TODOS NÓS sem exceção temos lembranças de muitos acontecimentos marcantes em nossas vidas, na maioria das vezes em função da emoção envolvida: O primeiro amor, o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro casamento, o primeiro filho, um “quase acidente fatal”, já que, se fosse fatal, obviamente não estaríamos aqui para descrevê-lo e tantas outras coisas.
No entanto existem acontecimentos que ficam na memória de todos que estão vivos naquela oportunidade, mas que os remetem a lembranças diversas: O que você estava fazendo quando...
- Estourou a segunda guerra mundial,
- O Brasil chegou ao tri campeonato mundial de futebol,
- Aconteceu o ataque às torres gêmeas em NY,
- E o campeão de todos aqui no Brasil: O dia em que o Airton Senna Morreu, entre outros.
O interessante é que essas lembranças não são necessariamente maiores ou menores de acordo com qualquer parâmetro histórico, o que me parece que deveria acontecer. São mais ou menos importantes de acordo com: Surpresa, emoção, satisfação de expectativas ou até, como aconteceu com o tri, quando somos tratados como gado, levados a acreditar que a Pátria pode calçar chuteiras e o futebol pode ser a redenção do país do futuro.
Muitos jovens (espero) que estão lendo este texto, nem se lembram do “11 de Setembro”. Para nós cinquentões parece que foi ontem e está bem vivo em nossa memória, prova de que a consciência da importância do fato, no momento da ocorrência, também faz parte da memorização.
Acho até que outros acontecimentos deveriam fazer parte dessa memória coletiva:
- A morte de Tancredo Neves (Que na época trouxe grande comoção nacional),
- A promulgação da Constituição Brasileira de 1988,
- A queda do Muro de Berlim, que marcou a “vitória dos bons americanos contra os maus soviéticos”,e tanta coisa mais.
Afirmo ainda existirem fatos que, apesar de terem ocorrido recentemente com muita pompa e cobertura maciça da imprensa mundial, já abandonaram inexoravelmente nossas memórias, como é o caso da morte do cantor Michael Jackson.
Dia desses, querendo me livrar do calor que tem assolado minha Sampa, entrei em uma dessas lojas que vendem de quase tudo, a procura de um ventilador de teto para meu quarto de dormir, que há muito tempo vinha namorando ora pela internet, ora pelos anúncios da TV e dos jornais. Tinha em mente um com controle remoto, de maneira que não precisasse passar fios por conduites que parecem ter sido feitos em volta da fiação elétrica, ou pelo menos foram embutidos nas paredes já com os fios dentro deles.
Claro que esse controle remoto viria se juntar a tantos outros (TV, DVD, telefone sem fio, TV a cabo) me poupando do “esforço que seria” me levantar para ligar ou desligar o aparelho.
Como tive de esperar o vendedor ir buscar o ventilador e o controle remoto, que são separados, cabendo-me sua instalação de acordo com um manual que viria junto, fiquei atento à loja e pude constatar que eles vendem de tudo mesmo: De panelas a fogões, de chaves de fenda a serras elétricas etc. Chamou-me a atenção a maioria dos objetos à venda serem elétricos ou voltados para utilização de energia elétrica: Benjamins, tomadas etc.
Ao meu lado um rapaz verificava um barbeador elétrico e o vendedor fazia seu trabalho:
- O preço está ótimo, tem três cabeças que se acomodam à sua face (Sua cara fica igual a bumbum de nenem), é recarregável, de maneira que você possa fazer a barba até no carro (E pode ligar no acendedor de cigarros). Olha que cor “maneira”: prata, a cor da moda. Que cor é seu carro? Preto? Combina perfeitamente.
E seguia o malho quando o vendedor que me atendia chegou com os dois volumes.
Passei no caixa e sai satisfeito com minha aquisição já que finalmente me livraria do calor e ainda de quebra não precisaria mais me levantar de minha cama nem para apagar a luz que, como diz o Ubaldo, na minha idade já está se tornando modalidade olímpica. Estou quase aderindo ao carro automático com direção hidráulica, piloto automático, guia virtual etc.
Naquele dia o calor, parecendo querer justificar minha compra, estava infernal.
Chegando em casa lá pelas seis da tarde me pus na tarefa de instalar meu sonho de consumo. Tinha que ligar um relê que o manual informava estar no ventilador e na prática estava em minhas mãos o que me levou à internet onde soube que outro relê como aquele tinha explodido, quase ateando fogo à casa do igualmente a mim desafortunado ignorante eletro-eletrônico. Isso tornou minha tarefa bem mais difícil e preocupante.
Resolvi fazer algumas gambiarras para fazer testes antes da instalação definitiva utilizando vários fios que haviam sobrado de outra empreitada. Lá pelas dez e tanto eu, emaranhado naquele monte de fios, preparando-me para ligar o aparelho em uma tomada, fui surpreendido por uma falta repentina de luz. Assustado pensei:- Mas como? Se ainda nem liguei esta merda.
Olhando pela janela vi que se tratava de coisa muito maior, pois, até onde minha vista alcançava, estava tudo na mais completa escuridão.
Começamos eu e minha familia a conversar sobre a falta de investimento em infra-estrutura, mal que, independentemente de quem está no poder, sempre acompanhou nosso país e tanta coisa que poderia ter ocorrido para aquele apagão acontecer. Ouvia as rádios falando em falta de energia elétrica em metade do país e ainda em 90% do Paraguai que hoje, em função de sua sociedade em Itaipu, encontra-se visceralmente “ligado a nós brasileiros”.
Lembrei-me também daquele rapaz que, provavelmente convencido pelo excelente vendedor, adquiriu o barbeador. Que susto teria levado se estivesse acabando de ligar o aparelho quando a luz apagou.
Hoje, mais de uma semana depois do ocorrido, com o governo recorrendo até aos esotéricos para tentar descobrir o que aconteceu, fico pensando: Se alguém descobre meu ventilador ou o barbeador do rapaz, é capaz de sermos responsabilizados e, quando alguém for ao nosso proto líder indagá-lo a respeito do assunto certamente receberá como resposta:
-Vê se eu faço barba?
É... O segundo apagão a gente nunca esquece!




