Dicionário informal:
-Mulher que a pessoa (marmiteiro) corteja, elogia e flerta (verbo "marmitar"), que pode ou não desencaminhar em uma relação, dependendo do grau de insistência. Há aqueles que marmitam, marmitam mas não pegam nada, que são os vinagretes (só acompanham).
-Refeição feita em/ por alguém de casa, acondicionada em um recipiente plástico para ser consumida mais tarde.
Dicionário Houaiss:
-panela de cobre ou de outro metal, provida de tampa
-recipiente de lata em que, nos quartéis, se serve rancho aos soldados
-conjunto de recipientes dispostos um sobre outro, seguros por uma armação na forma de alça, nos quais se transporta comida; vianda
-Derivação: por extensão de sentido.
-recipiente em que se transporta a própria refeição para o local de trabalho
-Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
-barriga, ventre
-Uso: informal.
-meretriz que sustenta um rufião
-Rubrica: fotografia.
-pequeno refletor de 1.000 W, com que se produz efeitos de luz de fundo
Quando cogitei falar da marmita, pensava naquela que, quando ainda trabalhava como empregado eu abria sem surpresa, pois na maioria das vezes já sabia o que ela continha, mas, em época de “vacas magras”, indignava-me justificando a repetição da mistura do dia anterior.
Nunca pensei que pudesse estar comendo a mulher citada no primeiro verbete ou o refletor do último. Sequer pensei que pudesse um dia conjugar o verbo marmitar, mas a nossa língua é mesmo surpreendente.
Na verdade esta idéia surgiu de uma conversa regada a cerveja e boas risadas, que tive com alguns amigos um dia desses. Lá relembrávamos nossas idas e vindas com o “tijolo”, nome muito utilizado na época como sinônimo de marmita, em baixo do braço ou dentro de uma bolsa a tiracolo chamada capanga ou até, para os mais envergonhados, em uma valise 007, última moda nos anos 70. O engraçado nisso é que todos sabiam que aquele sujeito metido a James Bond, pela qualidade da valise ou pelo próprio tipo, andando em um coletivo lotado, só podia estar carregando uma marmita. E ainda, quando a sobremesa fosse uma banana ou um caqui, pelo espaço que sobrava na mala, o cara iria comer uma musse da fruta.
Já soube até de casos em que o fulano levava sua marmita em uma caixa disfarçada de bíblia. Nesse caso todos pensavam que o cara era religioso, mas a única religião que ele professava era a que mata a fome da carne.
O arroz com feijão sempre foi a comida nacional brasileira e, via de regra, era o que tínhamos em nossa marmita, quase sempre acompanhada de um ou dois ovos, ou até, em épocas melhores, de um bife. Às vezes, na segunda-feira, tínhamos a sorte de termos nossa refeição garantida pela sobra da macarronada de domingo quando poderíamos até saborear uma ou duas bracholas ou almôndegas.
Por outro lado aquela macarronada vinha sempre “unidos venceremos”, quando temos que cortar o macarrão como se fosse um pedaço de pão molhado já que, depois de quase 24 horas, vários solavancos recebidos dentro do ônibus e um requentamento, ele se juntava molecularmente, de maneira que esse era a único jeito de ingeri-lo.
Nem sei se hoje com o advento do forno de microondas isso ainda ocorre, mas outro acontecimento muito freqüente era as marmitas encherem-se de água nos esquentadores a banho-maria. Acontecia assim: Você chegava mais cedo e colocava a sua em um marmiteiro com um pouco d’água. Como em seguida iam colocando outras marmitas, o nível da água ia subindo até chegar à borda das primeiras (já que, se o cara percebesse que o nivel iria atingir a sua ele improvisava algo para elevá-la), o que acabava transformando sua refeição em uma inesperada sopa. Diante disso muitas vezes só nos cabia escorrer a parte líquida e comer a parte sólida.
Tantas são as histórias sobre a marmita, mas vou lembrar apenas duas:
-Um de meus irmãos, que não declinarei o sobrenome, apenas o nome fictício de Edson, pegava rotineiramente uma carona para o trabalho na motocicleta de seu cunhado.
Num daqueles dias onde tudo está meio errado, saindo de casa atrasados, seu cunhado, grande piloto, fazendo as típicas manobras em zigue e zague com o objetivo de diminuir o tempo do percurso, provocou a queda da bolsa a tiracolo em que meu irmão carregava a marmita. Resultado: A bolsa ficou no meio do asfalto sendo esmagada por um ônibus que vinha logo em seguida. A carteira profissional que se encontrava na mesma bolsa segue até hoje como testemunha, com suas manchas de feijão.
-Esta outra não chega a ser uma história apenas uma constatação, já que soube que todos nós marmiteiros, sempre comíamos a nossa de olho nas dos outros, talvez na esperança de que o cheiro de outro tempero ou a visão de outra mistura, melhorasse nossa refeição. Chegávamos pra nosso almoço com a fome de ante ontem e abríamos nossa marmita com muita velocidade, o que provocava às vezes uma surpresa: Cadê a mistura? Até pensávamos que tínhamos sido roubados o que também não era incomum. Mas era engraçado quando descobríamos que a velocidade da abertura tinha colado o “zoiudu” na tampa.
Pena que alguns políticos, antigos carregadores de marmita, que hoje grassam pelos corredores do poder, pouco ou nada se lembrem dela: Da camaradagem e da honestidade intrínseca já que, quem carrega marmita, faz de tudo pra disfarçar, mas não consegue. Do sabor que a fome dá aos pratos mais simples.
Quem sabe essa lembrança pudesse aplacar a sede de poder que se instala em seus cérebros assim que conseguem o cargo público e os trouxesse mais perto das aspirações menores que tanto afligem seus eleitores. Sim, pois a maioria das pessoas quer apenas a dignidade de uma vida simples, ainda que sempre saboreando a saudosa marmita.


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