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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O TEMPO NÃO PÁRA - AINDA BEM!


ANTIGAMENTE, mas não muito, eu, quando via as decorações típicas do Natal, ficava excitado, na expectativa da compra de presentes e conseqüente entrega em uma noite que seria muito alegre, repleta de familiares, com muitos risos e manifestações de afeto.


Ultimamente só tenho conseguido pensar na velocidade, cada vez maior, com que essas decorações tem acontecido. Chego a quase afirmar que, em virtude da voracidade comercial, o natal está se repetindo duas vezes por ano.
Nem bem dizemos “feliz ano novo”, e os blocos carnavalescos já estão na rua anunciando com uma felicidade inexplicável, a chegada do final do ano.

Principalmente no Brasil a coisa é bem assim: Ano novo, carnaval, páscoa, férias, um monte de feriados (independência, república, Nossa Senhora) e natal/ano novo de novo.

Quer dizer, depois do carnaval, quando terminam as férias, meia dúzia de eventos nos leva diretamente ao abismo do envelhecimento (ainda bem!).

Dia desses, interpelado por meu filho, que lembrava de sua infância, quando os amigos eram realmente importantes, a ponto de mantê-los até hoje, começamos a filosofar sobre o assunto. Coincidentemente recebi uma mensagem eletrônica por esses dias que falava sobre a mesma coisa. Mencionava que nosso cérebro percebe o tempo de acordo com os eventos externos: Caso sejamos encerrados durante algum tempo em uma sala de cor branca e sem nenhum objeto, rapidamente perdemos a noção do tempo. Dessa maneira aquele e-mail terminava aconselhando-nos a quebrar nossas rotinas continuamente, com o objetivo de sentirmos o tempo e mantermos nosso cérebro em constante atividade, a fim de absorver situações inesperadas.

Ocorre que a própria humanidade procura a rotina, pois é ela que nos dá a sensação de segurança e continuidade.

Não, tempo, não zombarás de minhas mudanças!
As pirâmides que novamente construíste
Não me parecem novas, nem estranhas;
Apenas as mesmas com novas vestimentas


Willian Shakespeare (1554-1616)

Podemos observar que Shakespeare, mesmo tendo morrido aos 62 anos, jovem para os padrões atuais, percebeu a importância das duas coisas: a rotina, que nos dá segurança e a necessidade constante de nos rebelarmos contra ela. Provavelmente ali estivesse o segredo de sua criatividade e presença de espírito que nos legou textos discutidos e encenados até nossos dias; provavelmente, desafiando o inexorável, fiquem para a eternidade.

Particularmente descobri que escrevendo, tenho conseguido ser mais disciplinado, uma vez que me comprometi a escrever constantemente (olha aí a rotina). Por outro lado, tendo que interessar meus leitores, procuro falar sobre assuntos diversos, me induzindo a pesquisas cada vez mais aprofundadas (olha aí as mudanças). Se receber um elogio então (ás vezes até só um “li seu artigo”), volta-me a sensação da qual falei no início.

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.


Fernando Sabino (1923-2004)

A partir deste pensamento de nosso contemporâneo Fernando Sabino, chego à conclusão que a rotina serve para valorizarmos os momentos especiais que, à medida que envelhecemos e nos enriquecemos com mais experiências, vão ficando cada vez mais raros. Na mesma medida essa raridade tende a torná-los cada vez mais importantes. Evidentemente o Natal, uma vez que cada vez mais está ligado muito mais ao movimento de “rebanho” ao qual as “elites” procuram nos conduzir a fim de encobrir a absoluta miséria imposta a grande parte de nossos semelhantes, tende a perder totalmente o encanto (acho que já perdeu). Devemos levar isso em conta para tirá-lo de nossa lista de eventos importantes, caso queiramos nos “sentir vivos”.

Em virtude da tecnologia, hoje em dia o registro histórico é muito mais preciso. No entanto parece que, necessitados de novidades, não lhe damos a menor importância. Esse registro, que outrora servia para nos transmitir experiências novas, acaba não servindo para nada, já que, seguindo a mesma lógica, a notícia também envelhece.

No mais, já que até peido de boi pode nos matar, o jeito é pensar melhor se estamos valorizando devidamente cada momento de nossas curtas vidas.

Ainda bem, pois já pensaram em um desses políticos brasileiros com 200 anos? Certamente se tornaria “imperador absoluto ou quem sabe até Deus”. A providência é sábia!

Para não parecer pessimista, seguem meus votos de um FELIZ NATAL.



Um comentário:

  1. Concordo contigo no que diz respeito ao comercio engolindo o verdadeiro sentido do Natal, porém no que diz respeito ao interesse por ele acho que tudo é uma questão de melhor idade. Pois com ela nós passamos a nos interessar por tudo de uma forma diferente. A parte triste é que o desinteresse começa quando percebemos que nossos filhos cresceram. Mas na minha opinião ele (o interesse) retornará, para isso bastam chegarem os netos.
    Feliz natal a voce tambem
    OBS: temos que organizar a nossa festa.
    HAHAHA!!!!

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