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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

BRECHÓ - A SOLUÇÃO DO MUNDO

UM DIA desses tive que ir até a Vila Mariana e, por atualmente ser quase impossível estacionarmos nossos carros nas ruas de São Paulo, principalmente em bairros perto do centro da cidade, tive que procurar um local um tanto longe do meu destino.
Por conta disso tive que caminhar por mais de um quilômetro. Pude então antever o calvário pelo qual passaremos quando ficarmos mais velhos e trôpegos, ainda que não tenhamos nenhum problema mais grave, além da velhice, é claro: As calçadas de nossa cidade estão muito erodidas (eu disse erodidas). Parece até que os prefeitos e outras autoridades competentes, além dos proprietários dos imóveis, corresponsáveis por essas manutenções, teimam em não cumprir, mais que a lei, uma obrigação social, como se todos só andássemos de carro.

Caminhando pude constatar outra observação que já tinha feito em varios bairros da capital, como Pinheiros, Moóca, Santo Amaro, Penha, Brás etc.: Quase todas as casas situadas em avenidas ou ruas um pouco mais movimentadas estão transformadas em pequenos comércios. Por vezes esses minúsculos estabelecimentos ocupam apenas as antigas garagens, mas , em alguns casos, utilizam todas as dependências do imóvel.
Afirmo ainda que esses pequenos negócios não são privilégio de nossa cidade, pois , em viagens de férias que fiz a algumas capitais brasileiras constatei o mesmo fenômeno.

Roda de cerveja é o lugar que nos fornece lucidez suficiente para resolver e digerir, quase sem passar mal, todos os problemas socioeconômicos, ambientais, de segurança pública etc., não só de nosso país, como também de todo o universo, assim acabo dando razão ao nosso proto-líder por manter-se etílicamente concentrado na medida em que seus “companheiros”, brincalhões como são, só o levam a serio desse jeito.
Principalmente nessas rodas venho debatendo há muito tempo que “o emprego, formal ou não, acabou”. Pelo menos aquele que possa dar ao empregado e sua familia uma vida com um mínimo de dignidade (aí incluídos: diversão, bem estar familiar, tranquilidade etc.). Claro que excluo os empregos que dependem do famoso “QI” (Quem indicou), bem como os do PDS (Parentes do Sarney).
Talvez aí esteja a explicação para o fenômeno que relatei no início.

Alguns desses pequenos negócios, dado o pequeno aporte de capital necessário para seu estabelecimento, são recorrentes: Pet Shops, cabeleireiros, produtos de limpeza, pequenos bares que se assemelham às mercearias de antigamente pois vendem quase tudo: desde agulhas para costura até cigarros e bebidas, além de terem mesas para os clientes poderem apreciar um sorvete ou um refrigerante, ou mesmo pra consumir “um dedo de prosa”, que costuma ser de graça; e o campeão deles: o Brechó.

Antigamente os brechós eram lugares onde a gente procurava apenas roupas e calçados usados. Hoje em dia, com a concorrência estabelecida pela quantidade de estabelecimentos, eles vendem também louças, talheres, móveis, instrumentos musicais, livros, relógios e tantas outras incontáveis quinquilharias.

Devo ter passado por uns três ou quatro brechós nesse curto espaço que percorri. Parece que, em bairros mais antigos, eles se proliferam e acabam se especializando, uns em roupas e acessórios como sapatos, xales, cintos e bolsas, outros em móveis e inutilidades domésticas dessas que são insistentemente anunciadas pelos meios de comunicação como solução pra tudo, desde descascar uma cebola sem chorar até tomar um cafezinho sem ter que esquentar a água, e outros ainda em antiguidades que se confundem com todos os outros itens, a ponto de acharmos que temos em casa algo muito valioso, que poderia solucionar definitivamente nossas finanças.

Com a quantidade de pequenos negócios que mencionei acho que vamos acabar vendendo coisas uns para os outros, retornando ao escambo (troca de mercadorias), modalidade de negócio mais antiga da humanidade.
Por outro lado o brechó já cumpre esse papel pois ele é o escoadouro de todos os nossos sonhos: Aquele joguinho de pratos chineses (A maioria “MADE IN CHINA”), taças de cristal da boemia, o relogio Pataca ou Ômega (Que a gente chamava de oméga ferradura, dado o seu símbolo ser a letra grega ), de todas as nossas frustrações: O descascador de batatas que nunca funcionou direito, aquele multi-processador manual que, na mão do vendedor fazia maravilhas mas nas nossas..., o casaco de peles que, por nunca ter feito frio a gente nunca usou, o sapato que compramos com número menor, achando que lacearia o suficiente, ou maior que encontramos numa liquidação irresistível, chapéus e tanta coisa mais que, se não tivéssemos comprado, não faria a menor falta.

O engraçado nisso tudo é que muita gente, inclusive eu, se sente tentada a adquirir todas essas coisas. Dessa maneira fica interessante a gente frequentar esses locais só para ficar observando as pessoas revirando um cesto de roupas ou, nos mais organizados, filas interminaveis de cabides com calças, camisas, ternos; prateleiras cheias de sapato (Fiquei sabendo outro dia que algumas pessoas escondem pares de sapatos dentro de guarda-roupas, lá do brechó mesmo, para levá-los em outra ocasião, visto estarem sem dinheiro naquela visita). Depois (Já vi acontecer uma porção de vezes) chega em casa e mostra a aquisição dizendo ¬Uma pechinha! Às vezes vem aquela pergunta: ¬Pra que serve?
Resposta ¬Acho que é pra... – A pessoa nem sabe pra que serve e comprou.

Outra coisa que o brechó pode resolver é o consumismo, praga que nos atinge há pelo menos um século, pois de um lado estão os que compraram e finalmente desistiram daquela inutilidade e, de outro, os que ainda descobrirão essa inutilidade, mas pela metade do preço.

Já temos brechós que vendem computadores e televisores (alguns modernos), material esportivo (Já vi até esquis de neve – Já pensaram: Quem compra esquis aqui no Brasil?)

Certa vez, há uns três anos atráz, não resisti e, a contragosto de minha esposa (Ela me diz isso até hoje, como se a aquisição tivesse sido ontem), comprei uma espiriteira de prata que era uma verdadeira pechinha. Cheguei em casa, dei um polimento na peça e a deixei novinha em folha. Depois de receber os elogios de praxe coloquei-a em cima de um armário onde está até hoje. Resultado: Ou dou de presente para que alguém a guarde por mais uns três anos e descubra sua inutilidade, o que vai me custar mais um polimento, ou devolvo para algum brechó por uns vinte por cento do que paguei. Negocião!

Outra característica encontrada em visitantes de brechós é que ninguém, ou quase ninguém admite que compra nesses estabelecimentos e, quando os visita o fazem apenas por curiosidade. Mas, não raro, encontramos alguns objetos em casas que visitamos que “só podem ter sido adquiridos em brechós”, sobretudo se levarmos em consideração o tempo de casados daqueles amigos. Quando indagamos invariavelmente respodem: ¬É herança.

Eu continuarei a visitá-los, pois sempre encontro coisas muito interessantes tais como discos, alguns livros raros (já comprei um que foi o único livro escrito pelo Henfil, e com dedicatória e tudo), móveis e utensílios que remetem à minha infância. Às vezes compro coisas apenas para mostrar para meus filhos que, de outra forma, certamente não teriam como conhecê-las.

Recomendo também aos políticos brasileiros que os visitem. Quem sabe lá eles consigam finalmente descobrir a inutilidade do poder que detém e que, no final, só serve para adquirir coisas que, de uma forma ou de outra, acabarão em algum brechó, pois, ainda que confeccionadas em ouro ou diamantes, tem menos importância do que a camisa que eles estejam vestindo ou a comida que consumiram em sua última refeição visto que nunca podemos afirmar que faremos a próxima. E ainda que todo o dinheiro e todos os bens que acumulamos não são nossos, uma vez que daqui nada levamos a não ser, caso haja outra vida, o que aprendemos, aí incluido o prazer, NOSSA EVENTUAL HONRA, e as frustrações de nossas vidas.

Lá também podemos encontrar um pouco de nossa história recente, em coisas que em breve estarão em museus (Afinal pra que esperar?).

Em diversos bairros de São Paulo os próprios imóveis estão sendo tratados como se estivessem em um brechó tal o estado deploravel em que se encontram. Seus proprietários, no afã de perpetuar suas dinastias, tentam vendê-los por valor muito maior do que efetivamente valem e, com sua morte, os herdeiros não conseguem negociá-los, muitas vêzes por litígio motivado pelas mesmas razões. Assim ficam ali, testemunhando o tempo ao sabor de ventos e intempéries que os destroem como se quizessem varrê-los da história, o que acaba efetivamente acontecendo, a não ser que sejam invadidos o que os transforma em cortiços, que convenhamos, é ainda pior.

Em Salvador, no caminho entre a cidade baixa e cidade alta, tem uma rua em que todos os edifícios (muito antigos) só tem as fachadas e quase todas quase caindo. Uma briga entre os herdeiros dos antigos proprietários e o poder público, inviabiliza qualquer restauro. Resultado: Um grande brechó a céu aberto.

Quem sabe, no dia em que nos desfizermos de tudo o que tivermos, segundo sua inutilidade de momento, não obtenhamos a tão sonhada harmonia social. Afinal, de alguma maneira, teremos que nos desfazer mesmo!


Nossa única herança de fato, ainda que também transitória, está exprimida neste poema de João Cabral de Melo Neto, que faz parte de seu texto: Morte e vida Severina e inclusive serviu em parte, para compor a letra da música Funeral de um Lavrador, de Chico Buarque de Hollanda:


Esta cova em que estás

Esta cova em que estás com palmos medida,/ é a cota menor que tiraste em vida/ É de bom tamanho,nem largo nem fundo/ é a parte que te cabe deste latifúndio/ Não é cova grande,é cova medida/ é a terra que querias ver dividida/ É uma cova grande para teu pouco defunto/ mas estarás mais ancho que estavas no mundo/ É uma cova grande para teu defunto parco/ porém mais que no mundo te sentirás largo/ É uma cova grande para tua carne pouca/ mas a terra dada não se abre a boca/ Viverás, e para sempre,na terra que aqui aforas/ e terás enfim tua roça/ Aí ficarás para sempre,livre do sol e da chuva/ criando tuas saúvas/ Agora trabalharás só para ti, não a meias/ como antes em terra alheia/ Trabalharás uma terra da qual, além de senhor/ serás homem de eito e trator/ Trabalhando nessa terra,tu sozinho tudo empreitas/ serás semente, adubo, colheita/ Trabalharás numa terra que também te abriga e te veste/ embora com o brim do Nordeste/ Será de terra tua derradeira camisa/ te veste, como nunca em vida/ Será de terra e tua melhor camisa/ te veste e ninguém cobiça/ Terás de terra completo agora o teu fato/ e pela primeira vez, sapato/ Como és homem,a terra te dará chapéu/ fosses mulher, xale ou véu/ Tua roupa melhor será de terra e não de fazenda/ não se rasga nem se remenda/ Tua roupa melhor e te ficará bem cingida/ como roupa feita à medida.






Um comentário:

  1. Bom dia Antonio Luis,...
    Dei uma olhada rápida no seu blog, e achei interessante seu texto sobre Brechó...
    Eu tenho uma , digamos , "fascinação" por brechó.
    Sempre quando passo por um desses estabelecimentos, com um tempo mais disponível eu entro e gosto de ver aquela mistura toda.
    As vezes eu compro alguma coisa e vou embora feliz com o aquisitivo.
    mas você fala muito bem do assunto...e mostra, quem sabe, nossa carência em alguns aspéctos a este respeito.
    Sou uma mulher vaidosa que gosta de estar sempre bonita , bem vestida , e elegante. Muitas vezes compro verdadeiros achados em acessórios...outra vezes descubro coisa interessantes importados, que na loja seria bem mais caro...e assim vou me entusiasmando com os brechós.
    No momento estou me policiando como conssumista que sou. Confessar isso não é fácil, mas assumi; o conssumismo me pegou e preciso me livrar dele... guardei todos os cartões de crédito, evito entrar em certas lojas e estou fazendo uma terapia comigo mesma a este respeito... e como sou determinada vou vencer esse mal que me pegou.
    volto depois a te visitar com mais tempo.
    Obrigada pelo endereço dado a mim.
    meu abraço.
    Se tiver um tempo me visite-
    antonieta salu meu jardim( entrar pelo google ou- www.antonietasalu.blogspot.com

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