Quando resolvi escrever, além de crônicas tinha em mente comparar efemérides, sobretudo históricas, já que pessoas da minha idade (mais de meio século), já podem se considerar agentes históricos.
Uma das mais importantes que agora em 2009 comemora 20 anos é a queda do muro de Berlin, alcunhado de “o muro da vergonha”.
Concordo plenamente com o apelido, já que, por mais que me esforce, quando olho a terra através das tais fotografias citadas por Caetano, não consigo visualizar nenhuma das fronteiras erigidas por nós, seres humanos, a não ser a inútil muralha da China. No entanto não entendo muito bem a comemoração da derrubada daquele, como sendo um marco positivo da humanidade se hoje em dia estamos diante de outro, muito mais alto e intransponível, que é o muro da Faixa de Gaza. Os judeus, que tanto sofreram na segunda guerra e, pela existência daquela imbecilidade, no pós guerra também, hoje cometem o mesmo erro.
Na verdade o muro já vinha sendo demolido a partir da perestroika (reconstrução) e glasnost (abertura) promovida por Mikhail Serguéievich Gorbatchev, ou simplesmente o conhecido Gorbachov, socialista convicto que julgava ser possível uma democracia capitalista associada às idéias de Marx. Mesmo não tendo conseguido levar a cabo seu intento, pois não contava com a resistência dos oligarcas e mafiosos da época, além do povo, como gado que é, achar melhor entrar em uma fila para receber o pão, desde que, no final da fila, exista um pão, Gorbachov com suas idéias propiciou a derrubada da cortina de ferro, ainda que às custas da derrota simbólica para o capitalismo selvagem, que tanto Marx combatia.
Naquele mesmo ano, em campanha à presidência da república de um país do hemisfério sul, um barbudo de fala rude e de difícil compreensão, copiando o já demodê El Comandante Fidel, participava de debate político com um principesco lord, digno das grandes estirpes inglesas, vestido a caráter do simbolismo necessário a uma possível eleição para substituir outro, não menos nobre bigodudo, que tinha levado aquela nação à banca rota, com uma inimaginável inflação de 80% ao mês. O primeiro prometia acabar com a fome do nordeste, o segundo iria caçar os “marajás” (que o primeiro ironizava com um humor duvidoso, dizendo serem maracujás) e o terceiro, na primeira fila, ria-se, esperando sua próxima eleição ao senado da república ou como governador de algum estado de seu oligopólio.
Estava em um de meus passatempos preferidos sentado em meu trono matinal, às voltas com palavras cruzadas quando me deparei com a seguinte definição: O que moveu Tiradentes, com um espaço para cinco letras. Crítico até nas melhores horas pensei: não pode ser “ideal” (e era).
O que fez nosso querido protomártir Joaquim arriscar sua reputação, já que se tratava de um alferes das forças portuguesas (hoje um primeiro tenente) e finalmente perder sua vida, foi o fato de Portugal com o movimento chamado de derrama, exigir que Minas Gerais completassem os 1500 quilos de ouro anuais devidos à coroa. Claro que estava amparado pela elite mineira que, assim que a coisa apertou, fez um acôrdo com o governo central e “tirou o pé”, ou o “c. da seringa”, deixando-o e a seus comandados ao sabor das ondas.
Por isso afirmo: O que move as revoluções, quer do pensar, ou de comportamento, é a necessidade mais rasteira que estiver ao alcance do descontente de plantão.
Pode acontecer dessas necessidades coincidirem com a distribuição de algumas migalhas ou até de riquezas maiores, como aconteceu nos EUA, quando os colonizadores, fugindo de situação muito desfavorável, vinham para se estabelecer, matando a quem quer que fosse: Nativos, desafetos, animais, florestas, sub solo etc., desde que sua fixação fosse proveitosa para suas futuras gerações, que não precisariam continuar em fuga.
A perestroika não foi muito diferente pois já não havia condições da URSS sustentar o império e a conveniente queda do muro apenas dividiu o bolo e a miséria. Ironicamente pode ser que hoje, seguindo as regras da natureza humana, hajam pessoas dos dois lados com saudades daquela fronteira, devidamente caladas pelo sistema vigente.
Talvez os verdadeiros idealistas sejam aqueles cujo o proveito de suas memórias apenas se deem após sua morte como é o caso de Raul Seixas que no dia 12 de Julho daquele ano concedia ao Jô sua última entrevista em vida (existem bichos-grilos que juram conversar com ele até hoje). Falou sobre sua “sociedade alternativa” que, apesar de ser simplesmente uma música, o obrigou a sair do país exilado em 1974. Foi para Nova Yorque sendo lá acolhido por John Lennon. Acabou comendo lixo na rua, a convite de um palhaço. Mas como ele mesmo disse: “Lixo americano é outra coisa”.
Em que pese todos esses personagens, alguns vivos, inegavelmente fazerem parte da história, podemos afirmar que Mikhail, Joaquim e Rauzito nela ficarão, já os outros...
Não é curioso que até um músico, que apesar de muito inteligente sempre foi totalmente desprovido de maiores aspirações tais como derrubada de muros ou mudanças radicais (a não ser a da cerveja para a “mardita”), sobrepuje figuras tão ilustres, antes inimigas vicerais e hoje, em nome do bom relacionamento político, abraçadas e sorridentes?


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