar.

Vendo a situação difícil daquele motorista, pus a mão esquerda pra fora indicando ao veículo de trás que iria diminuir a velocidade a fim de abrir algum espaço para sua saída. Até aí tudo bem, pois o espaço realmente se abriu e o cara conseguiu retornar ao fluxo normal.

O que se seguiu é que foi inusitado:
O cara da frente me acenou em agradecimento ao que prontamente respondi com outro aceno. Em ato contínuo acenei para o cara de trás, e, uma mulher já idosa que seguia ao meu lado direito acenou para mim, como se me conhecesse.
Já o motorista do veículo que me seguia inesperadamente acenou-me com o dedo em riste, me “mandando fazer algo obsceno”. Preferi não responder.


Quer dizer: Algo de insano acontece com a minoria das pessoas que estão no trânsito de São Paulo, mas que facilmente contamina as outras, levando-nos todos, mais uma vez em movimento de rebanho, para o brejo.
Só não vamos porque estamos literalmente parados no maior estacionamento do mundo.

Qualquer dia desses sairemos com nosso carro da garagem e seguiremos a pé até nosso destino.

Catastroficamente, esse dia está muito próximo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A SEGUNDA VEZ




















TODOS NÓS sem exceção temos lembranças de muitos acontecimentos marcantes em nossas vidas, na maioria das vezes em função da emoção envolvida: O primeiro amor, o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro casamento, o primeiro filho, um “quase acidente fatal”, já que, se fosse fatal, obviamente não estaríamos aqui para descrevê-lo e tantas outras coisas.
No entanto existem acontecimentos que ficam na memória de todos que estão vivos naquela oportunidade, mas que os remetem a lembranças diversas: O que você estava fazendo quando...

- Estourou a segunda guerra mundial,
- O Brasil chegou ao tri campeonato mundial de futebol,
- Aconteceu o ataque às torres gêmeas em NY,
- E o campeão de todos aqui no Brasil: O dia em que o Airton Senna Morreu, entre outros.

O interessante é que essas lembranças não são necessariamente maiores ou menores de acordo com qualquer parâmetro histórico, o que me parece que deveria acontecer. São mais ou menos importantes de acordo com: Surpresa, emoção, satisfação de expectativas ou até, como aconteceu com o tri, quando somos tratados como gado, levados a acreditar que a Pátria pode calçar chuteiras e o futebol pode ser a redenção do país do futuro.

Muitos jovens (espero) que estão lendo este texto, nem se lembram do “11 de Setembro”. Para nós cinquentões parece que foi ontem e está bem vivo em nossa memória, prova de que a consciência da importância do fato, no momento da ocorrência, também faz parte da memorização.

Acho até que outros acontecimentos deveriam fazer parte dessa memória coletiva:
- A morte de Tancredo Neves (Que na época trouxe grande comoção nacional),
- A promulgação da Constituição Brasileira de 1988,
- A queda do Muro de Berlim, que marcou a “vitória dos bons americanos contra os maus soviéticos”,e tanta coisa mais.
Afirmo ainda existirem fatos que, apesar de terem ocorrido recentemente com muita pompa e cobertura maciça da imprensa mundial, já abandonaram inexoravelmente nossas memórias, como é o caso da morte do cantor Michael Jackson.

Dia desses, querendo me livrar do calor que tem assolado minha Sampa, entrei em uma dessas lojas que vendem de quase tudo, a procura de um ventilador de teto para meu quarto de dormir, que há muito tempo vinha namorando ora pela internet, ora pelos anúncios da TV e dos jornais. Tinha em mente um com controle remoto, de maneira que não precisasse passar fios por conduites que parecem ter sido feitos em volta da fiação elétrica, ou pelo menos foram embutidos nas paredes já com os fios dentro deles.

Claro que esse controle remoto viria se juntar a tantos outros (TV, DVD, telefone sem fio, TV a cabo) me poupando do “esforço que seria” me levantar para ligar ou desligar o aparelho.

Como tive de esperar o vendedor ir buscar o ventilador e o controle remoto, que são separados, cabendo-me sua instalação de acordo com um manual que viria junto, fiquei atento à loja e pude constatar que eles vendem de tudo mesmo: De panelas a fogões, de chaves de fenda a serras elétricas etc. Chamou-me a atenção a maioria dos objetos à venda serem elétricos ou voltados para utilização de energia elétrica: Benjamins, tomadas etc.

Ao meu lado um rapaz verificava um barbeador elétrico e o vendedor fazia seu trabalho:
- O preço está ótimo, tem três cabeças que se acomodam à sua face (Sua cara fica igual a bumbum de nenem), é recarregável, de maneira que você possa fazer a barba até no carro (E pode ligar no acendedor de cigarros). Olha que cor “maneira”: prata, a cor da moda. Que cor é seu carro? Preto? Combina perfeitamente.

E seguia o malho quando o vendedor que me atendia chegou com os dois volumes.
Passei no caixa e sai satisfeito com minha aquisição já que finalmente me livraria do calor e ainda de quebra não precisaria mais me levantar de minha cama nem para apagar a luz que, como diz o Ubaldo, na minha idade já está se tornando modalidade olímpica. Estou quase aderindo ao carro automático com direção hidráulica, piloto automático, guia virtual etc.

Naquele dia o calor, parecendo querer justificar minha compra, estava infernal.

Chegando em casa lá pelas seis da tarde me pus na tarefa de instalar meu sonho de consumo. Tinha que ligar um relê que o manual informava estar no ventilador e na prática estava em minhas mãos o que me levou à internet onde soube que outro relê como aquele tinha explodido, quase ateando fogo à casa do igualmente a mim desafortunado ignorante eletro-eletrônico. Isso tornou minha tarefa bem mais difícil e preocupante.

Resolvi fazer algumas gambiarras para fazer testes antes da instalação definitiva utilizando vários fios que haviam sobrado de outra empreitada. Lá pelas dez e tanto eu, emaranhado naquele monte de fios, preparando-me para ligar o aparelho em uma tomada, fui surpreendido por uma falta repentina de luz. Assustado pensei:- Mas como? Se ainda nem liguei esta merda.

Olhando pela janela vi que se tratava de coisa muito maior, pois, até onde minha vista alcançava, estava tudo na mais completa escuridão.

Começamos eu e minha familia a conversar sobre a falta de investimento em infra-estrutura, mal que, independentemente de quem está no poder, sempre acompanhou nosso país e tanta coisa que poderia ter ocorrido para aquele apagão acontecer. Ouvia as rádios falando em falta de energia elétrica em metade do país e ainda em 90% do Paraguai que hoje, em função de sua sociedade em Itaipu, encontra-se visceralmente “ligado a nós brasileiros”.

Lembrei-me também daquele rapaz que, provavelmente convencido pelo excelente vendedor, adquiriu o barbeador. Que susto teria levado se estivesse acabando de ligar o aparelho quando a luz apagou.

Hoje, mais de uma semana depois do ocorrido, com o governo recorrendo até aos esotéricos para tentar descobrir o que aconteceu, fico pensando: Se alguém descobre meu ventilador ou o barbeador do rapaz, é capaz de sermos responsabilizados e, quando alguém for ao nosso proto líder indagá-lo a respeito do assunto certamente receberá como resposta:

-Vê se eu faço barba?

É... O segundo apagão a gente nunca esquece!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

FAZER A DIFERENÇA



Quando resolvi escrever, além de crônicas tinha em mente comparar efemérides, sobretudo históricas, já que pessoas da minha idade (mais de meio século), já podem se considerar agentes históricos.

Uma das mais importantes que agora em 2009 comemora 20 anos é a queda do muro de Berlin, alcunhado de “o muro da vergonha”.

Concordo plenamente com o apelido, já que, por mais que me esforce, quando olho a terra através das tais fotografias citadas por Caetano, não consigo visualizar nenhuma das fronteiras erigidas por nós, seres humanos, a não ser a inútil muralha da China. No entanto não entendo muito bem a comemoração da derrubada daquele, como sendo um marco positivo da humanidade se hoje em dia estamos diante de outro, muito mais alto e intransponível, que é o muro da Faixa de Gaza. Os judeus, que tanto sofreram na segunda guerra e, pela existência daquela imbecilidade, no pós guerra também, hoje cometem o mesmo erro.

Na verdade o muro já vinha sendo demolido a partir da perestroika (reconstrução) e glasnost (abertura) promovida por Mikhail Serguéievich Gorbatchev, ou simplesmente o conhecido Gorbachov, socialista convicto que julgava ser possível uma democracia capitalista associada às idéias de Marx. Mesmo não tendo conseguido levar a cabo seu intento, pois não contava com a resistência dos oligarcas e mafiosos da época, além do povo, como gado que é, achar melhor entrar em uma fila para receber o pão, desde que, no final da fila, exista um pão, Gorbachov com suas idéias propiciou a derrubada da cortina de ferro, ainda que às custas da derrota simbólica para o capitalismo selvagem, que tanto Marx combatia.

Naquele mesmo ano, em campanha à presidência da república de um país do hemisfério sul, um barbudo de fala rude e de difícil compreensão, copiando o já demodê El Comandante Fidel, participava de debate político com um principesco lord, digno das grandes estirpes inglesas, vestido a caráter do simbolismo necessário a uma possível eleição para substituir outro, não menos nobre bigodudo, que tinha levado aquela nação à banca rota, com uma inimaginável inflação de 80% ao mês. O primeiro prometia acabar com a fome do nordeste, o segundo iria caçar os “marajás” (que o primeiro ironizava com um humor duvidoso, dizendo serem maracujás) e o terceiro, na primeira fila, ria-se, esperando sua próxima eleição ao senado da república ou como governador de algum estado de seu oligopólio.

Estava em um de meus passatempos preferidos sentado em meu trono matinal, às voltas com palavras cruzadas quando me deparei com a seguinte definição: O que moveu Tiradentes, com um espaço para cinco letras. Crítico até nas melhores horas pensei: não pode ser “ideal” (e era).
O que fez nosso querido protomártir Joaquim arriscar sua reputação, já que se tratava de um alferes das forças portuguesas (hoje um primeiro tenente) e finalmente perder sua vida, foi o fato de Portugal com o movimento chamado de derrama, exigir que Minas Gerais completassem os 1500 quilos de ouro anuais devidos à coroa. Claro que estava amparado pela elite mineira que, assim que a coisa apertou, fez um acôrdo com o governo central e “tirou o pé”, ou o “c. da seringa”, deixando-o e a seus comandados ao sabor das ondas.

Por isso afirmo: O que move as revoluções, quer do pensar, ou de comportamento, é a necessidade mais rasteira que estiver ao alcance do descontente de plantão.

Pode acontecer dessas necessidades coincidirem com a distribuição de algumas migalhas ou até de riquezas maiores, como aconteceu nos EUA, quando os colonizadores, fugindo de situação muito desfavorável, vinham para se estabelecer, matando a quem quer que fosse: Nativos, desafetos, animais, florestas, sub solo etc., desde que sua fixação fosse proveitosa para suas futuras gerações, que não precisariam continuar em fuga.

A perestroika não foi muito diferente pois já não havia condições da URSS sustentar o império e a conveniente queda do muro apenas dividiu o bolo e a miséria. Ironicamente pode ser que hoje, seguindo as regras da natureza humana, hajam pessoas dos dois lados com saudades daquela fronteira, devidamente caladas pelo sistema vigente.

Talvez os verdadeiros idealistas sejam aqueles cujo o proveito de suas memórias apenas se deem após sua morte como é o caso de Raul Seixas que no dia 12 de Julho daquele ano concedia ao Jô sua última entrevista em vida (existem bichos-grilos que juram conversar com ele até hoje). Falou sobre sua “sociedade alternativa” que, apesar de ser simplesmente uma música, o obrigou a sair do país exilado em 1974. Foi para Nova Yorque sendo lá acolhido por John Lennon. Acabou comendo lixo na rua, a convite de um palhaço. Mas como ele mesmo disse: “Lixo americano é outra coisa”.

Em que pese todos esses personagens, alguns vivos, inegavelmente fazerem parte da história, podemos afirmar que Mikhail, Joaquim e Rauzito nela ficarão, já os outros...

Não é curioso que até um músico, que apesar de muito inteligente sempre foi totalmente desprovido de maiores aspirações tais como derrubada de muros ou mudanças radicais (a não ser a da cerveja para a “mardita”), sobrepuje figuras tão ilustres, antes inimigas vicerais e hoje, em nome do bom relacionamento político, abraçadas e sorridentes?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

TRANSPARÊNCIA


Pelo menos duas vezes por mês vou a uma agência bancária pertencente a um desses conglomerados que veem se formando nos últimos tempos. Aliás não dá pra entender muito bem o objetivo desses monopólios. Acontece que, como às vezes tenho que ficar por muito tempo dentro do estabelecimento, acabo lendo todas as propagandas e prospectos. Numa dessas seções de leitura me deparei com um gráfico complicado, coisa de marqueteiro europeu, onde os caras tentavam dar um significado melhor à sacanagem que é o sistema bancário, com seus juros exorbitantes etc. No final do cartaz que estava afixado na parede bem atrás do gerente estava escrito em letras “caixa alta”: FOCO NO FOCO DO CLIENTE. Certamente uma tradução infeliz de um copista brasileiro, ou até de um baita gozador.

Outro dia ouvi de um amigo que vive viajando pelo mundo que, na maioria dos países europeus, sobretudo nas grandes cidades, as pessoas olham-se como se fossem transparentes, ou seja, dificilmente consegue-se um “olho no olho”. Aí pude entender o "gancho" daquela propaganda, que em nossa língua me pareceu de duplo sentido.

Nesta época em que a palavra transparência está na moda, mais uma vez recorri aos léxicos com o objetivo de entendê-la de uma forma mais abrangente. Claro que intuitivamente já sabia que esta transparência da moda tenta dar sentido às aberrações político-financeiras e desmandos generalizados de que quase todo o poder público faz uso, como se o cargo desse ao afortunado o direito divino de escolher o que é bom ou ruim para a população sem dar satisfação (até rimou!).

Lendo uma reportagem do jornalista Bruno Paes Manso, publicada no Estadão em seu caderno de cidades, novamente apareceu a transparência a que meu amigo se referia, pois tratava-se de uma pequena vila no bairro de Pinheiros junto à qual se cogita construir um estacionamento de cinco pisos. A grita foi geral: Com muita justiça os moradores da pacata e rara vilinha, querem que a incorporadora aborte o empreendimento que vai tirar-lhes o sossêgo. Um desses moradores, arquiteto renomado, responsável por vários projetos de grandes construtoras aqui mesmo em São Paulo, disse: “Somos invisíveis”

A mesma reportagem citava que esta frase foi ouvida em outro despejo, que aconteceu em uma favela da Avenida Roberto Marinho, antiga Águas Espraiadas (O metro linear de via pública mais caro de que se tem notícia: 50 mil reais). Um morador desolado e sem ter para onde ir usou a mesma “transparência” que os deixava “invisíveis”, aos olhos das grandes corporações.

O despejo dessa favela aconteceu em minutos, com grande estardalhaço e derrubada impiedosa das moradias que antes se encontravam à beira de um riacho sem muita importância. Agora perto de uma grande rede de televisão, à beira de uma avenida que pretende se tornar importante, pois, começando numa ponte que serve de cenário para essa mesma emissora, até agora está sub utilizada. Já estão desapropriando outras favelas, mais acima do mesmo riacho, e ela finalmente será útil nesta São Paulo de trânsito caótico.

Em sua reportagem, Bruno, não sei se de propósito quando mencionou o despejo da avenida, me levou a comparar as duas situações.

Atentando para os moradores daquela vilinha que são pessoas bem mais abastadas e informadas do que aqueles desafortunados da avenida, em que pese a necessidade de grandes empreendimentos, passo a duvidar se os primeiros serão prejudicados, já que varios processos estão sendo impetrados contestando a construção do estacionamento, com direito inclusive a reportagem de página inteira no Estadão.

O artigo primeiro de nossa constituição diz que todos somos iguais perante a lei, mas como é sobejamente conhecido “alguns são mais iguais”.

Apesar de não constarem em nenhuma constuituição do mundo como direitos ou deveres, acabo de descobrir que “transparência” e “invisibilidade” são instituições informais convenientemente aplicadas de acordo com a posição socio econômica, interesses corporativos e do poder e quem sabe até pela “cor dos olhos”.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A MARMITA NOSSA DE CADA DIA

Sempre que me decido por um assunto, sobretudo quando posso sintetizá-lo em apenas uma palavra e não querendo perder a oportunidade de aprender, faço algumas pesquisas procurando saber o significado dessa palavra, sua etimologia, recorrendo até aos dicionários informais onde as pessoas postam significados às vezes inusitados. No caso de “marmita” achei os significados abaixo:

Dicionário informal:
-Mulher que a pessoa (marmiteiro) corteja, elogia e flerta (verbo "marmitar"), que pode ou não desencaminhar em uma relação, dependendo do grau de insistência. Há aqueles que marmitam, marmitam mas não pegam nada, que são os vinagretes (só acompanham).
-Refeição feita em/ por alguém de casa, acondicionada em um recipiente plástico para ser consumida mais tarde.

Dicionário Houaiss:
-panela de cobre ou de outro metal, provida de tampa
-recipiente de lata em que, nos quartéis, se serve rancho aos soldados
-conjunto de recipientes dispostos um sobre outro, seguros por uma armação na forma de alça, nos quais se transporta comida; vianda
-Derivação: por extensão de sentido.
-recipiente em que se transporta a própria refeição para o local de trabalho
-Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
-barriga, ventre
-Uso: informal.
-meretriz que sustenta um rufião
-Rubrica: fotografia.
-pequeno refletor de 1.000 W, com que se produz efeitos de luz de fundo

Quando cogitei falar da marmita, pensava naquela que, quando ainda trabalhava como empregado eu abria sem surpresa, pois na maioria das vezes já sabia o que ela continha, mas, em época de “vacas magras”, indignava-me justificando a repetição da mistura do dia anterior.

Nunca pensei que pudesse estar comendo a mulher citada no primeiro verbete ou o refletor do último. Sequer pensei que pudesse um dia conjugar o verbo marmitar, mas a nossa língua é mesmo surpreendente.

Na verdade esta idéia surgiu de uma conversa regada a cerveja e boas risadas, que tive com alguns amigos um dia desses. Lá relembrávamos nossas idas e vindas com o “tijolo”, nome muito utilizado na época como sinônimo de marmita, em baixo do braço ou dentro de uma bolsa a tiracolo chamada capanga ou até, para os mais envergonhados, em uma valise 007, última moda nos anos 70. O engraçado nisso é que todos sabiam que aquele sujeito metido a James Bond, pela qualidade da valise ou pelo próprio tipo, andando em um coletivo lotado, só podia estar carregando uma marmita. E ainda, quando a sobremesa fosse uma banana ou um caqui, pelo espaço que sobrava na mala, o cara iria comer uma musse da fruta.

Já soube até de casos em que o fulano levava sua marmita em uma caixa disfarçada de bíblia. Nesse caso todos pensavam que o cara era religioso, mas a única religião que ele professava era a que mata a fome da carne.

O arroz com feijão sempre foi a comida nacional brasileira e, via de regra, era o que tínhamos em nossa marmita, quase sempre acompanhada de um ou dois ovos, ou até, em épocas melhores, de um bife. Às vezes, na segunda-feira, tínhamos a sorte de termos nossa refeição garantida pela sobra da macarronada de domingo quando poderíamos até saborear uma ou duas bracholas ou almôndegas.

Por outro lado aquela macarronada vinha sempre “unidos venceremos”, quando temos que cortar o macarrão como se fosse um pedaço de pão molhado já que, depois de quase 24 horas, vários solavancos recebidos dentro do ônibus e um requentamento, ele se juntava molecularmente, de maneira que esse era a único jeito de ingeri-lo.

Nem sei se hoje com o advento do forno de microondas isso ainda ocorre, mas outro acontecimento muito freqüente era as marmitas encherem-se de água nos esquentadores a banho-maria. Acontecia assim: Você chegava mais cedo e colocava a sua em um marmiteiro com um pouco d’água. Como em seguida iam colocando outras marmitas, o nível da água ia subindo até chegar à borda das primeiras (já que, se o cara percebesse que o nivel iria atingir a sua ele improvisava algo para elevá-la), o que acabava transformando sua refeição em uma inesperada sopa. Diante disso muitas vezes só nos cabia escorrer a parte líquida e comer a parte sólida.

Tantas são as histórias sobre a marmita, mas vou lembrar apenas duas:
-Um de meus irmãos, que não declinarei o sobrenome, apenas o nome fictício de Edson, pegava rotineiramente uma carona para o trabalho na motocicleta de seu cunhado.
Num daqueles dias onde tudo está meio errado, saindo de casa atrasados, seu cunhado, grande piloto, fazendo as típicas manobras em zigue e zague com o objetivo de diminuir o tempo do percurso, provocou a queda da bolsa a tiracolo em que meu irmão carregava a marmita. Resultado: A bolsa ficou no meio do asfalto sendo esmagada por um ônibus que vinha logo em seguida. A carteira profissional que se encontrava na mesma bolsa segue até hoje como testemunha, com suas manchas de feijão.
-Esta outra não chega a ser uma história apenas uma constatação, já que soube que todos nós marmiteiros, sempre comíamos a nossa de olho nas dos outros, talvez na esperança de que o cheiro de outro tempero ou a visão de outra mistura, melhorasse nossa refeição. Chegávamos pra nosso almoço com a fome de ante ontem e abríamos nossa marmita com muita velocidade, o que provocava às vezes uma surpresa: Cadê a mistura? Até pensávamos que tínhamos sido roubados o que também não era incomum. Mas era engraçado quando descobríamos que a velocidade da abertura tinha colado o “zoiudu” na tampa.

Pena que alguns políticos, antigos carregadores de marmita, que hoje grassam pelos corredores do poder, pouco ou nada se lembrem dela: Da camaradagem e da honestidade intrínseca já que, quem carrega marmita, faz de tudo pra disfarçar, mas não consegue. Do sabor que a fome dá aos pratos mais simples.

Quem sabe essa lembrança pudesse aplacar a sede de poder que se instala em seus cérebros assim que conseguem o cargo público e os trouxesse mais perto das aspirações menores que tanto afligem seus eleitores. Sim, pois a maioria das pessoas quer apenas a dignidade de uma vida simples, ainda que sempre saboreando a saudosa marmita.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

REJUVENECIMENTO POLÍTICO


NÃO ENTENDAM COMO RECLAMAÇÃO, pois durante quase toda a minha vida me intitulei: Apotílico, Ateu, Areligioso, Azarado e últimamente teem-me chamado de Anormal, certamente pelo tamanho de meu nariz ou minha barriga, que, como disse o Ubaldo, tem tornado um simples “amarrar calçados” em uma modalidade olímpica. Entendam sim como MEA CULPA, termo que, desde os sanguinários Caesares, inspiradores dos conquistadores, caudilhos e ditadores modernos, quando ao pé da eternidade é utilizado para justificar todas as mazelas e desumanidades por eles praticadas. Não querendo esperar estar tão perto da vida eterna para tentar me redimir e sem querer aconselhar, mas já aconselhando, espero que os mais jovens leiam e pensem no que estou dizendo.

Como últimamente tenho tido tempo e saco para não fugir da informação, muito ajudado por esta maravilha que é a internet, que já julgo coisa de Deus, sim pois se a natividade de Jesus tivesse sido informada pela net, certamente Ele seria unanimidade, mas seu pai, que não é burro (já que toda unanimidade é burra), deixou passar 2000 anos para permitir sua implantação, dando-lhe assim a maior qualidade humana, legada diretamente a Adão e Eva: o livre arbítrio.

No entanto isto acaba sendo um tiro no pé, já que somente fazemos uso desse arbítrio para fugirmos de nossas responsabilidades. Não deveríamos portanto reclamar daqueles que, não acreditando nessa fuga, abraçam mais e mais responsabilidades, frequentemente “dando a cara a tapa”. Evidentemente acabam ficando com as divisões de tarefas e benesses, travestidas de direitos e obrigações. Naturalmente muito mais direitos para eles e muito mais obrigações para os demais, que tem que contentar-se com querelas.

Frequentemente vemos nossos líderes, eleitos por nós, oferecendo bolsa isso, bolsa aquilo, falando em saúde de graça, escola de graça, segurança de graça e tanta coisa de graça que até parece graça mesmo. Não contentes, quando temos oportunidade, ainda tentamos dar uma chegada a um deles pedindo mais alguma coisa “Sacumé”: Ser amigo de político bem sucedido nos coloca perto do poder, consequentemente “mais igual perante a lei” do que os outros. Acho até que a única diferença entre nós e eles, os políticos, é o posicionamento geográfico (Eles lá e nós aqui, com as mesmas aspirações e megalomanias)

Outra coisa engraçada é que, via de regra, nenhum desses eleitos que tanto dão de graça o que não lhes pertence, utilizam-se desses serviços e doações, senão vejamos: Já viram político usar o serviço público de saúde, excetuando-se é claro, os de referência ( Incor etc. )? E recebendo bolsa familia? Formando seus filhos aqui no Brasil em escolas públicas? (Claro que, depois de fazerem os melhores colégios e cursinhos pré vestibulares pagos, às vezes eles acabam estudando no ITA, na USP, ou nas maiores universidades federais, aliás aí se encontra uma das perversões do ensino público nacional: rico estuda até o colegial em escola particular e daí pra frente em escola pública e pobre faz o caminho inverso: primeiro estuda em escola pública e depois nas Unibandidos da vida, o que só contribui para a piorar o sistema). E segurança: Os caras, além de morarem em condomínios palacianos, andam com um monte de seguranças particulares. Pra que polícia?

Hoje participo de um clube que passa por algumas dificuldades. A maior delas é conseguirmos colaboradores entre os mais jovens. Como eu, eles não querem se envolver em questões para as quais não veem solução de curto prazo. Provavelmente, também como eu, todos tenham as soluções na ponta da língua, mas todas passam por matar alguém, jogar uma bomba atômica, recomeçar do zero e tanta coisa mais que, hoje, querendo apenas prolongar o máximo possível minha vida útil, vejo a inutilidade dessas bravatas sem sentido, a não ser tirar o nosso c. da seringa.

Dentre todas as soluções propostas e utilizadas pela sociedade, moderna ou não, a política é a única maneira de levarmos adiante nossa aspiração de nos perpetuarmos no topo da cadeia biológica de nosso planeta. A organização social passa por ela. Ainda que nunca contemple a todos, quando a utilizamos e, mesmo inconcientemente o fazemos diariamente, ela é a única mantenedora de nossas relações.

Quem ainda não se deparou com reuniões de condomínio, pais e mestres, sociedades de amigos do bairro, vazias ou com discussões sem palta, que não levam a nada; ruas em que vizinhos nunca se falam ou varrem as suas calçadas até chegar à divisa seguinte, lá deixando o lixo acumulado que seguirá até o último vizinho do quarteirão que terá que utilizar um “trator” para removê-lo?

Um dos preceitos que regem a política é que o direito de um termina onde começa o do outro, mas sem discussão e divisão de tarefas, esses direitos e obrigações ficam meio à deriva, sobretudo por termos o péssimo “hábito humano” de compararmos nossas virtudes com os defeitos dos outros, situação em que ficamos imbatíveis.

A participação está no dia a dia, desde não deixarmos um idoso atravessar uma rua sem ajudá-lo, até nos preocuparmos com o horário do caminhão recolhedor de lixo, de maneira a não deixarmos nosso lixo exposto por muito tempo.

A juventude tem que mudar alguma coisa, ingressando na política e politizando-se a partir do primeiro nível que é dizer bom dia a seu vizinho, conhecê-lo, saber de suas aspirações, suas reclamações etc., sob o risco de, quando forem mais velhos, estarem na mesma situação em que eu e muitos amigos meus estamos hoje: “Reclamando”

Jovens, não façam como nós: Ficando alienados em nome da sobrevivência.

A sobrevivência hoje permite que muitos de vocês possam ingressar na política de maneira a alterar este estado de coisas que há tanto tempo nos incomoda.

Arregacem as mangas e não permitam que essas “lideranças coronelísticas”, tão comuns em nosso quadro político, os acompanhem e a seus descendentes “AD ETERNUM”

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

SUCESSO = FELICIDADE OU FELICIDADE = SUCESSO



Sou músico amador e, por essas coisas da vida acabei influindo e ensinando as bases de alguns instrumentos para meus filhos. Tínhamos até um grupo musical, mas em dado momento me jubilaram e formaram uma banda de rock, liderada pelo mais velho e agregada de mais dois amigos, que frequentavam a mesma escola onde eles fizeram a segunda parte do primeiro grau.

Quando nossos filhos nascem a gente nem pensa direito no que eles serão, apesar de alguns de nós tentar fazer um planejamento que julgamos infalível, passando a fazer uma poupança que lhes servirá para a universidade, garantindo assim seu sucesso e consequente felicidade.

Um pouco por relapsividade assumida e muito por nunca ter acreditado que a gente detenha a fórmula para o sucesso de quem quer que seja, inclusive o nosso, caso contrário não divulgaríamos nem para nossos filhos, sob o risco de eles espalharem e a gente começar a fazer água, já que todos teriam acesso à citada fórmula, eu particularmente nunca dei muita atenção a essa coisa de planejamento. No entanto sempre fiquei atento a tudo o que estava acontecendo e, no que pude influenciar, procurei sempre dar o melhor de mim.

Lendo uma entrevista do Roberto Schyniashiki, concedida à revista “Isto É”, comecei a pensar em sucesso e felicidade. Se um incorre necessariamente no outro. Tanto na minha vida profissional quando ainda era empregado como agora, quando a banda de meus filhos procura o famigerado sucesso, se depara com tantos percalços que, volta e meia, chega à beira da dissolução do grupo: Falta dinheiro, prestígio, oportunidade e tanta coisa mais que o “fulano fica minado”, sem saber se continua ou pára definitivamente, ou até procura outro caminho. Enfim tudo parecendo mostrar que o cara não merece o buscado sucesso.

Acontece que, no caso da banda de meus filhos, considerando onde chega a maioria das pessoas, em qualquer área de atuação, artística ou não, esse sucesso já passou muito de qualquer expectativa que pudesse ter sido feita quando da fundação da banda. Mas como todos buscamos a perfeição, o melhor carro, a melhor geladeira, ser o mais cheiroso, que não peida nunca, isto fica relegado a um plano perverso e desestimulante, que pode nos levar terminantemente ao insucesso, aí sim incorrendo na infelicidade.

Posso garantir que tocar um instrumento (bem ou mal, tanto faz) e cantarmos, (remuneradamente ou não), dá um prazer indescritível. Não cansa, às vezes enche mas a gente tira de letra e, ao final de horas de cantoria, a gente, exausto, está feliz, não tem depressão, dorme como um bebê e sente o gosto do sucesso verdadeiro: aquele que não nos custou nada nem a quem nos aplaudiu.

Acredito que o que está faltando pra nós humanos é nos contentarmos com o sucesso que alcançamos, quando alcançamos, pois, como quase tudo, ele, apesar de efêmero, dá muito mais prazer do que o que possamos comprar: Um carro por exemplo, é novo até sair da loja. Mais efêmero que isso...

Não sou contra o consumo, até porque dependo dele, mas não concordo em balizarmos nossas vidas nessas aquisições, de maneira que nos esqueçamos dos verdadeiros valores que nos empurram para frente, não como seres sociais simplesmente, mas seres dotados de espírito. Muito mais do que aquele espírito que os religiosos cultuam que tem vida eterna “até porque pra sempre é um saco”, mas o espírito que sentimos todos os dias quando acordamos e nos sabemos vivos, tendo mais uma oportunidade de nos redimir, tornando-nos melhores do que éramos no dia anterior.

Esse espírito, por mais ateu ou atôa que sejamos, está latente, independentemente de nossa condição social, se estamos doentes, se somos menos favorecidos, gays, putas, bêbados, bandidos, políticos ( bandidos políticos e políticos bandidos também ).

Para ganharmos na loteria basta fazer um joguinho e ficar esperando: Até o bilhete correr a gente ganha um montão de vêzes, soluciona os problemas de todos os amigos e familiares, ri de tudo e ainda, de quebra, faz outros joguinhos, já que estamos com sorte, e damos varias voltas ao mundo. Tudo isso depende apenas de como estamos espiritualmente.

Sendo assim o sucesso sempre estará garantido e nossa felicidade também.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

DEUS EXISTE



PHILÓSOPHO QUE SOU, tenho pensado muito na existência de Deus, talvez pela proximidade cada vez maior da eternidade ou mesmo por observar a miséria em torno do mundo que acaba nos deixando em dúvida sobre a existência de um ser caridoso, onipotente e onipresente, cujo caráter seja tão volúvel a ponto de, caso não se acredite nele, deixar seres humanos, no melhor estilo ditatorial e caudilhesco, à deriva.

Por outro lado, já que nós, eleitos por Ele para sermos os legítimos representantes dos trópicos, concordamos quase unamimente, em que pese uma ou outra tragédia, que Deus só pode ser brasileiro, comecei a pensar em sua nacionalidade:

- Já que nas notas de dolar existe a expressão: Em Deus nós confiamos e os americanos, pelo menos os ricos, parecem se sentir os donos do mundo, poderia achar que Ele é yankee, mas lembrei que essa dominação tem sido cíclica e, só nos últimos 500 anos, foi exercida por Espanha, Portugal, Inglaterra, França etc. (E até uma beiradinha pela Alemanha ). Certamente em breve haverá outro povo qualquer com esta atribuição.

-Quem manda de fato hoje em dia são os Judeus que, ao redor do planeta tem quase a totalidade do monopólio das comunicações e estão metidos em tudo quanto é negócio. Além de se manterem como um “povo uno”, mantém empresários e políticos em todas as escalas de poder, pois são Israelitas por opção e multi nacionais por nascimento. Assim pode ser que Deus seja mesmo judeu e Jesus Cristo, que os católicos acreditam ser filho Dele, não é o messias, que segundo a crença judaica, ainda virá para nos redimir. Quando esse enviado aparecer, como é o costume humano, certamente muita gente morrerá na guerra dos que acreditarem contra os demais.

-Cerca de 2 dos quase 7 bilhões de viventes em nosso planeta acredita que Deus seja Alá, que concedeu ao profeta Maomé ( 570-632 DC ) os ensinamentos da verdade absoluta, sendo que muitas dessas pessoas falam árabe, em diversos dialetos.

Poderiam então êles, os muçulmanos, estarem com a razão e Alá ser o verdadeiro Deus.
Mas Alá, como um deus medieval, não ouve nem argumenta apenas ordena. O resultado são constantes guerras, insurgências e desrespeitos aos direitos fundamentais que tanto nos custaram, além de extremismos que aniquilam impiedosa e indiscriminadamente pessoas inocentes, que exigem bem menos de Deus.

-Volta e meia me deparo com a televisão ligada ao acaso num canal em que algum pastor evangélico ( antigamente chamados genericamente de protestantes ou crentes ) dita aos berros sua inabalável fé, ou mesmo troco de canal a procura de algum outro para comparar as doutrinas e pregações. Acabo ficando pasmo com a cara-de-pau de boa parte deles quando apresentam milagres ao vivo: Uma mulher que supostamente estava há anos atrelada a uma cadeira de rodas de repente sai pulando e o pastor esfusiantemente diz: ¬Já dá pra concorrer no salto triplo!! Noutra igreja aparece um cego de nascença que, depois de devidamente abençoado pelo pastor, “começa a ler a biblia” ( O cara nem se tocou que, se era cego, não poderia saber ler ).

Apesar da quantidade de seguidores ser cada vez maior e, somando todas as facções, já ser um número expressivo, comparável às maiores religiões, declino da idéia de que Deus seja evangélico, mesmo concordando que esse Deus, apesar de usurário, é um ser presente e preocupado mais com a vida e felicidade de seus fieis, enquanto eles estão vivos.

Outra coisa que eu não sabia é que a biblia evangélica paga direitos autorais a um cidadão pela sua tradução do hebraico, que os doou à Igreja Batista (não sei qual delas).

Soube também que a igreja católica paga esses direitos diretamente ao Vaticano. Dessa maneira o “DE GRAÇA RECEBESTES, DE GRAÇA DAI (MT 10:8)”, ficou no esquecimento.

-Poderia divagar ainda pelas diversas fés asiáticas ou até pelas interplanetárias, apelando para o Dr. Spok ou até o Dart, dos cavaleiros Jedai, mas acho que seria inútil. Sempre me depararia com a vil condição humana que, invariavelmente manipula e domina os povos atravéz das religiões, a ponto de, lembrando aquele caso do Jim Jones que para o Chico Anisio virou Tim Tones, levou quase mil pessoas ao suicídio coletivo mas, até hoje, seu corpo e de sua esposa, nunca foram encontrados.

Para fechar assunto tão polêmico só mesmo com uma anedota que costumo contar para exemplificar a conveniência das religiões:

Em certo hospital do Rio de Janeiro (é de propósito) um rapaz comprovadamente morreu e, depois de declarado morto, milagrosamente ressucitou. Aquilo foi motivo de diversas manchetes em todos os jornais do mundo, a ponto desse rapaz tornar-se celebridade digna de Big Brother. Algum tempo depois, ainda no auge da fama, foi brutalmente raptado por uns grandalhões que o levaram imediatamente para o Vaticano, à presença de sumo pontífice ( Para nosso presidente: Sumo patife ). Este lhe perguntou:

¬Meu filho... Deus existe? Depois de pensar um instante o rapaz respondeu:
¬Santidade, é uma honra conhecê-lo. Sou católico fervoroso mas... não... não existe.
¬Não diga isto meu filho. Para guardar seu segredo nós lhe daremos um milhão de dólares.

Sai da Capela Cistina todo contente e, nem bem põe os pés na calçada, outros dois brutamontes o dominam e o levam para o Kremlin (ainda era o tempo da guerra fria). Na época o chefe da temível KGB o colocou em uma sala escura e começou o interrogatório:
¬Camarada... Deus existe?
¬Olha aqui... eu sou socialista... li Marx inteirinho... mas... existe.
¬Não pode ser. E nossa doutrina? – Daremos um milhão de dólares americanos para que você guarde segredo. – Fechado o acordo ele se pôs a caminho.

De novo na rua, de novo dois brutamontes etc. o levam para a Casa Branca.
Novo interrogatório:
¬Deus... Afinal existe ou não existe?
¬Existe – responde.
¬Não falamos. Os soviéticos estão errados e nós certos.
¬Mas – Interpõe o gaiato – È negro.

A conclusão a que chego é a mesma a que chegou Nelson Rodrigues:

SOU ATEU – GRAÇAS A DEUS

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

DESPEDIDAS

Quando eu era bem pequeno, antes dos dez anos de idade, morei em dois bairros da capital paulista. Na primeira mudança que me lembro, aos seis ou sete anos, tudo aconteceu como se fosse uma festa, sobretudo porque morávamos em uma pequena edícula, que constava de dois minúsculos cômodos onde, quando meu pai adquiriu nosso primeiro fogão a gaz, tudo ficou muito apertado, o que dá uma idéia do tamanho da residência. Outro fato que não deixou saudades do lugar era que minha avó materna tinha falecido quando ainda morávamos lá e seu velório, o primeiro do qual participei, tinha sido naquela pequena casa. Para completar tínhamos uma vizinha que descontava suas frustrações destruindo as plantas que minha mãe colocala em cima do muro que dividia as duas casas. As brigas eram tão constantes que o nome dessa mulher virou sinônimo de pessoa ruim durante toda a nossa vida, inclusive de meus irmãos mais novos que sequer conheceram-na ou moraram naquela casa. Até hoje tudo que nos fazem de ruim é “coisa da Margarida”, que era seu nome.

Já a segunda mudança foi muito dura, pois nossa moradia, que era um apartamento bem perto do centro comercial de Santo Amaro, um bairro da Zona Sul de São Paulo, apesar de ser alugada, era como se fosse nossa uma vez que lá chegamos inaugurando o prédio. Dessa maneira nos sentíamos muito seguros naquele lugar e, para as crianças de uma maneria geral, esse tipo de segurança é muito importante.
No meu caso a sensação foi de perda total: Amigos, escola, o primeiro amor, a continuidade do ano letivo, as brincadeiras à beira do Rio Pinheiros que, apesar de já muito poluído àquela época, servía-nos de área de lazer sem fronteiras, tão características hoje em dia.
Eu e meus amigos saíamos pela manhã, ou logo depois de chegarmos da escola, e só voltávamos pra casa já com noite feita. Nossas mães ralhavam apenas por não termos tomado banho ou nos atrazado para o jantar. Não me lembro de ocasião em que minha segurança tenha sido questionada. Quanta diferença!!

Uma curiosidade é que voltamos praticamente para o mesmo bairro de onde havíamos saído em nossa primeira mudança, mas, pra mim, e hoje sei que também para minha mãe e meus irmãos, foi uma das maiores tristezas e frustrações de nossas vidas.

Conciente das distâncias que separam aqueles lugares: dez, doze quilômetros, hoje sei que não precisaria ser tão dramático assim. No entanto sempre que passo pelo lugar sinto-me nostálgico com a mesma sensação que tive na ocasião.

Recentemente recebi mensagem eletrônica na qual enviaram-me diversas fotos de nosso planeta tiradas lá da extratosfera.
Podemos ver nessas fotografias tão bem reportadas por Caetano Veloso em sua obra “Terra”, países e mares a um só olhar e, como disse Toquinho “de uma América à outra irmos em apenas um segundo”. Elas mostram-nos, em nossa "pequenês humana", que a despedida pode ser triste, independentemente da distância, que sempre será relativa.
Se parármos em uma estação rodoviária podemos, sem muito esforço observar essa tristeza a todo momento:
Um pai deixa os filhos para ir trabalhar em outra cidade, ou uma avó que veio visitar os filhos e netos e está de volta pra casa, por achar-se mais próxima da eternidade que da vida, segue com a sensação de que nunca mais vai vê-los; um filho sai para trabalhar ou estudar em outra cidade e, nunca tendo deixado sua casa, a não ser em alguma viagem de recreio, não sabe se voltará, pois, com o aumento da disputa por empregos, a tendência é cada vez mais nos tornarmos nômades. Enfim despedidas são sempre suscetíveis de serem as últimas e a distância apenas exacerba essa sensação.

Afortunadamente, a despeito de meus “ais”, eu nasci e me criei nesta cidade de São Paulo, tendo saído daqui em pouquíssimas ocasiões, a maioria delas a passeio e pouco sei de grandes despedidas. Meu pai no entanto era de Salvador, capital baiana de tantas histórias e folclores. De lá saiu e veio aportar nesta cidade que, já naquela época, 1952, era muito grande e agitada. Aqui chegou praticamente com a roupa do corpo.
Juntamente com minha mãe, que encontrou por aqui egressa do interior de São Paulo, filha de imigrantes italianos também fugidos da miséria provocada pela primeira guerra mundial, ela mesma fugida do trabalho semi-escravo ao qual ela, meus tios e meus avós foram submetidos em plantações de café, formou familia criando sete filhos.

Quantas despedidas, a maioria provocada pela miséria humana, poderíamos enumerar.

Um dia desses eu ouvi de um amigo que nada é mais triste do que sair de um porto, a bordo de um navio, para provavelmente nunca mais voltar.
Ele me disse que saiu de sua terra aos vinte e tantos anos e viu o lugar onde nasceu e que tanto amava, ficando para tráz, bem devagar, quase como um devaneio.
Entre milhares de pessoas, seus familiares agitavam lenços brancos, previamente preparados e ensaiados, num triste balé, na vã e desesperada tentativa de que ele pudesse vê-los uma última vêz, no meio daquele mar de acenos.
Trabalhando com turismo, retornou em diversas ocasiões mas essa lembrança ficou marcada de tal maneira que ele me garante: Se existir alma, é lá que ela está.

A característica humana que mais nos difere dos outros animais, colocando-nos no topo da cadeia evolutiva, além da inteligência (inteligência?) é o nomadismo associado à nossa grande adaptabilidade.

No entanto convenhamos: É duro ir embora.

sábado, 19 de setembro de 2009

MEGA SENA - UM ETERNO QUASE

OUTRO DIA ouvi alguém dizendo: Isso é língua de mosquito. Curioso que sou, assim que pude, a despeito de lembrar-me das lições de botânica e zoologia que tive na primeira série do ginásio, ministradas por um professor sizudo que informava que os mosquitos não têm bôca e sim PROSBÓCIDE, sim com essa ênfase, sobretudo por ser uma proparoxítona que, em sua essência já tem ênfase; corri ao computador, essa maravilha que tenho oportunidade de conhecer e utilizar e que nos coloca em contato com quase todos os registros de informação humana (que um dia certamente terá a totalidade), e fui relembrar como a “bôca” dos mosquitos funcionam. Claro que novamente me deparei com a prosbócide que, mesmo tendo passado tantos anos, ainda é a única coisa que mosquito tem por onde comer e não consta que tenha língua.

Claro que a curiosidade foi o que me moveu à pesquisa, pois sabemos que aquele dito é uma ironia, referindo-se a alguma coisa que não existe ou que é difícil de se encontrar. Aí então comecei a esmiuçar outros ditos, que utilizamos com a mesma finalidade: Cabeça de bacalhau – Realmente nunca vi uma. Claro que, neste caso, a gente sabe que, do infeliz peixe que caiu nas rêdes da humanidade faminta, quando foi salgado, foi-lhe retirada a cabeça, talvez pela vergonha de continuar fitando aqueles olhos-de-peixe-morto que nos induzem a nos tornarmos vegetarianos. Aliás acho que todos nós, se tivermos tempo, um dia pararemos de beber, de fumar, teremos câncer, seremos vegetarianos, homossexuais e religiosos (não necessariamente nessa ordem).Outra informação: O consumo deste peixe tal como hoje ( salgado ), acontece desde 2400 AC, na Mesopotâmia, Talvez também desde lá se utilize o dito.

Mais facil a vaca cuspir – Acontece que a vaca baba mas não cospe e dizemos isso como uma descompustura à bichinha, como se fôssemos detentores das boas maneiras universais. O jeito era chegar um ET melecoso, mas superdotado de inteligência superior, para finalmente, quem sabe, ela, a vaca, obter seu lugar de direito e estirpe no mundo animal. Mosca branca - A mosca-branca é uma das pragas mais conhecidas no mundo e está presente em praticamente todas as regiões agrícolas. Tecnicamente não se trata de uma mosca, pois é um hemíptero, mesma ordem dos pulgões e percevejos, e não díptero que é a ordem das moscas comuns. Uma regra prática para não confundir é o número de asas: hemípteros têm quatro asas enquanto que dípteros têm duas. Ainda utilizamos o termo para identificar coisas quase impossíveis, no entanto podemos ver que já não são tão raras assim. Poderíamos utilizar o dito para os políticos desonestos. Pelo menos antigamente achávamos que eles eram minoria e hoje...

Achar pelo em ovo – Sempre que tentamos impedir ou atrapalhar ações ou iniciativas, estamos caçando os famosos pelos, é dito muito popular em nossos parlamentos onde os congressistas procuram impedir votações que não lhes interessem ou vetem-lhes vantagens e outros quetais. Este dito tem seu correspondente em inglês: “always nitpicking”, talvez pelos parlamentos serem bem parecidos.

Gostaria de incluir um que ainda não foi colocado com o mesmo objetivo mas, tirando uma ou duas tragédias e um ou outro infortúnio, pergunto: Quem conhece algum ganhador da Mega Sena? Ou ainda alguém que conhece alguém que conhece...?

Os organizadores, aí entenda-se o governo, dizem que os nomes não são divulgados por questões de segurança, privacidade etc., mas façamos alguns exercícios de aritmética simples:

-Digamos que cada um de nós, maiores de dezoito anos, conheçamos 100 pessoas ( me parece
razoável e subestimado como média ).
-Cortemos ainda, para efeito de cálculo, este número pela metade, supondo que varios de nós conheçamos coincidentemente as mesmas pessoas.
-Teremos 50 pessoas que conhecemos e que nossos amigos não conhecem e assim sucessivamente os amigos dos amigos etc.
-Entre 50 pessoas me parece impossível manter uma notícia de ganho na mega sena em segredo. Mas, como canja ainda dou apenas 10 por cento dos sorteios como suscetíveis de vazamento dessas informações. Portanto, se estamos no concurso número (aproximado) 1500, seriam 150 chances de sabermos de algo ou alguém, segundo a conta final abaixo.

Considerando ainda que não é difícil sabermos pelo boca a boca uma notícia que uma quinta pessoa contou para um amigo que contou para o amigo... até chegar em nós, sobretudo uma notícia desse porte. – Como exemplo dou tantas tragédias e mortes violentas que infelizmente acontecem diariamente entre nós e que ficamos sabendo dessa maneira. Ou mesmo outras amenidades como um jogador de futebol, filho de algum amigo do amigo, que está no exterior etc.
Teríamos aí o número 50 elevado à quinta potência multiplicado por 150, como a chance de termos notícia de um dos ganhadores desse jogo. Se algum matemático de plantão ler esse artigo, espero que me corrija, desde que não discutamos as subjetividades aventadas acima.

A conta chegou a 312.500.000 X 150 – (Vocês mesmos façam a conta).

Portanto acho mais fácil a gente conhecer alguém que conhece alguém... que ganhou na mega, do que propriamente ganhar a bolada, pois, segundo o verso do volante de apostas, com um jogo de seis números, a chance é de 1/50.000.000.

Mais uma curiosidade: Praticamente todos nós já cercamos, cercamos, e quase ganhamos!

Como seria o dito:

MAIS FACIL ENCONTRAR O GANHADOR DA MEGA

O QUE? ACHOU O MEGA MILIONÁRIO?

MEGA SENA=MEGA TROUXA

MAIS FACIL ENCONTRAR O AMIGO DO AMIGO DO AMIGO DO GANHADOR DA MEGA É...Também acho todos eles muito compridos. Aceito sugestões e façamos o seguinte:
Continuamos a jogar e não se fala mais nisso, afinal é um jogo insuspeito.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

BRECHÓ - A SOLUÇÃO DO MUNDO

UM DIA desses tive que ir até a Vila Mariana e, por atualmente ser quase impossível estacionarmos nossos carros nas ruas de São Paulo, principalmente em bairros perto do centro da cidade, tive que procurar um local um tanto longe do meu destino.
Por conta disso tive que caminhar por mais de um quilômetro. Pude então antever o calvário pelo qual passaremos quando ficarmos mais velhos e trôpegos, ainda que não tenhamos nenhum problema mais grave, além da velhice, é claro: As calçadas de nossa cidade estão muito erodidas (eu disse erodidas). Parece até que os prefeitos e outras autoridades competentes, além dos proprietários dos imóveis, corresponsáveis por essas manutenções, teimam em não cumprir, mais que a lei, uma obrigação social, como se todos só andássemos de carro.

Caminhando pude constatar outra observação que já tinha feito em varios bairros da capital, como Pinheiros, Moóca, Santo Amaro, Penha, Brás etc.: Quase todas as casas situadas em avenidas ou ruas um pouco mais movimentadas estão transformadas em pequenos comércios. Por vezes esses minúsculos estabelecimentos ocupam apenas as antigas garagens, mas , em alguns casos, utilizam todas as dependências do imóvel.
Afirmo ainda que esses pequenos negócios não são privilégio de nossa cidade, pois , em viagens de férias que fiz a algumas capitais brasileiras constatei o mesmo fenômeno.

Roda de cerveja é o lugar que nos fornece lucidez suficiente para resolver e digerir, quase sem passar mal, todos os problemas socioeconômicos, ambientais, de segurança pública etc., não só de nosso país, como também de todo o universo, assim acabo dando razão ao nosso proto-líder por manter-se etílicamente concentrado na medida em que seus “companheiros”, brincalhões como são, só o levam a serio desse jeito.
Principalmente nessas rodas venho debatendo há muito tempo que “o emprego, formal ou não, acabou”. Pelo menos aquele que possa dar ao empregado e sua familia uma vida com um mínimo de dignidade (aí incluídos: diversão, bem estar familiar, tranquilidade etc.). Claro que excluo os empregos que dependem do famoso “QI” (Quem indicou), bem como os do PDS (Parentes do Sarney).
Talvez aí esteja a explicação para o fenômeno que relatei no início.

Alguns desses pequenos negócios, dado o pequeno aporte de capital necessário para seu estabelecimento, são recorrentes: Pet Shops, cabeleireiros, produtos de limpeza, pequenos bares que se assemelham às mercearias de antigamente pois vendem quase tudo: desde agulhas para costura até cigarros e bebidas, além de terem mesas para os clientes poderem apreciar um sorvete ou um refrigerante, ou mesmo pra consumir “um dedo de prosa”, que costuma ser de graça; e o campeão deles: o Brechó.

Antigamente os brechós eram lugares onde a gente procurava apenas roupas e calçados usados. Hoje em dia, com a concorrência estabelecida pela quantidade de estabelecimentos, eles vendem também louças, talheres, móveis, instrumentos musicais, livros, relógios e tantas outras incontáveis quinquilharias.

Devo ter passado por uns três ou quatro brechós nesse curto espaço que percorri. Parece que, em bairros mais antigos, eles se proliferam e acabam se especializando, uns em roupas e acessórios como sapatos, xales, cintos e bolsas, outros em móveis e inutilidades domésticas dessas que são insistentemente anunciadas pelos meios de comunicação como solução pra tudo, desde descascar uma cebola sem chorar até tomar um cafezinho sem ter que esquentar a água, e outros ainda em antiguidades que se confundem com todos os outros itens, a ponto de acharmos que temos em casa algo muito valioso, que poderia solucionar definitivamente nossas finanças.

Com a quantidade de pequenos negócios que mencionei acho que vamos acabar vendendo coisas uns para os outros, retornando ao escambo (troca de mercadorias), modalidade de negócio mais antiga da humanidade.
Por outro lado o brechó já cumpre esse papel pois ele é o escoadouro de todos os nossos sonhos: Aquele joguinho de pratos chineses (A maioria “MADE IN CHINA”), taças de cristal da boemia, o relogio Pataca ou Ômega (Que a gente chamava de oméga ferradura, dado o seu símbolo ser a letra grega ), de todas as nossas frustrações: O descascador de batatas que nunca funcionou direito, aquele multi-processador manual que, na mão do vendedor fazia maravilhas mas nas nossas..., o casaco de peles que, por nunca ter feito frio a gente nunca usou, o sapato que compramos com número menor, achando que lacearia o suficiente, ou maior que encontramos numa liquidação irresistível, chapéus e tanta coisa mais que, se não tivéssemos comprado, não faria a menor falta.

O engraçado nisso tudo é que muita gente, inclusive eu, se sente tentada a adquirir todas essas coisas. Dessa maneira fica interessante a gente frequentar esses locais só para ficar observando as pessoas revirando um cesto de roupas ou, nos mais organizados, filas interminaveis de cabides com calças, camisas, ternos; prateleiras cheias de sapato (Fiquei sabendo outro dia que algumas pessoas escondem pares de sapatos dentro de guarda-roupas, lá do brechó mesmo, para levá-los em outra ocasião, visto estarem sem dinheiro naquela visita). Depois (Já vi acontecer uma porção de vezes) chega em casa e mostra a aquisição dizendo ¬Uma pechinha! Às vezes vem aquela pergunta: ¬Pra que serve?
Resposta ¬Acho que é pra... – A pessoa nem sabe pra que serve e comprou.

Outra coisa que o brechó pode resolver é o consumismo, praga que nos atinge há pelo menos um século, pois de um lado estão os que compraram e finalmente desistiram daquela inutilidade e, de outro, os que ainda descobrirão essa inutilidade, mas pela metade do preço.

Já temos brechós que vendem computadores e televisores (alguns modernos), material esportivo (Já vi até esquis de neve – Já pensaram: Quem compra esquis aqui no Brasil?)

Certa vez, há uns três anos atráz, não resisti e, a contragosto de minha esposa (Ela me diz isso até hoje, como se a aquisição tivesse sido ontem), comprei uma espiriteira de prata que era uma verdadeira pechinha. Cheguei em casa, dei um polimento na peça e a deixei novinha em folha. Depois de receber os elogios de praxe coloquei-a em cima de um armário onde está até hoje. Resultado: Ou dou de presente para que alguém a guarde por mais uns três anos e descubra sua inutilidade, o que vai me custar mais um polimento, ou devolvo para algum brechó por uns vinte por cento do que paguei. Negocião!

Outra característica encontrada em visitantes de brechós é que ninguém, ou quase ninguém admite que compra nesses estabelecimentos e, quando os visita o fazem apenas por curiosidade. Mas, não raro, encontramos alguns objetos em casas que visitamos que “só podem ter sido adquiridos em brechós”, sobretudo se levarmos em consideração o tempo de casados daqueles amigos. Quando indagamos invariavelmente respodem: ¬É herança.

Eu continuarei a visitá-los, pois sempre encontro coisas muito interessantes tais como discos, alguns livros raros (já comprei um que foi o único livro escrito pelo Henfil, e com dedicatória e tudo), móveis e utensílios que remetem à minha infância. Às vezes compro coisas apenas para mostrar para meus filhos que, de outra forma, certamente não teriam como conhecê-las.

Recomendo também aos políticos brasileiros que os visitem. Quem sabe lá eles consigam finalmente descobrir a inutilidade do poder que detém e que, no final, só serve para adquirir coisas que, de uma forma ou de outra, acabarão em algum brechó, pois, ainda que confeccionadas em ouro ou diamantes, tem menos importância do que a camisa que eles estejam vestindo ou a comida que consumiram em sua última refeição visto que nunca podemos afirmar que faremos a próxima. E ainda que todo o dinheiro e todos os bens que acumulamos não são nossos, uma vez que daqui nada levamos a não ser, caso haja outra vida, o que aprendemos, aí incluido o prazer, NOSSA EVENTUAL HONRA, e as frustrações de nossas vidas.

Lá também podemos encontrar um pouco de nossa história recente, em coisas que em breve estarão em museus (Afinal pra que esperar?).

Em diversos bairros de São Paulo os próprios imóveis estão sendo tratados como se estivessem em um brechó tal o estado deploravel em que se encontram. Seus proprietários, no afã de perpetuar suas dinastias, tentam vendê-los por valor muito maior do que efetivamente valem e, com sua morte, os herdeiros não conseguem negociá-los, muitas vêzes por litígio motivado pelas mesmas razões. Assim ficam ali, testemunhando o tempo ao sabor de ventos e intempéries que os destroem como se quizessem varrê-los da história, o que acaba efetivamente acontecendo, a não ser que sejam invadidos o que os transforma em cortiços, que convenhamos, é ainda pior.

Em Salvador, no caminho entre a cidade baixa e cidade alta, tem uma rua em que todos os edifícios (muito antigos) só tem as fachadas e quase todas quase caindo. Uma briga entre os herdeiros dos antigos proprietários e o poder público, inviabiliza qualquer restauro. Resultado: Um grande brechó a céu aberto.

Quem sabe, no dia em que nos desfizermos de tudo o que tivermos, segundo sua inutilidade de momento, não obtenhamos a tão sonhada harmonia social. Afinal, de alguma maneira, teremos que nos desfazer mesmo!


Nossa única herança de fato, ainda que também transitória, está exprimida neste poema de João Cabral de Melo Neto, que faz parte de seu texto: Morte e vida Severina e inclusive serviu em parte, para compor a letra da música Funeral de um Lavrador, de Chico Buarque de Hollanda:


Esta cova em que estás

Esta cova em que estás com palmos medida,/ é a cota menor que tiraste em vida/ É de bom tamanho,nem largo nem fundo/ é a parte que te cabe deste latifúndio/ Não é cova grande,é cova medida/ é a terra que querias ver dividida/ É uma cova grande para teu pouco defunto/ mas estarás mais ancho que estavas no mundo/ É uma cova grande para teu defunto parco/ porém mais que no mundo te sentirás largo/ É uma cova grande para tua carne pouca/ mas a terra dada não se abre a boca/ Viverás, e para sempre,na terra que aqui aforas/ e terás enfim tua roça/ Aí ficarás para sempre,livre do sol e da chuva/ criando tuas saúvas/ Agora trabalharás só para ti, não a meias/ como antes em terra alheia/ Trabalharás uma terra da qual, além de senhor/ serás homem de eito e trator/ Trabalhando nessa terra,tu sozinho tudo empreitas/ serás semente, adubo, colheita/ Trabalharás numa terra que também te abriga e te veste/ embora com o brim do Nordeste/ Será de terra tua derradeira camisa/ te veste, como nunca em vida/ Será de terra e tua melhor camisa/ te veste e ninguém cobiça/ Terás de terra completo agora o teu fato/ e pela primeira vez, sapato/ Como és homem,a terra te dará chapéu/ fosses mulher, xale ou véu/ Tua roupa melhor será de terra e não de fazenda/ não se rasga nem se remenda/ Tua roupa melhor e te ficará bem cingida/ como roupa feita à medida.






Powered By Blogger