FINALMENTE DECIDI ESCREVER

BEM VINDOS

ESCREVER É MUITO BOM, MAS SABER SER LIDO, É MUITO MELHOR

HOMENAGEM

Aos amigos que, mesmo sendo grama, sempre compartilham o cardápio.

Seguidores

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O FUNERAL

¬ALÔ...
¬Alô... Toninho?
¬E aê mano... Tudo bem?
¬Mais ou menos... O Pepe morreu.
¬Tá brincando!
¬Não... Morreu mesmo
A notícia caiu como uma bomba
¬Mas o Pepe, aquele da mercearia do Espanhol?
¬É... O Pepito, seu amigão do 2º ano, filho da Dona Lolita.
¬Que coisa. Do que foi?
¬Não sei muito bem ainda. Parece que foi mal súbito; enfarto fulminante; sei lá...

E a conversa telefônica entre eu e meu irmão seguiu por mais alguns minutos quando falamos do Pepe, que, apesar de ser mais velho que ele, durante muito tempo morou no mesmo bairro em que nós morávamos, e tornou-se nosso amigo comum.

Filho de imigrantes espanhóis o que lhe rendeu o apelido, aliás era assim que sua mãe o chamava, Pepe era o tipo de amigo que a gente chama de “cara legal”. Sempre alegre e divertido, pronto para todas as brincadeiras inclusive as ditas “femininas” motivo pelo qual sempre tinha sucesso entre as garotas. Bem educado a ponto de ser quase unanimidade entre os pais de seus colegas que invariavelmente o recomendavam como “boa companhia”, não me lembro de tê-lo visto uma única vez de mal humor.

Convivemos durante uns vinte anos, até que eu começasse a namorar com minha esposa. Daí pra frente ficou um pouco mais difícil, mas mesmo assim nos encontrávamos vez por outra em alguma festa ou reunião familiar de nosso antigo bairro. Acho que a última vez que o tinha visto tinha sido justamente no enterro de seu pai o Espanhol.

O que impressionava a todos que o conheciam era que durante todos aqueles anos o cara se manteve do mesmo jeito, sem nenhuma máscara, solícito etc. “O típico bom sujeito”

¬Quando foi?¬ Perguntei
¬Ontem. Só fiquei sabendo agora a pouco.
¬Que horas será o enterro?
¬Hoje, cinco da tarde, no mesmo cemitério que o Espanhol foi sepultado.

Conversamos mais um pouco e, olhando para o relógio decidi sair. Afinal não ia ficar sem me solidarizar à sua mãe, já velhinha e à sua irmã mais nova, além de certamente rever vários amigos que sabia que não faltariam ao funeral. Falei rapidamente com o pessoal do escritório e sai apressado, pois já passava das duas.

O dia ia carrancudo desde manhã com aquela chuvinha que vem e que vai hora forte hora fraca, mas sempre ali. Tipo aquela de molhar “bobo”: O cara diz ¬ Molha nada ¬ E daí a dez minutos está encharcado.

Meio da tarde já não é o melhor horário do trânsito em São Paulo e com chuva fica ainda pior.

No carro ia pensando no Pepe, em nossa infância quando ele era um dos poucos a emprestar sua bicicleta, artigo de luxo entre a criançada da época. Outros a quem pedíamos para dar “a clássica voltinha” quando cediam era cheio de recomendações:

¬Só uma voltinha... E não passa dali... Não passa naquela poça porque acabei de lavar.
Era tanto “se” que na maioria das vezes a gente acabava desistindo.

Mas com o Pepe era diferente. Por vezes ele mesmo nem andava tanto que cedia a vez para os colegas. Afinal tinha herdado de seus pais a bondade e a sensibilidade característica de quem passou maus bocados lá na Espanha, recém saída de guerras e revoluções, quando tudo faltava, de onde haviam praticamente fugido para construir sua vida e família aqui no Brasil.
Diversas vezes vi Dona Lolita chamar o filho de algum freguês que sabíamos não estar em boa situação, já que a “radio muro” quase não permitia segredos entre a comunidade e, ao lado do balcão de atendimento de sua mercearia, “às escondidas do Espanhol”, atendia o garoto com a maior atenção, entregando-lhe as mercadorias de que sua mãe necessitava.
Depois, por intermédio do Pepe soube que na verdade não era tão escondido assim. Na verdade o Espanhol, já que não adiantava reclamar, pedia que ela fizesse o atendimento daquela maneira para não desmoralizá-lo tirando-lhe a fama de durão. Engraçado como nunca perguntei o verdadeiro nome de seu pai

O trânsito não ajudava mesmo. Olhei para o relógio e já passava das três.

Dias chuvosos são propícios para reflexões e, diante da missão que me aguardava elas vinham aos borbotões, a ponto de, por diversas vezes, meus olhos marejarem.

Lembrei-me de diversas ocasiões engraçadas e ria sozinho pensando nas canas que roubamos, nos balões que pegamos, nas brigas da vizinhança reclamando dos carrinhos de rolimã. Sempre era ele quem se desculpava e livrava a nossa cara com nossos pais. O cara levava jeito mesmo. Parecia que os pais da gente gostavam mais dele que de nós mesmos. Hoje sei que respeito se consegue com muito trabalho e que Pepe sempre procurou cativar as pessoas a ponto de tornar-se quase insuspeito.

Houve momentos em que o riso ficou tão transparente que tive que me conter preocupado com os outros motoristas, pois quando o trânsito está quase parado todos ficam se olhando e, se você está rindo, quase perguntam: Rindo de quê?
Interessante como a gente tem que ter motivo pra rir para não parecermos loucos e ao estar mal-humorado parecer normal. Ser humano é besta mesmo!

Outra coisa que me veio à cabeça é como a gente esquece pessoas como Dona Lolita e o Espanhol. Durante nossa vida elas aparecem justamente nos momentos mais difíceis, nos ajudam e só nos lembramos delas a muito custo, em conversas sobre reminiscências que quase sempre procuramos esquecer. Lembrei do Sr. Alcides que também nos deixou há pouco tempo e tanto fez pelo nosso bairro, do Manuel português, também comerciante, o Sr. Bahia, dono de uma das casas que minha família morou pagando aluguel e que tantas vezes tolerou atrasos nos pagamentos. Enfim... Tem muita gente boa neste mundo e, para nossa sorte, é a maioria. Mas teimamos em exaltar a parte pior
dando mais importância à negatividade da situação do que às pessoas que nos ajudam a sair dela.
Quando cheguei ao velório já passava das quatro e pude constatar mais uma vez a popularidade do Pepe. Todo mundo estava lá. Revi vários amigos da escola, do bairro, pessoas que não via há anos. Por diversas vezes tentei chegar ao esquife e não consegui. Acabei desistindo e tracei uma estratégia: Já que o cemitério era dos mais antigos e tradicionais, onde o espaço entre as campas é pequeno, o caixão teria que ser carregado até o sepulcro pelos presentes. Então me posicionaria na saída do velório a fim de pelo menos carregar meu amigo por alguns metros, prestando assim minha última homenagem.

Isto posto me dediquei às conversas típicas de velório inclusive cheias de anedotas. Demos boas risadas o que acabou sendo mais uma homenagem ao nosso amigo que novamente conseguiu reunir-nos e, mesmo diante da fatalidade, não nos deixar tristes.

Já eram dez minutos depois das cinco quando o pessoal que estava dentro do velório começou a se movimentar e me postei junto à saída. Assim que, no meio da multidão que se formou junto à porta apareceu o caixão, peguei numa das alças, respeitosamente baixei a cabeça e pus-me em marcha.

Já ouvi dizer que, quando a pessoa é de boa alma e bom caráter, depois que morre o caixão fica leve. Mais uma vez constatei o caráter de Pepe, pois, apesar de seu metro e oitenta, não tive nenhuma dificuldade em carregá-lo.

Minutos depois, cumprindo o protocolo, levantei minha mão direita para ceder meu lugar já que tinha certeza que mais alguém gostaria de tomar meu posto. Fiquei surpreso por ninguém se habilitar e, vendo que nossa comitiva se distanciava de outra que dividia os presentes, olhei para trás e vi que além de mim, no meu lado do caixão, encontravam-se uma senhora já dos seus sessenta anos e uma jovem. Só então percebi que estava no enterro errado, sendo que o de Pepe seguia mais à minha esquerda.
Fiquei sem jeito de largar a alça, até porque elas sozinhas não agüentariam o caixão e segui até a última morada do marido daquela mulher, que soube depois ter morrido já bem velhinho e doente.

Quando finalmente pude me desvencilhar segui em direção ao jazigo da família do Pepe. Quando lá cheguei o enterro já havia acontecido. Estava escuro e a noite, que prometia ser fria e chuvosa como fora aquele dia, tornava o cemitério ainda mais lúgubre e misterioso.

Olhei para o túmulo de meu amigo e não pude conter o riso pensando:
Alma boa e bom caráter tudo bem...
Mas vai pesar pouco assim lá no céu!!
Valeu Pepito!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Powered By Blogger