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Aos amigos que, mesmo sendo grama, sempre compartilham o cardápio.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A SEGUNDA VEZ




















TODOS NÓS sem exceção temos lembranças de muitos acontecimentos marcantes em nossas vidas, na maioria das vezes em função da emoção envolvida: O primeiro amor, o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro casamento, o primeiro filho, um “quase acidente fatal”, já que, se fosse fatal, obviamente não estaríamos aqui para descrevê-lo e tantas outras coisas.
No entanto existem acontecimentos que ficam na memória de todos que estão vivos naquela oportunidade, mas que os remetem a lembranças diversas: O que você estava fazendo quando...

- Estourou a segunda guerra mundial,
- O Brasil chegou ao tri campeonato mundial de futebol,
- Aconteceu o ataque às torres gêmeas em NY,
- E o campeão de todos aqui no Brasil: O dia em que o Airton Senna Morreu, entre outros.

O interessante é que essas lembranças não são necessariamente maiores ou menores de acordo com qualquer parâmetro histórico, o que me parece que deveria acontecer. São mais ou menos importantes de acordo com: Surpresa, emoção, satisfação de expectativas ou até, como aconteceu com o tri, quando somos tratados como gado, levados a acreditar que a Pátria pode calçar chuteiras e o futebol pode ser a redenção do país do futuro.

Muitos jovens (espero) que estão lendo este texto, nem se lembram do “11 de Setembro”. Para nós cinquentões parece que foi ontem e está bem vivo em nossa memória, prova de que a consciência da importância do fato, no momento da ocorrência, também faz parte da memorização.

Acho até que outros acontecimentos deveriam fazer parte dessa memória coletiva:
- A morte de Tancredo Neves (Que na época trouxe grande comoção nacional),
- A promulgação da Constituição Brasileira de 1988,
- A queda do Muro de Berlim, que marcou a “vitória dos bons americanos contra os maus soviéticos”,e tanta coisa mais.
Afirmo ainda existirem fatos que, apesar de terem ocorrido recentemente com muita pompa e cobertura maciça da imprensa mundial, já abandonaram inexoravelmente nossas memórias, como é o caso da morte do cantor Michael Jackson.

Dia desses, querendo me livrar do calor que tem assolado minha Sampa, entrei em uma dessas lojas que vendem de quase tudo, a procura de um ventilador de teto para meu quarto de dormir, que há muito tempo vinha namorando ora pela internet, ora pelos anúncios da TV e dos jornais. Tinha em mente um com controle remoto, de maneira que não precisasse passar fios por conduites que parecem ter sido feitos em volta da fiação elétrica, ou pelo menos foram embutidos nas paredes já com os fios dentro deles.

Claro que esse controle remoto viria se juntar a tantos outros (TV, DVD, telefone sem fio, TV a cabo) me poupando do “esforço que seria” me levantar para ligar ou desligar o aparelho.

Como tive de esperar o vendedor ir buscar o ventilador e o controle remoto, que são separados, cabendo-me sua instalação de acordo com um manual que viria junto, fiquei atento à loja e pude constatar que eles vendem de tudo mesmo: De panelas a fogões, de chaves de fenda a serras elétricas etc. Chamou-me a atenção a maioria dos objetos à venda serem elétricos ou voltados para utilização de energia elétrica: Benjamins, tomadas etc.

Ao meu lado um rapaz verificava um barbeador elétrico e o vendedor fazia seu trabalho:
- O preço está ótimo, tem três cabeças que se acomodam à sua face (Sua cara fica igual a bumbum de nenem), é recarregável, de maneira que você possa fazer a barba até no carro (E pode ligar no acendedor de cigarros). Olha que cor “maneira”: prata, a cor da moda. Que cor é seu carro? Preto? Combina perfeitamente.

E seguia o malho quando o vendedor que me atendia chegou com os dois volumes.
Passei no caixa e sai satisfeito com minha aquisição já que finalmente me livraria do calor e ainda de quebra não precisaria mais me levantar de minha cama nem para apagar a luz que, como diz o Ubaldo, na minha idade já está se tornando modalidade olímpica. Estou quase aderindo ao carro automático com direção hidráulica, piloto automático, guia virtual etc.

Naquele dia o calor, parecendo querer justificar minha compra, estava infernal.

Chegando em casa lá pelas seis da tarde me pus na tarefa de instalar meu sonho de consumo. Tinha que ligar um relê que o manual informava estar no ventilador e na prática estava em minhas mãos o que me levou à internet onde soube que outro relê como aquele tinha explodido, quase ateando fogo à casa do igualmente a mim desafortunado ignorante eletro-eletrônico. Isso tornou minha tarefa bem mais difícil e preocupante.

Resolvi fazer algumas gambiarras para fazer testes antes da instalação definitiva utilizando vários fios que haviam sobrado de outra empreitada. Lá pelas dez e tanto eu, emaranhado naquele monte de fios, preparando-me para ligar o aparelho em uma tomada, fui surpreendido por uma falta repentina de luz. Assustado pensei:- Mas como? Se ainda nem liguei esta merda.

Olhando pela janela vi que se tratava de coisa muito maior, pois, até onde minha vista alcançava, estava tudo na mais completa escuridão.

Começamos eu e minha familia a conversar sobre a falta de investimento em infra-estrutura, mal que, independentemente de quem está no poder, sempre acompanhou nosso país e tanta coisa que poderia ter ocorrido para aquele apagão acontecer. Ouvia as rádios falando em falta de energia elétrica em metade do país e ainda em 90% do Paraguai que hoje, em função de sua sociedade em Itaipu, encontra-se visceralmente “ligado a nós brasileiros”.

Lembrei-me também daquele rapaz que, provavelmente convencido pelo excelente vendedor, adquiriu o barbeador. Que susto teria levado se estivesse acabando de ligar o aparelho quando a luz apagou.

Hoje, mais de uma semana depois do ocorrido, com o governo recorrendo até aos esotéricos para tentar descobrir o que aconteceu, fico pensando: Se alguém descobre meu ventilador ou o barbeador do rapaz, é capaz de sermos responsabilizados e, quando alguém for ao nosso proto líder indagá-lo a respeito do assunto certamente receberá como resposta:

-Vê se eu faço barba?

É... O segundo apagão a gente nunca esquece!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

FAZER A DIFERENÇA



Quando resolvi escrever, além de crônicas tinha em mente comparar efemérides, sobretudo históricas, já que pessoas da minha idade (mais de meio século), já podem se considerar agentes históricos.

Uma das mais importantes que agora em 2009 comemora 20 anos é a queda do muro de Berlin, alcunhado de “o muro da vergonha”.

Concordo plenamente com o apelido, já que, por mais que me esforce, quando olho a terra através das tais fotografias citadas por Caetano, não consigo visualizar nenhuma das fronteiras erigidas por nós, seres humanos, a não ser a inútil muralha da China. No entanto não entendo muito bem a comemoração da derrubada daquele, como sendo um marco positivo da humanidade se hoje em dia estamos diante de outro, muito mais alto e intransponível, que é o muro da Faixa de Gaza. Os judeus, que tanto sofreram na segunda guerra e, pela existência daquela imbecilidade, no pós guerra também, hoje cometem o mesmo erro.

Na verdade o muro já vinha sendo demolido a partir da perestroika (reconstrução) e glasnost (abertura) promovida por Mikhail Serguéievich Gorbatchev, ou simplesmente o conhecido Gorbachov, socialista convicto que julgava ser possível uma democracia capitalista associada às idéias de Marx. Mesmo não tendo conseguido levar a cabo seu intento, pois não contava com a resistência dos oligarcas e mafiosos da época, além do povo, como gado que é, achar melhor entrar em uma fila para receber o pão, desde que, no final da fila, exista um pão, Gorbachov com suas idéias propiciou a derrubada da cortina de ferro, ainda que às custas da derrota simbólica para o capitalismo selvagem, que tanto Marx combatia.

Naquele mesmo ano, em campanha à presidência da república de um país do hemisfério sul, um barbudo de fala rude e de difícil compreensão, copiando o já demodê El Comandante Fidel, participava de debate político com um principesco lord, digno das grandes estirpes inglesas, vestido a caráter do simbolismo necessário a uma possível eleição para substituir outro, não menos nobre bigodudo, que tinha levado aquela nação à banca rota, com uma inimaginável inflação de 80% ao mês. O primeiro prometia acabar com a fome do nordeste, o segundo iria caçar os “marajás” (que o primeiro ironizava com um humor duvidoso, dizendo serem maracujás) e o terceiro, na primeira fila, ria-se, esperando sua próxima eleição ao senado da república ou como governador de algum estado de seu oligopólio.

Estava em um de meus passatempos preferidos sentado em meu trono matinal, às voltas com palavras cruzadas quando me deparei com a seguinte definição: O que moveu Tiradentes, com um espaço para cinco letras. Crítico até nas melhores horas pensei: não pode ser “ideal” (e era).
O que fez nosso querido protomártir Joaquim arriscar sua reputação, já que se tratava de um alferes das forças portuguesas (hoje um primeiro tenente) e finalmente perder sua vida, foi o fato de Portugal com o movimento chamado de derrama, exigir que Minas Gerais completassem os 1500 quilos de ouro anuais devidos à coroa. Claro que estava amparado pela elite mineira que, assim que a coisa apertou, fez um acôrdo com o governo central e “tirou o pé”, ou o “c. da seringa”, deixando-o e a seus comandados ao sabor das ondas.

Por isso afirmo: O que move as revoluções, quer do pensar, ou de comportamento, é a necessidade mais rasteira que estiver ao alcance do descontente de plantão.

Pode acontecer dessas necessidades coincidirem com a distribuição de algumas migalhas ou até de riquezas maiores, como aconteceu nos EUA, quando os colonizadores, fugindo de situação muito desfavorável, vinham para se estabelecer, matando a quem quer que fosse: Nativos, desafetos, animais, florestas, sub solo etc., desde que sua fixação fosse proveitosa para suas futuras gerações, que não precisariam continuar em fuga.

A perestroika não foi muito diferente pois já não havia condições da URSS sustentar o império e a conveniente queda do muro apenas dividiu o bolo e a miséria. Ironicamente pode ser que hoje, seguindo as regras da natureza humana, hajam pessoas dos dois lados com saudades daquela fronteira, devidamente caladas pelo sistema vigente.

Talvez os verdadeiros idealistas sejam aqueles cujo o proveito de suas memórias apenas se deem após sua morte como é o caso de Raul Seixas que no dia 12 de Julho daquele ano concedia ao Jô sua última entrevista em vida (existem bichos-grilos que juram conversar com ele até hoje). Falou sobre sua “sociedade alternativa” que, apesar de ser simplesmente uma música, o obrigou a sair do país exilado em 1974. Foi para Nova Yorque sendo lá acolhido por John Lennon. Acabou comendo lixo na rua, a convite de um palhaço. Mas como ele mesmo disse: “Lixo americano é outra coisa”.

Em que pese todos esses personagens, alguns vivos, inegavelmente fazerem parte da história, podemos afirmar que Mikhail, Joaquim e Rauzito nela ficarão, já os outros...

Não é curioso que até um músico, que apesar de muito inteligente sempre foi totalmente desprovido de maiores aspirações tais como derrubada de muros ou mudanças radicais (a não ser a da cerveja para a “mardita”), sobrepuje figuras tão ilustres, antes inimigas vicerais e hoje, em nome do bom relacionamento político, abraçadas e sorridentes?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

TRANSPARÊNCIA


Pelo menos duas vezes por mês vou a uma agência bancária pertencente a um desses conglomerados que veem se formando nos últimos tempos. Aliás não dá pra entender muito bem o objetivo desses monopólios. Acontece que, como às vezes tenho que ficar por muito tempo dentro do estabelecimento, acabo lendo todas as propagandas e prospectos. Numa dessas seções de leitura me deparei com um gráfico complicado, coisa de marqueteiro europeu, onde os caras tentavam dar um significado melhor à sacanagem que é o sistema bancário, com seus juros exorbitantes etc. No final do cartaz que estava afixado na parede bem atrás do gerente estava escrito em letras “caixa alta”: FOCO NO FOCO DO CLIENTE. Certamente uma tradução infeliz de um copista brasileiro, ou até de um baita gozador.

Outro dia ouvi de um amigo que vive viajando pelo mundo que, na maioria dos países europeus, sobretudo nas grandes cidades, as pessoas olham-se como se fossem transparentes, ou seja, dificilmente consegue-se um “olho no olho”. Aí pude entender o "gancho" daquela propaganda, que em nossa língua me pareceu de duplo sentido.

Nesta época em que a palavra transparência está na moda, mais uma vez recorri aos léxicos com o objetivo de entendê-la de uma forma mais abrangente. Claro que intuitivamente já sabia que esta transparência da moda tenta dar sentido às aberrações político-financeiras e desmandos generalizados de que quase todo o poder público faz uso, como se o cargo desse ao afortunado o direito divino de escolher o que é bom ou ruim para a população sem dar satisfação (até rimou!).

Lendo uma reportagem do jornalista Bruno Paes Manso, publicada no Estadão em seu caderno de cidades, novamente apareceu a transparência a que meu amigo se referia, pois tratava-se de uma pequena vila no bairro de Pinheiros junto à qual se cogita construir um estacionamento de cinco pisos. A grita foi geral: Com muita justiça os moradores da pacata e rara vilinha, querem que a incorporadora aborte o empreendimento que vai tirar-lhes o sossêgo. Um desses moradores, arquiteto renomado, responsável por vários projetos de grandes construtoras aqui mesmo em São Paulo, disse: “Somos invisíveis”

A mesma reportagem citava que esta frase foi ouvida em outro despejo, que aconteceu em uma favela da Avenida Roberto Marinho, antiga Águas Espraiadas (O metro linear de via pública mais caro de que se tem notícia: 50 mil reais). Um morador desolado e sem ter para onde ir usou a mesma “transparência” que os deixava “invisíveis”, aos olhos das grandes corporações.

O despejo dessa favela aconteceu em minutos, com grande estardalhaço e derrubada impiedosa das moradias que antes se encontravam à beira de um riacho sem muita importância. Agora perto de uma grande rede de televisão, à beira de uma avenida que pretende se tornar importante, pois, começando numa ponte que serve de cenário para essa mesma emissora, até agora está sub utilizada. Já estão desapropriando outras favelas, mais acima do mesmo riacho, e ela finalmente será útil nesta São Paulo de trânsito caótico.

Em sua reportagem, Bruno, não sei se de propósito quando mencionou o despejo da avenida, me levou a comparar as duas situações.

Atentando para os moradores daquela vilinha que são pessoas bem mais abastadas e informadas do que aqueles desafortunados da avenida, em que pese a necessidade de grandes empreendimentos, passo a duvidar se os primeiros serão prejudicados, já que varios processos estão sendo impetrados contestando a construção do estacionamento, com direito inclusive a reportagem de página inteira no Estadão.

O artigo primeiro de nossa constituição diz que todos somos iguais perante a lei, mas como é sobejamente conhecido “alguns são mais iguais”.

Apesar de não constarem em nenhuma constuituição do mundo como direitos ou deveres, acabo de descobrir que “transparência” e “invisibilidade” são instituições informais convenientemente aplicadas de acordo com a posição socio econômica, interesses corporativos e do poder e quem sabe até pela “cor dos olhos”.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A MARMITA NOSSA DE CADA DIA

Sempre que me decido por um assunto, sobretudo quando posso sintetizá-lo em apenas uma palavra e não querendo perder a oportunidade de aprender, faço algumas pesquisas procurando saber o significado dessa palavra, sua etimologia, recorrendo até aos dicionários informais onde as pessoas postam significados às vezes inusitados. No caso de “marmita” achei os significados abaixo:

Dicionário informal:
-Mulher que a pessoa (marmiteiro) corteja, elogia e flerta (verbo "marmitar"), que pode ou não desencaminhar em uma relação, dependendo do grau de insistência. Há aqueles que marmitam, marmitam mas não pegam nada, que são os vinagretes (só acompanham).
-Refeição feita em/ por alguém de casa, acondicionada em um recipiente plástico para ser consumida mais tarde.

Dicionário Houaiss:
-panela de cobre ou de outro metal, provida de tampa
-recipiente de lata em que, nos quartéis, se serve rancho aos soldados
-conjunto de recipientes dispostos um sobre outro, seguros por uma armação na forma de alça, nos quais se transporta comida; vianda
-Derivação: por extensão de sentido.
-recipiente em que se transporta a própria refeição para o local de trabalho
-Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
-barriga, ventre
-Uso: informal.
-meretriz que sustenta um rufião
-Rubrica: fotografia.
-pequeno refletor de 1.000 W, com que se produz efeitos de luz de fundo

Quando cogitei falar da marmita, pensava naquela que, quando ainda trabalhava como empregado eu abria sem surpresa, pois na maioria das vezes já sabia o que ela continha, mas, em época de “vacas magras”, indignava-me justificando a repetição da mistura do dia anterior.

Nunca pensei que pudesse estar comendo a mulher citada no primeiro verbete ou o refletor do último. Sequer pensei que pudesse um dia conjugar o verbo marmitar, mas a nossa língua é mesmo surpreendente.

Na verdade esta idéia surgiu de uma conversa regada a cerveja e boas risadas, que tive com alguns amigos um dia desses. Lá relembrávamos nossas idas e vindas com o “tijolo”, nome muito utilizado na época como sinônimo de marmita, em baixo do braço ou dentro de uma bolsa a tiracolo chamada capanga ou até, para os mais envergonhados, em uma valise 007, última moda nos anos 70. O engraçado nisso é que todos sabiam que aquele sujeito metido a James Bond, pela qualidade da valise ou pelo próprio tipo, andando em um coletivo lotado, só podia estar carregando uma marmita. E ainda, quando a sobremesa fosse uma banana ou um caqui, pelo espaço que sobrava na mala, o cara iria comer uma musse da fruta.

Já soube até de casos em que o fulano levava sua marmita em uma caixa disfarçada de bíblia. Nesse caso todos pensavam que o cara era religioso, mas a única religião que ele professava era a que mata a fome da carne.

O arroz com feijão sempre foi a comida nacional brasileira e, via de regra, era o que tínhamos em nossa marmita, quase sempre acompanhada de um ou dois ovos, ou até, em épocas melhores, de um bife. Às vezes, na segunda-feira, tínhamos a sorte de termos nossa refeição garantida pela sobra da macarronada de domingo quando poderíamos até saborear uma ou duas bracholas ou almôndegas.

Por outro lado aquela macarronada vinha sempre “unidos venceremos”, quando temos que cortar o macarrão como se fosse um pedaço de pão molhado já que, depois de quase 24 horas, vários solavancos recebidos dentro do ônibus e um requentamento, ele se juntava molecularmente, de maneira que esse era a único jeito de ingeri-lo.

Nem sei se hoje com o advento do forno de microondas isso ainda ocorre, mas outro acontecimento muito freqüente era as marmitas encherem-se de água nos esquentadores a banho-maria. Acontecia assim: Você chegava mais cedo e colocava a sua em um marmiteiro com um pouco d’água. Como em seguida iam colocando outras marmitas, o nível da água ia subindo até chegar à borda das primeiras (já que, se o cara percebesse que o nivel iria atingir a sua ele improvisava algo para elevá-la), o que acabava transformando sua refeição em uma inesperada sopa. Diante disso muitas vezes só nos cabia escorrer a parte líquida e comer a parte sólida.

Tantas são as histórias sobre a marmita, mas vou lembrar apenas duas:
-Um de meus irmãos, que não declinarei o sobrenome, apenas o nome fictício de Edson, pegava rotineiramente uma carona para o trabalho na motocicleta de seu cunhado.
Num daqueles dias onde tudo está meio errado, saindo de casa atrasados, seu cunhado, grande piloto, fazendo as típicas manobras em zigue e zague com o objetivo de diminuir o tempo do percurso, provocou a queda da bolsa a tiracolo em que meu irmão carregava a marmita. Resultado: A bolsa ficou no meio do asfalto sendo esmagada por um ônibus que vinha logo em seguida. A carteira profissional que se encontrava na mesma bolsa segue até hoje como testemunha, com suas manchas de feijão.
-Esta outra não chega a ser uma história apenas uma constatação, já que soube que todos nós marmiteiros, sempre comíamos a nossa de olho nas dos outros, talvez na esperança de que o cheiro de outro tempero ou a visão de outra mistura, melhorasse nossa refeição. Chegávamos pra nosso almoço com a fome de ante ontem e abríamos nossa marmita com muita velocidade, o que provocava às vezes uma surpresa: Cadê a mistura? Até pensávamos que tínhamos sido roubados o que também não era incomum. Mas era engraçado quando descobríamos que a velocidade da abertura tinha colado o “zoiudu” na tampa.

Pena que alguns políticos, antigos carregadores de marmita, que hoje grassam pelos corredores do poder, pouco ou nada se lembrem dela: Da camaradagem e da honestidade intrínseca já que, quem carrega marmita, faz de tudo pra disfarçar, mas não consegue. Do sabor que a fome dá aos pratos mais simples.

Quem sabe essa lembrança pudesse aplacar a sede de poder que se instala em seus cérebros assim que conseguem o cargo público e os trouxesse mais perto das aspirações menores que tanto afligem seus eleitores. Sim, pois a maioria das pessoas quer apenas a dignidade de uma vida simples, ainda que sempre saboreando a saudosa marmita.
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