Já a segunda mudança foi muito dura, pois nossa moradia, que era um apartamento bem perto do centro comercial de Santo Amaro, um bairro da Zona Sul de São Paulo, apesar de ser alugada, era como se fosse nossa uma vez que lá chegamos inaugurando o prédio. Dessa maneira nos sentíamos muito seguros naquele lugar e, para as crianças de uma maneria geral, esse tipo de segurança é muito importante.
No meu caso a sensação foi de perda total: Amigos, escola, o primeiro amor, a continuidade do ano letivo, as brincadeiras à beira do Rio Pinheiros que, apesar de já muito poluído àquela época, servía-nos de área de lazer sem fronteiras, tão características hoje em dia.
Eu e meus amigos saíamos pela manhã, ou logo depois de chegarmos da escola, e só voltávamos pra casa já com noite feita. Nossas mães ralhavam apenas por não termos tomado banho ou nos atrazado para o jantar. Não me lembro de ocasião em que minha segurança tenha sido questionada. Quanta diferença!!
Uma curiosidade é que voltamos praticamente para o mesmo bairro de onde havíamos saído em nossa primeira mudança, mas, pra mim, e hoje sei que também para minha mãe e meus irmãos, foi uma das maiores tristezas e frustrações de nossas vidas.
Conciente das distâncias que separam aqueles lugares: dez, doze quilômetros, hoje sei que não precisaria ser tão dramático assim. No entanto sempre que passo pelo lugar sinto-me nostálgico com a mesma sensação que tive na ocasião.
Podemos ver nessas fotografias tão bem reportadas por Caetano Veloso em sua obra “Terra”, países e mares a um só olhar e, como disse Toquinho “de uma América à outra irmos em apenas um segundo”. Elas mostram-nos, em nossa "pequenês humana", que a despedida pode ser triste, independentemente da distância, que sempre será relativa.
Se parármos em uma estação rodoviária podemos, sem muito esforço observar essa tristeza a todo momento:
Um pai deixa os filhos para ir trabalhar em outra cidade, ou uma avó que veio visitar os filhos e netos e está de volta pra casa, por achar-se mais próxima da eternidade que da vida, segue com a sensação de que nunca mais vai vê-los; um filho sai para trabalhar ou estudar em outra cidade e, nunca tendo deixado sua casa, a não ser em alguma viagem de recreio, não sabe se voltará, pois, com o aumento da disputa por empregos, a tendência é cada vez mais nos tornarmos nômades. Enfim despedidas são sempre suscetíveis de serem as últimas e a distância apenas exacerba essa sensação.
Afortunadamente, a despeito de meus “ais”, eu nasci e me criei nesta cidade de São Paulo, tendo saído daqui em pouquíssimas ocasiões, a maioria delas a passeio e pouco sei de grandes despedidas. Meu pai no entanto era de Salvador, capital baiana de tantas histórias e folclores. De lá saiu e veio aportar nesta cidade que, já naquela época, 1952, era muito grande e agitada. Aqui chegou praticamente com a roupa do corpo.
Juntamente com minha mãe, que encontrou por aqui egressa do interior de São Paulo, filha de imigrantes italianos também fugidos da miséria provocada pela primeira guerra mundial, ela mesma fugida do trabalho semi-escravo ao qual ela, meus tios e meus avós foram submetidos em plantações de café, formou familia criando sete filhos.
Quantas despedidas, a maioria provocada pela miséria humana, poderíamos enumerar.
Um dia desses eu ouvi de um amigo que nada é mais triste do que sair de um porto, a bordo de um navio, para provavelmente nunca mais voltar.
Ele me disse que saiu de sua terra aos vinte e tantos anos e viu o lugar onde nasceu e que tanto amava, ficando para tráz, bem devagar, quase como um devaneio.
Entre milhares de pessoas, seus familiares agitavam lenços brancos, previamente preparados e ensaiados, num triste balé, na vã e desesperada tentativa de que ele pudesse vê-los uma última vêz, no meio daquele mar de acenos.
Trabalhando com turismo, retornou em diversas ocasiões mas essa lembrança ficou marcada de tal maneira que ele me garante: Se existir alma, é lá que ela está.
A característica humana que mais nos difere dos outros animais, colocando-nos no topo da cadeia evolutiva, além da inteligência (inteligência?) é o nomadismo associado à nossa grande adaptabilidade.
No entanto convenhamos: É duro ir embora.

Feliz daqueles que não se prendem ao passado, que o tem apenas como referência, importante mas apenas uma referência. Eu sou mais ou menos assim, não sei se isso bom ou ruim, mas é pelo é bem menos sofrido.
ResponderExcluirAgora, não entendi pq vc não quis dizer o nome do amigo... que aliás nem precisa... rs
Abração Zanatinha, continue escrevendo, mas vc precisa divulgar. No Orkut tem várias comunidades que se prestam a isto... divulgar.
É como vc disse, escrever é bom, mas saber ser lido é muito melhor.
Errata: "...que é pelo menos, bem menos sofrido."
ResponderExcluirEu não disse pra provocar mesmo (rs)
ResponderExcluirAbração
Zanata
Sempre ouço as histórias de meu pai, quando passamos por Santo Amaro. Eu me mudei uma vez só, e o que ele escreveu é uma verdade. Minha sorte é que hoje consigo frequentar meu antigo bairro e rever meus amigos. Mas foi bem dificil também.
ResponderExcluirFalo como se eu tivesse 50 anos, mas lembranças são coisas que aconteceram ontem.
Ficou bem fiel o texto, eu garanto.
Abraço.
Kadu.
Sentimos saudade de certos momentos da nossa vida e de certos momentos de pessoas que passaram por ela.
ResponderExcluirDespedidas, são em sua maioria, muito tristes!