TUDO seguia na mais absoluta normalidade: Sabadão, solão de rachar mamona verde, daqueles dias que a gente, que gosta de praticar um futebolzinho sadio com os amigos, onde a briga e os pontapés são permitidos, desde que tudo em nome do bom e velho esporte bretão e que, depois do jogo, tudo termine em cerveja, quase como fazem os políticos de nosso país. Quase porque, no nosso caso, o prejuízo é nosso: hematomas, sede de vingança na esperança de na próxima semana descontar (o que acaba não acontecendo, pois quem bate e quem apanha são sempre os mesmos). No caso dos políticos o prejuízo também é nosso e o lucro deles. Afinal eles nunca poderão ter nem entender nosso prazer nem nós o deles então é melhor deixar prá lá e seguir nosso assunto.
Oito e meia da manhã. Peguei minhas tralhas, que sempre preparo no dia anterior, pois o bom futeboleiro leva, além dos apetrechos para a prática esportiva, outros para a prática cachaçativa, tais como copos descartáveis, a marvada em uma garrafinha discreta, tipo de algum isotônico. Não tem a menor graça todo mundo saber o que tem lá dentro da garrafinha em que todo mundo quer se benzer antes da peleja e às vezes durante também. Como diz meu amigo Kaxxa, nunca aparece ninguém com a palavra (bíblia), mas com a danada!
Lá pela uma da tarde já estava de volta. Cansado, melado e pedindo a Deus que o mundo acabasse só depois que eu chegasse em casa (pra morrer dormindo). Naquele tempo ainda morava em uma casa modesta de quarto, sala e cozinha e sempre entrava pelos fundos, pois ai de mim se sapateasse areia na sala já que, naquele tempo o futebol soçaite era praticado em campos de areia. A porta ficava em frente à geladeira. Logo que entrei, antes mesmo de me desfazer de minha bolsa, que trazia a tira-colo, procurei um copo com água gelada que aplacasse a sede, a ressaca que já se instalava e a insolação. Aquele mês de Maio estava atípico: muito quente e seco.
Ao abrir a porta da geladeira caiu um pequeno envelope no chão. Sem dar importância tomei a água e devolvi a garrafa ao seu lugar. Abaixei-me e peguei o envelope no qual li: Para Marta e família. Já imaginando o que poderia ser não deveria, mas abri o envelope. Dito e feito: Casamento da irmã de alguém. Pensei em não dizer nada, mas não sabendo o grau de amizade que havia entre quem convidou e minha esposa, fiquei sem jeito e chamei a atenção dela pra o convite.
¬Temos que ir ¬disse ela ¬Fulana me convidou e faz questão de nossa presença.
¬Então chama os meninos e se apressa, pois aqui diz cinco da tarde naquela igrejinha lá de cima, perto do colégio.
¬Mas tem que ser tão depressa?
Já começava a discussão que nem vou descrever já que alongaria demais a estória.
O que sempre foi muito bom no nosso relacionamento é que sempre acabamos rindo de tudo o que acontece, sobretudo essas roubadas. Entre uma briga e outra a gente sempre dá boas risadas. Acho que esse é o segredo da gente se aturar por tanto tempo.
Tomei mais um ou dois copos de água pra amainar mais um pouco a situação já que o tampo da cabeça insistia em querer explodir e, com a correria que se instalou as coisas só tendiam a piorar, e fui me arrumar.
¬ Já são quatro e meia¬ disse eu¬ Vamos?
¬ Espera aí. Pra você é muito fácil falar... ¬ Mais um capítulo de: “Só muda o endereço” a novela mais encenada na família brasileira. Aliás, eu não entendo as novelas (dita tele-dramaturgia brasileira). Nunca tem um peidinho, uma prisão de ventre. Toda briga, toda intriga tem um fundo “sócio-ideológico-cultural”.
Pô! A gente briga porque briga, e pronto.
¬ Esse menino não quer pentear o cabelo¬ Seguimos assim por mais alguns minutos e, pra variar, saímos atrasados.
¬Vamos logo tenho que abastecer e ver o óleo do carro, pois está vazando um pouquinho (Tentando minimizar o vazamento. Afinal fusca que se preza vaza óleo e aquele “vazava”. Era um litro por semana).
Apesar de ter ficado comigo durante vários anos acho que nunca parei pra trocar o óleo do bichinho, e ele “quase nunca” me deixava na mão.
Posso garantir aos mais jovens que festa de casamento foi sempre igual: Noiva de branco com buquê que ela nunca joga, pois quer guardá-lo de recordação, mesas decoradas às vezes apenas uma mesa que contém: champanhe, bolo, brigadeiros, beijinhos, olho-de-sogra, que ninguém pode mexer até tirar todas as fotos com parentes, padrinhos e amigos. Nunca entendi pra que doces verdadeiros. Poderiam ser de plástico que durariam muito mais. Naquela época ainda tinha “cabeça-de-nêga”, quitute da mais alta estirpe (quem não conhecer pergunte aos pais ou até aos avôs), grande sucesso gastronômico; tinha também canapés: pão-de-forma cortado em quatro, besuntado de maionese Hellman’s, com um pedacinho de tomate ou pimentão em cima. E pra ficar bom tem que fazer pela manhã e só comer no final da tarde, acho que para as bactérias semi-digerirem a maionese. Só sei que a gente comia tudo e, se passava mal, nem debitava à guloseima.
Seguíamos o caminho conversando sobre esse e outros assuntos relativos a festas de casamento. Lembramos do nosso quando choveu tanto que minha esposa quase não conseguiu sair de casa e chegando à igreja, não encontrou ninguém na porta já que todos estavam dentro do templo. Um bêbado que se abrigava por ali foi quem a ajudou a abrir a calda do vestido. Nessa tarefa o cara acabou caindo e foi uma zona total.
Já ríamos antevendo alguma gafe que certamente aconteceria.
Outra coisa que era quase obrigatória em festas de casamento era o Chope. “Gelado diretamente no barril”, que na época era barril mesmo, igualzinho àqueles em que os piratas levavam rum: de madeira. Pra se ter uma idéia só instalar a bomba já era missão quase impossível em que o doido que se aventurava saia sempre molhado.
A maneira como se gelava o precioso líquido era se colocar barras de gelo enormes em cima dos barris, acompanhadas de serragem. Quer dizer: Uma baita sujeira e chope quente.
Dessa maneira não faltava assunto: Chope quente, bolo com uma camada de glacê de mais de dois centímetros de altura que invariavelmente acabava jogada nos cantos da casa ou do salão chegando a provocar quedas já que a cobertura sempre era feita com gordura vegetal ou margarina e açúcar, além de anilina que dava o colorido ao doce, brigadeiros que a gente só comeria se tivéssemos coragem de roubar algum, cerimônia religiosa demorada etc. Íamos ora rindo, ora brigando com a molecada, que ora brigava, ora ria, ora chorava. A típica família brasileira de classe baixa (e bota baixa nisso), a caminho de uma típica festa de casamento.
Perguntei: ¬ Será que vai ter cortejo?¬ Todo mundo riu, já ridicularizando meu fusca
Aproveitei para contar mais uma vez (em casa dizem que conto uma anedota mais de cem vezes sempre perguntando: vocês sabiam?) a história que aconteceu certa vez quando o fusca cismou de parar.
Eram mais de nove da noite e chovia, nem forte nem fraco, aquela chuvinha que molha devagar e sempre. O carrinho cismou de parar bem em cima de uma linha férrea que passa perto de onde morávamos. Lá nunca passava trem, mas, pelas leis universais de Murphy, tinha certeza que passaria um e esmagaria meu fusca. Comecei a fuçar o motor, sem entender patavina, pois, como mecânico, sou excelente escritor. Sem alternativa lá fiquei eu por mais de meia hora.
O lugar era ermo, mas, como enviados divinos, apareceram três rapazes que se propuseram a me ajudar.
Perguntei: ¬Alguém sabe mexer em motor? – Um deles me respondeu prontamente: ¬ O Zé, este aqui, ¬ Apontando para um dos outros ¬ “conhece tudo”. Trabalha em oficina há um tempão.
Aliviado, dei graças e pus-me a conversar com os dois que, como eu, não entendiam nada, deixando o “Zé” trabalhar sossegado. Já pensava em quanto me custaria aquela “ajuda” preocupado inclusive se não seria assaltado e acabando a pé, e sem dinheiro.
Meia hora depois, finalmente o “Zé” levantou-se e enfaticamente diagnosticou:
¬ O pobrema é na valva.
Imediatamente me dei conta da roubada em que estava, mas, tentando salvar a reputação do “Zé”, perguntei:
¬ Você faz o que mesmo?
¬ Sou meio oficial de funileiro.
PÔ! Pensei eu. Funileiro e ainda meio oficial?
Não tive dúvidas
¬Pessoal... Vamos empurrar para o outro lado da linha antes que passe um trem e a coisa fique pior.
Todos me ajudaram e, como após a passagem de nível havia uma descida acentuada, tentei em desespero engatar uma segunda. Não é que o carro pegou!
Fui embora sem olhar para traz.
Depois dessa história já estávamos em frente à igreja. Procurei um lugar pra estacionar e saímos quase correndo, já que passava das cinco e meia e a cerimônia já deveria estar terminando.
Entramos no templo e tentamos reconhecer dentre as pessoas presentes a amiga de minha esposa. Não conseguimos e nos colocamos perto da porta de saída, na esperança de, ao final, encontrar a moça.
A cerimônia acabou e nada dela aparecer.
Saímos do templo e seguimos para o endereço indicado no convite, onde haveria a recepção.
O dia, apesar de seis da tarde, seguia claro e aproveitei para contar a história do casamento do amigo do Odair.
¬ Que Odair?¬ Perguntou a Marta
¬ O da Tereza, que outro Odair conhecemos? (Mais uma discussão)
O Odair me contou que esteve em um casamento lá para os lados de Santana. Acontece que a maioria dos convidados do noivo era, por força de trabalharem juntos, da Zona Sul de São Paulo, lado oposto a esse Bairro, portanto pouco conhecedores da região.
Odair, mais afeito aos caminhos e descaminhos da cidade, teve pouca dificuldade para encontrar o endereço.
Acontece que vários dos amigos não chegavam e, como não havia celulares, estava difícil de entender o que estava acontecendo. Bem, algum tempo depois, começaram a chegar os atrasados.
Puderam então saber o que havia ocorrido:
No mapa que o noivo entregou para todos havia a seguinte indicação:
Entrar à direita antes do penúltimo semáforo. Quer dizer: teve gente que foi até Guarulhos.
Estávamos rindo quando chegamos à casa da noiva.
Descemos mais uma vez quase correndo. Dessa vez atentei para meu sapato, dando um último talento com o paninho que sempre está no porta-luvas de qualquer fusca e segui para a festa.
Não vimos movimento condizente com algum convescote, somente algumas pessoas conversando em frente ao endereço indicado e perguntei:
¬ Estamos procurando o casamento da (...). É aqui
¬ Foi na semana passada ¬ Me respondeu uma jovem e emendou: ¬ Ela está em lua-de-mel.
Meio atarantado olhei para traz e me vi sozinho, pois todos já tinham entrado no fusca, e me esperavam como se nada tivesse acontecido.
Somente aí atentei para a data indicada no convite, de uma semana atrás.
Só queria saber de quem era o casamento que participamos lá na igreja

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