Na TV, rádio e jornais era assunto diário (parecia até com a atual crise econômica mundial), todo mundo tirando uma lasquinha: tinha lancheirinha do cometa, revista do cometa, música do cometa, brinquedo do cometa, biscoito do cometa e até viagem que levaria alguns felizardos para acima das nuvens de onde, em aeronave luxuosa, saboreariam um delicioso jantar e poderiam ver o astro mais de perto (essa viagem custou um dinheirão e mesmo assim suas passagens esgotaram-se rapidamente).

Alguns dados sobre o astro:
-Edmond Halley, baseado em suas aparições nos anos de 1531, 1607 e 1682, calculou sua órbita em
76 anos. Quando o cometa voltou a surgir em 1758, como ele havia previsto, começou a ser chamado
de cometa Halley.
-É o cometa mais conhecido pela humanidade, com aparições registradas desde o ano 240 AC.
-Sua cauda mede o dobro da distância entre a terra e o sol.
-Seu núcleo mede entre trinta e quarenta quilômetros de diâmetro.
-Sua visita mais famosa ocorreu em 1066 DC.
-Havia relatos de suicídios e tragédias atribuídas à sua última passagem, até então em 1910.
Comovido, o mundo civilizado ficou olhando para cima. As pessoas procuravam todas as informações disponíveis em livros e revistas especializadas em astronomia e ciência.
Em casa não era diferente e por diversas noites ficávamos ali, de olho grudado no céu, na esperança de ver o cometa. Quase sempre éramos frustrados pelas noites nubladas daquele úmido final de inverno.
Por outro lado, notícias de astrônomos amadores e profissionais de todo o mundo que juravam estar acompanhando a passagem do astro, alimentavam nossas esperanças de observar o raro fenômeno.
Outro fato espetaculoso que acontecia naquele ano em nosso país era o plano cruzado que, a partir de 28 de fevereiro daquele ano transformou todos os brasileiros em “fiscais do Sarney”. Sim caro leitor, fiscais do nosso querido e probo e bigodudo senador.
Para os mais jovens devo explicar que nós vivíamos a hiperinflação (na época coisa de até 80 % ao mês – cerca de 2,5% ao dia). Nesse cenário, pra se ter uma idéia, se a gente tivesse de manhã R$ 100, 00 de tarde teríamos R$ 97,50 e, no final do mês, R$ 20,00. Como? Pela desvalorização do dinheiro que comprava cada vez menos e já tinha perdido cerca de nove zeros nos últimos 10 anos.
Com a promessa corrigir essa situação deplorável uma serie de medidas foram baixadas pelo governo, sendo que a mais importante era o congelamento de salários e preços. “Nós acreditamos” e viramos fiscais do governo denunciando os comerciantes que não cumprissem a tabela de preços divulgada juntamente com o plano e, tal qual a GESTAPO alemã ou a KGB russa, eles vinham e fechavam ou multavam os malfeitores.
Apesar de ser uma boa idéia, pouco diferente do que foi o plano real que instituiu a moeda que utilizamos hoje, a medida não deu certo. Era apenas “politiqueira” e seu objetivo acabou sendo eleger os candidatos a governadores do partido oposicionista da época: O mesmo PMDB dos mesmos caciques que até hoje brilham em nosso noticiário político-policial.
O pior de tudo é que conseguiram seu intento elegendo 22 dos 26 governadores. Como podem observar: “Em terra de Abrantes, tudo está como dantes”.
Daí poderíamos até cunhar em nosso rico vernáculo uma nova expressão: “MENTIRA BIGODUDA”.
E lá estávamos nós à mercê de tanta notícia – “tabela na mão e cabeça erguida” -, orgulhosos de sermos os fiscais do presidente e ansiosos para vermos o cometa Halley.
Nessa época eu e minha família morávamos numa modesta casa de quarto, sala e cozinha na periferia da zona sul da cidade de São Paulo em um bairro bem aconchegante onde a camaradagem ainda era usual e o bom e velho “bate papo” ainda acontecia na calçada e nossos filhos terminavam seu dia brincado na rua.
No entanto aquele entardecer estava especial: depois de exercer meu papel de fiscal e dar a minha costumeira bronca em algum comerciante que praticava preços fora da tabela eu chegava em casa. Apesar de não ser tão tarde o céu já estava escuro e estrelado como há muito não se via, nenhum vento, friozinho seco anunciando o final do inverno e convidando para um chocolate quente ou uma sopa que eu, antes mesmo de chegar em casa, já saboreava em minha imaginação.
Antes mesmo de estacionar o carro na garagem encontrei uma pequena aglomeração em frente à minha residência que acreditei ser, como em outras ocasiões, alguma das brincadeiras que sempre aconteciam por ali (pega-pega, esconde-esconde entre tantas outras), mas, para minha surpresa, todos estavam com suas cabeças voltadas para o alto, olhos fixos em algo que eu não podia ver, mas logo desconfiei: O COMETA
Rapidamente juntei-me a eles procurando na abóbada celeste algum sinal do astro e perguntei: -Viram o cometa?... Onde?
-Ali- disse-me minha esposa apontando e me posicionando – perto daquele fio – e mostrava o fio de alta tensão que passava por cima de nossas cabeças- Tá vendo?
Com grande esforço, depois de algum tempo, consegui visualizar o que eles me mostravam: Uma pequena mancha esbranquiçada que apesar de tênue, tinha a forma que os especialistas diziam nos noticiários: um pequeno núcleo com uma cauda mais larga, parecendo uma pluma de espanador. “Depois de tanta procura lá estava ele espetacular, raro, único”.
Ficamos ali durante alguns intermináveis minutos extasiados, mostrando o astro um para o outro.
Meus filhos, um com seis, outro com quatro e o mais jovem com apenas dois para três anos, não davam a devida importância para o fato e eu preocupado com isso, comecei a discursar solenemente (afinal a oportunidade não poderia ser desperdiçada):
-Guardem bem este dia, pois daqui a 76 anos, SOMENTE DAQUI A SETENTA E SEIS ANOS, o cometa Halley passará por aqui de novo.
E a conversa se acalorou:
-Tá vendo? – Dizia minha esposa para o mais velho
-Não...Onde?
-Ali... Pertinho do fio.
-Ah! Vi!! – Diziam em coro os dois maiores
E o menor, já com ar de choro:
-Também quero ver... Também quero ver...
E o maior, fazendo birra:
-Você não viu!!! Você não viu!!!
O segundo, não querendo ficar para traz, batia o pé:
-Eu vi... Eu vi...Vi sim... Não foi mãe? Vi sim e pronto.
E o menor já chorando:
-Também quero ver... Também quero.
E lá estávamos nós. Família unida. Harmonia. Vizinhança em festa. Coisa linda mesmo.
Enfim estávamos participando da história e eu, já com os olhos rasos d’água repetindo:
-Guardem bem este dia (e citei enfaticamente a data), pois daqui a quase 80 anos provavelmente um de vocês contará a seus netos.
Nesse momento, como que concordando e tornando mais marcante o momento, uma lufada de ar fresco refrigerou nossa conversa. Quase que imediatamente nosso segundo filho gritou:
-Tá se mexendo... Tá se mexendo...
A leve e generosa brisa balançou a pipa que estava presa ao fio
Rimos muito e entramos. Afinal a sopa já estava esfriando na mesa.

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