Pelo menos duas vezes por mês vou a uma agência bancária pertencente a um desses conglomerados que veem se formando nos últimos tempos. Aliás não dá pra entender muito bem o objetivo desses monopólios. Acontece que, como às vezes tenho que ficar por muito tempo dentro do estabelecimento, acabo lendo todas as propagandas e prospectos. Numa dessas seções de leitura me deparei com um gráfico complicado, coisa de marqueteiro europeu, onde os caras tentavam dar um significado melhor à sacanagem que é o sistema bancário, com seus juros exorbitantes etc. No final do cartaz que estava afixado na parede bem atrás do gerente estava escrito em letras “caixa alta”: FOCO NO FOCO DO CLIENTE. Certamente uma tradução infeliz de um copista brasileiro, ou até de um baita gozador.
Outro dia ouvi de um amigo que vive viajando pelo mundo que, na maioria dos países europeus, sobretudo nas grandes cidades, as pessoas olham-se como se fossem transparentes, ou seja, dificilmente consegue-se um “olho no olho”. Aí pude entender o "gancho" daquela propaganda, que em nossa língua me pareceu de duplo sentido.
Nesta época em que a palavra transparência está na moda, mais uma vez recorri aos léxicos com o objetivo de entendê-la de uma forma mais abrangente. Claro que intuitivamente já sabia que esta transparência da moda tenta dar sentido às aberrações político-financeiras e desmandos generalizados de que quase todo o poder público faz uso, como se o cargo desse ao afortunado o direito divino de escolher o que é bom ou ruim para a população sem dar satisfação (até rimou!).
Lendo uma reportagem do jornalista Bruno Paes Manso, publicada no Estadão em seu caderno de cidades, novamente apareceu a transparência a que meu amigo se referia, pois tratava-se de uma pequena vila no bairro de Pinheiros junto à qual se cogita construir um estacionamento de cinco pisos. A grita foi geral: Com muita justiça os moradores da pacata e rara vilinha, querem que a incorporadora aborte o empreendimento que vai tirar-lhes o sossêgo. Um desses moradores, arquiteto renomado, responsável por vários projetos de grandes construtoras aqui mesmo em São Paulo, disse: “Somos invisíveis”
A mesma reportagem citava que esta frase foi ouvida em outro despejo, que aconteceu em uma favela da Avenida Roberto Marinho, antiga Águas Espraiadas (O metro linear de via pública mais caro de que se tem notícia: 50 mil reais). Um morador desolado e sem ter para onde ir usou a mesma “transparência” que os deixava “invisíveis”, aos olhos das grandes corporações.
O despejo dessa favela aconteceu em minutos, com grande estardalhaço e derrubada impiedosa das moradias que antes se encontravam à beira de um riacho sem muita importância. Agora perto de uma grande rede de televisão, à beira de uma avenida que pretende se tornar importante, pois, começando numa ponte que serve de cenário para essa mesma emissora, até agora está sub utilizada. Já estão desapropriando outras favelas, mais acima do mesmo riacho, e ela finalmente será útil nesta São Paulo de trânsito caótico.
Em sua reportagem, Bruno, não sei se de propósito quando mencionou o despejo da avenida, me levou a comparar as duas situações.
Atentando para os moradores daquela vilinha que são pessoas bem mais abastadas e informadas do que aqueles desafortunados da avenida, em que pese a necessidade de grandes empreendimentos, passo a duvidar se os primeiros serão prejudicados, já que varios processos estão sendo impetrados contestando a construção do estacionamento, com direito inclusive a reportagem de página inteira no Estadão.
O artigo primeiro de nossa constituição diz que todos somos iguais perante a lei, mas como é sobejamente conhecido “alguns são mais iguais”.
Apesar de não constarem em nenhuma constuituição do mundo como direitos ou deveres, acabo de descobrir que “transparência” e “invisibilidade” são instituições informais convenientemente aplicadas de acordo com a posição socio econômica, interesses corporativos e do poder e quem sabe até pela “cor dos olhos”.


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