— Se quiser, vá você. Eu não vou passar por tudo aquilo de novo.
— Mas o pessoal mudou, estão mais escolados, mais sabidos. A tal da internet está deixando todo mundo muito informado. Nem vamos precisar de tanto tempo pra divulgar nossas idéias. — Disse Mohamed, animado principalmente pelos últimos acontecimentos.
— E você Abraão, o que acha?
— Não sei não... Pessoas são pessoas
— Mas você não acha que, passando pelo que eles estão passando, alguma coisa tem que ter mudado?
— É... Mas não necessariamente para melhor. Os caras sempre acham que a culpa não é deles. Ou é o Homem ou “daquele outro”. Desse jeito não vejo solução, pelo menos no mandato Dele. É todo poderoso, mas...
Apesar da visível preocupação, a conversa seguia animada entre os três, quando chegou outro, bem acima do peso, com seus longos e finos bigodes, ar asiático com olhos de amêndoa e, pegando o “bonde andando” já chegou afirmando:
— Aonde vocês vão? Também quero ir.
Abraão, o mais experiente e brincalhão interpelou, dirigindo-se aos outros:
— O que vocês acham... Ele pode ir? Eu tenho dúvidas.
O gordão curioso que estava, reafirmou:
— Vou e pronto!
Jesus, já compadecido interveio:
— Mas se você nem sabe do que estamos falando, como diz que quer ir, principalmente sendo o símbolo da meditação que é não acha que deveria meditar um pouco?
— Tá bom... Tá bom... — Acatou Siddhartha — E para onde vocês estão pensando ir?
Já às gargalhadas, Abraão e Mohamed responderam quase em uníssono:
— TERRA!
— Nem fu... zilando. Passar por tudo aquilo de novo. Quem teve a “brilhante idéia”?
— Eu — disse Mohamed — Os meninos estão precisando. A vaca tá indo pro chamado brejo. Ou a gente intervém ou vai dar mer...cadoria estragada.
— E o Homem, o que diz dessa “grande” idéia?
— Ainda não consultamos. Preciso primeiro convencer vocês. Afinal não dá pra descermos como das outras vezes: Um por um. Tem muito mais gente. Acho que temos que fazer tipo arrastão na praia. Em uma semana damos cabo. Se o Nicolau consegue fazer o percurso todo em um dia (Tá certo que em 24 horas, descontado o fuso horário).
— Eu, — Disse Abraão — desde que o Todo Poderoso concorde com essa loucura, acredito ser melhor a gente ir ao mesmo tempo, cada um para um lugar diferente, de acordo com nosso prestígio e necessidade.
— Eu concordo. — Retrucou Jesus e, chamando a atenção de Mohamed disse: — Sua afobação pode piorar ainda mais as coisas. Já pensou nós quatro descendo de uma vez. Seria a bagunça geral acompanhada das piores mazelas como gente se matando, saqueando os demais. Um horror! Além do que muitos utilizariam isto pra fins políticos eleitoreiros. Aquele barbudo mesmo, caso a gente escolha o país do futebol. Já sairia dizendo: Nunca antes na história deste País, “ou çeja”, do mundo e aquele blá... blá... blá... de sempre. Tem que ser do jeito do Abraão.
— Pensando bem vocês tem razão. E aí Siddhartha (Ô nominho difícil)? Vamos tentar novamente?
— Só se o Chefe pelo menos garantir a segurança. Sem aquele papo de salvador, sacrifício na cruz. É chegar, acontecer e subir de volta rapidinho. Afinal aposentadoria é aposentadoria. Tudo bem que a gente atenda um ou outro pedidinho, mas assim não dá. Os caras aprontam tudo o que é de ruim e a gente tem que ir lá consertar?
— Vamos falar com Ele.
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Tendo sido idéia de Mohamed, coube-lhe a missão. Depois de algumas tentativas, já que o Homem, sempre muito ocupado com as coisas do universo, tava meio sem tempo, conseguiu uma audiência, não sem antes receber muitas recomendações de Pedro, sobre toda a problemática cósmica.
Mohamed, objetivo como sempre, apressou-se em adentrar ao recinto Dele. Ele se encontrava consertando uma ou duas coisinhas lá nos confins galáticos, atirando raios certeiros. Entretido na tarefa, nem percebeu sua aproximação, mas, sabedor de tudo, em sua onipotência, procurou disfarçar a surpresa saudando-o informalmente.
— Algum problema?
Mohamed contou detalhadamente suas intenções e ainda, dando como exemplo essa última reunião em que tentaram e quase nada conseguiram fazer para consertar o clima, acrescentou que, sem a ajuda divina, a humanidade estaria fadada à extinção, muito antes da época em que Ele havia determinado.
— Mas você não acha perda de tempo? Quando os dotei de livre arbítrio, já avisei. Em seguida, em virtude da separação das famílias e depois das nações, mandei diversas mensagens, às vezes através de mensageiros importantes como você. E, um pouco antes de você, mandei até meu filho. Nunca liguei para os nomes de que me chamaram, se me entendiam como sou ou como se eu fosse muitos. Nada resolveu. O que os faz pensar que essa iniciativa terá melhor resultado?
Mohamed explicou o que achava sobre o estado evolutivo humano etc.
Conversaram por mais alguns instantes e Ele fez uma última indagação:
— Já convidaram os outros
— Acreditamos que, em virtude de sermos os mais cultuados, é melhor começarmos e depois chamamos os Gurus, o Allan e o Confúcio.
Passando a mão sobre sua longa barba branca, deu aquela pensadinha típica dos que, apesar de poderosos, sabem de sua responsabilidade e determinou:
— Já que quem tem mais experiência nesse negócio de descer e subir é Jesus, começaremos por ele.
— Mas...
— Se der certo, — Continuou agora solene — a gente continua com o plano, se der errado paciência.
Entendendo o recado, Mohamed preparou-se para sair, mas recebeu uma última recomendação:
— Avise Jesus que ele só disporá de dois milagres. Que os utilize sabiamente.
E lá se foi Mohamed, um tanto desiludido, pois estava convicto que, se levassem a cabo seu plano original, abreviariam muito mais o sofrimento humano. Mas Ele disse tá dito.
— É melhor você descer lá mesmo onde subiu.
— Mas lá quase ninguém me cultua mais.
Abraão, com a sabedoria de quem conduziu seu povo contra tudo e contra todos, vaticinou:
— Você deve descer no país em que tem mais prestígio.
— Isso mesmo. Lá terei menos dificuldades e, quem sabe, consiga um resultado que anime meu Pai a permitir a descida de vocês.
— Fica longe do barbudinho — Interpelou Siddhartha.
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Final de Março início de Abril é uma época em que os brasileiros estão mais acessíveis à palavra de Jesus, até mesmo mais do que no Natal, pois foi nessa época que o supliciaram, culminando em seu sacrifício e ressurreição, o que é lembrado todos os anos após a quaresma. Aquela quaresma em particular, em virtude das mudanças climáticas do planeta, fora bastante chuvosa. Isso parecia deixar tudo mais triste ainda. Por isso Jesus decidiu descer justamente naqueles dias e, melhor, desceu logo no maior cemitério, onde poderia dar seu recado e, para comprovar ser ele mesmo, fazer um de seus milagres, quem sabe uma ressurreição.
Pra variar o cemitério de Vila Formosa estava lotado. Em seu velório vários esquifes aguardavam o sepultamento, acompanhados de centenas, talvez milhares de pessoas que se juntavam a outras que vinham em visita a seus entes queridos já falecidos.
Aquela quinta-feira santa prometia. A chuva caia persistente, ora mais forte, ora mais fraca, mas parecia não querer cessar de jeito nenhum.
No pátio principal entre os carros estacionados, perto do vendedor de flores de repente uma grande nuvem se formou. Todos assustados, não sabendo do que se tratava, procuraram abrigo. De dentro da nuvem apareceu um homem vestindo uma túnica, mais como um grande lençol branco. Barbudo, aparentemente jovem, se dirigiu às pessoas presentes:
— Venho lhes trazer a salvação. — E começou seu discurso inflamado, procurando convencer todos da necessidade de mudança nos relacionamentos, distribuição das riquezas etc.
— Mas você devia dizer isto lá no Araçá e não aqui. — Interrompeu um guardador de carros — Aqui só tem miserável. Não temos nada pra dividir. De que igreja você é?
— Eu sou a verdade absoluta. Sou filho Dele o Criador.
Um padre que passava já gritou:
— Blasfêmia! Prove que você é quem diz ser.
Pensou um pouco e, como dispunha de apenas dois milagres, resolveu utilizar o primeiro em grande estilo e disse em voz alta, quase gritando, uma vez que uma multidão já o cercava:
— Levantem.
Um a um todos os defuntos que aguardavam o sepultamento, foram levantando de seus esquifes. Mas o resultado não foi o esperado, pois a correria se instalou. Pessoas se empurrando, querendo sair do cemitério a qualquer custo, sendo pisoteadas. A notícia se espalhou como fogo em pólvora e tudo deu errado. Jesus, não entendendo bem, pediu ao Pai que desfizesse a ca...rga negativa que, inesperadamente ele havia promovido.
Ele, compreensivo, retrocedeu o tempo em algumas horas, ao exato momento de sua descida e recomendou:
— Vê se não faz mais nenhuma! Os tempos são outros. As pessoas não entendem bem esses milagres.
Para sua segunda e derradeira tentativa, procurou um rincão cheio de problemas, e escolheu um centro de saúde dos mais necessitados: Sem médicos, daquele jeito mesmo.
Em virtude de sua última experiência desta feita chegou com a mesma aparência, mas sem muito alarde e, apropriando-se de um consultório, foi logo atendendo um tetraplégico que, pelo seu estado, se encontrava no primeiro lugar da fila, mas há mais de quatro horas.
Compadecido, como bem cabe a alguém como ele, olhou para o infeliz e solenemente disse:
— Levanta e anda.
O rapaz, como que tomando um choque, pulou da cadeira de rodas e, como nunca havia feito em sua miserável vida, saiu serelepe do consultório, esquecendo-se até de agradecer. Esqueceu até seu antigo meio de transporte.
Jesus, satisfeito com o resultado e já que a porta havia ficado entreaberta, pôs-se a escutar os comentários do outro lado:
— E aí... Mudou alguma coisa?
— Que nada... Nem me examinou... Mandou levantar e ir embora.
Os que lá estavam testemunharam um grito seguido de uma tremenda explosão:
—Mohamed! Você me paga!











Cabeça de bacalhau – Realmente nunca vi uma. Claro que, neste caso, a gente sabe que, do infeliz peixe que caiu nas rêdes da humanidade faminta, quando foi salgado, foi-lhe retirada a cabeça, talvez pela vergonha de continuar fitando aqueles olhos-de-peixe-morto que nos induzem a nos tornarmos vegetarianos. Aliás acho que todos nós, se tivermos tempo, um dia pararemos de beber, de fumar, teremos câncer, seremos vegetarianos, homossexuais e religiosos (não necessariamente nessa ordem).Outra informação: O consumo deste peixe tal como hoje ( salgado ), acontece desde 2400 AC, na Mesopotâmia, Talvez também desde lá se utilize o dito.
Mosca branca - A mosca-branca é uma das pragas mais conhecidas no mundo e está presente em praticamente todas as regiões agrícolas. Tecnicamente não se trata de uma mosca, pois é um hemíptero, mesma ordem dos pulgões e percevejos, e não díptero que é a ordem das moscas comuns. Uma regra prática para não confundir é o número de asas: hemípteros têm quatro asas enquanto que dípteros têm duas. Ainda utilizamos o termo para identificar coisas quase impossíveis, no entanto podemos ver que já não são tão raras assim. Poderíamos utilizar o dito para os políticos desonestos. Pelo menos antigamente achávamos que eles eram minoria e hoje...
É...Também acho todos eles muito compridos. Aceito sugestões e façamos o seguinte:
